Quem é
Nástienka, diminutivo de Anastácia, é uma moça de dezessete anos, órfã de pai e mãe, que mora com a avó numa casinha de madeira de São Petersburgo, presa ao vestido dela por um alfinete (O alfinete). Na Primeira Noite ela ainda não tem nome: é a moça que chora encostada à grade do cais (O cais e o banco) e que o Sonhador livra de um bêbado. Só diz o nome na Segunda Noite, antes de ouvir a história dele. Espera há um ano a volta do inquilino, o moço que lhe emprestava livros, a levou à ópera e prometeu, ao partir para Moscou, voltar e casar com ela se pudesse, e é essa espera que a leva ao cais. O que ela quer é sair da vigilância da avó e ser escolhida pelo homem que escolheu; o que mais teme, como ela mesma diz, é a recusa. Tudo o que se sabe dela vem pela voz do Sonhador, que a ama, e pela dela própria, quando ele lhe passa a palavra.
Trajetória
Na Primeira Noite, ela aceita o braço de um desconhecido ainda tremendo, ri da confissão dele de que só amou ideais e logo o defende contra si mesmo, chamando-o de inimigo de si próprio. Concorda em voltar no dia seguinte por razões que guarda para si e impõe a condição que vai organizar o resto do livro:
не влюбляйтесь в меня… Это нельзя, уверяю вас, não se apaixone por mim... Isso não pode, garanto ao senhor.
Diz também que confia nele como se fossem amigos de vinte anos, porque também não tem a quem pedir conselho.
Na Segunda Noite, chega rindo, diz que passou o dia pensando nele e pede que ele conte a sua história. Ouve o discurso inteiro sem rir, aperta-lhe a mão e pergunta, com uma compaixão tímida, se ele viveu sempre assim; quando ele diz que sim, responde que não pode ser, porque desse modo ela também viverá a vida inteira ao lado da avó. Propõe um pacto, ficarem juntos aconteça o que acontecer, e pede em troca um conselho do coração, de irmão.
Na história de Nástienka, na Segunda Noite, conta como a avó, depois de uma travessura que ela não revela, a prendeu ao vestido:
взяла булавку и пришпилила мое платье к своему, да тут и сказала, что так мы будем всю жизнь сидеть, если, разумеется, я не сделаюсь лучше, pegou um alfinete e prendeu o meu vestido ao dela, e ali mesmo disse que assim ficaríamos sentadas a vida inteira, a menos, é claro, que eu me tornasse melhor.
Conta a troca com Fiekla, a criada surda, que desprendeu o alfinete e fugiu; a chegada do inquilino; a vergonha diante dele no dia em que arrastou a poltrona da avó ao se levantar; os livros de Walter Scott e de Púchkin, que a fazem parar de sonhar com o príncipe chinês; a ópera (O Barbeiro de Sevilha) e o tempo em que achou que ele só tinha pena dela. Na véspera da partida dele para Moscou, sobe ao quarto dele com uma trouxa:
сказала, что не могу жить у бабушки, что убегу от нее, что не хочу, чтоб меня булавкой пришпиливали, и что я, как он хочет, поеду с ним в Москву, потому что без него жить не могу. И стыд, и любовь, и гордость — все разом говорило во мне, и я чуть не в судорогах упала на постель. Я так боялась отказа!, disse que não podia viver com a avó, que ia fugir dela, que não queria que me prendessem com alfinete, e que, se ele quisesse, iria com ele para Moscou, porque sem ele não podia viver. A vergonha, o amor, o orgulho, tudo falava em mim ao mesmo tempo, e eu caí na cama quase em convulsões. Eu tinha tanto medo de uma recusa!
O inquilino responde com uma promessa que a deixa livre:
Но, повторяю, если через год это не сделается, то хоть когда-нибудь непременно будет; разумеется — в том случае, если вы не предпочтете мне другого, потому что связывать вас каким-нибудь словом я не могу и не смею., Mas, repito, se em um ano isso não acontecer, um dia há de acontecer, sem falta; é claro, no caso de a senhora não preferir outro a mim, porque prendê-la com alguma palavra eu não posso nem ouso.
O ano passou, ele está na cidade há três dias e não apareceu. Diz que escrever ao inquilino seria se oferecer, ouve o Sonhador ditar a carta que ela deveria escrever e lhe entrega uma carta já pronta, lacrada, como Rosina na ópera (A carta):
R, o - Ro, s, i - si, n, a - na, R, o, Ro, s, i, si, n, a, na
Na Terceira Noite, chega uma hora antes, certa de que o inquilino virá, e a alegria a torna terna com o Sonhador. Explica por que gosta tanto dele:
Я оттого люблю вас, что вы не влюбились в меня., Eu o amo porque o senhor não se apaixonou por mim.
Fica faladeira e coquete, diz que até se aborrece um pouco de ele não ter se apaixonado, conta as badaladas quando ele lhe pergunta as horas, repete o próprio endereço para que ele lhe traga notícias e chora. Compara os dois homens:
Зачем он — не вы? Зачем он не такой, как вы? Он хуже вас, хоть я и люблю его больше вас., Por que ele não é o senhor? Por que ele não é como o senhor? Ele é pior que o senhor, embora eu o ame mais que ao senhor.
E chega perto do que o Sonhador esconde, sem nomeá-lo:
мне кажется, вы чем-то для меня жертвуете, parece-me que o senhor está sacrificando alguma coisa por mim.
Diz ainda que o sonhador descrito na véspera não é ele, que ele está se curando, e se despede perguntando se agora estão juntos para sempre.
Na Quarta Noite, espera na mesma posição da primeira noite:
она стояла, как тогда, в первый раз, облокотясь на перила набережной, ela estava parada, como daquela vez, a primeira, apoiada na grade do cais.
Ao saber que não há carta, empalidece e chora; revolta-se contra três dias sem uma linha, lembra que foi ela quem subiu ao quarto dele e logo procura desculpas para ele. Ouve a declaração do Sonhador, diz que já sabia que ele a amava, enxuga as lágrimas dele, admite que ainda ama o outro e não quer enganá-lo. Examina o próprio amor:
может быть, и вся любовь моя была обман чувств, воображения, может быть, началась она шалостью, пустяками, оттого, что я была под надзором у бабушки?, talvez todo o meu amor tenha sido uma ilusão dos sentidos, da imaginação, talvez tenha começado por travessura, por ninharias, porque eu vivia sob a vigilância da avó?
Propõe a sua mão, faz planos com ele, recusa rindo a ida ao Barbeiro de Sevilha e não olha a nuvem amarela que ele lhe mostra. Quando o inquilino passa e a chama pelo nome, ela corre para ele e volta uma vez:
обхватила мою шею обеими руками и крепко, горячо поцеловала меня, abraçou o meu pescoço com as duas mãos e me beijou com força, ardentemente.
Na Manhã, escreve ao Sonhador. Pede perdão de joelhos, diz que enganou a ele e a si mesma, que foi um sonho, que não mudou com ele:
О боже! если б я могла любить вас обоих разом! О, если б вы были он!, Ó Deus! Se eu pudesse amar os dois de uma vez! Oh, se o senhor fosse ele!
Anuncia que se casa na semana seguinte, que o inquilino voltou apaixonado e nunca a esqueceu, e pede que o Sonhador seja para sempre amigo e irmão dela.
Temas que encarna
Nástienka é a outra metade da solidão do livro. O Sonhador vive sem ninguém; ela vive grudada a alguém, presa a uma cega por um alfinete, e chega ao devaneio pelo caminho oposto: também sonha, com um príncipe chinês, até que os livros do inquilino lhe dão um sonho com rosto. Quando ela diz, na Segunda Noite, que entendeu tudo o que o Sonhador contou porque viveu o mesmo presa ao vestido da avó, o livro a põe no lugar de espelho dele, e a diferença decide o fim: ela tem um sonho que pode chegar pela rua, e ele não.
Na história de Nástienka, na Segunda Noite ela mesma junta, numa só fala, o amor pelo inquilino e a recusa do alfinete, e o texto não deixa separar uma coisa da outra. A pergunta que ela faz a si mesma na Quarta Noite, se todo o amor não começou porque vivia sob a vigilância da avó, é a mesma que o leitor faz desde a trouxa, e ela a faz na única noite em que precisa de uma resposta para poder mudar. Que ela corra para o inquilino minutos depois não desmente a pergunta: mostra que, para ela, o amor que começou por fuga continuou sendo amor.
Leituras divergentes
A relação dela com o Sonhador se lê de dois modos. Num, ela é sincera do começo ao fim: avisa na primeira noite que ele não deve se apaixonar, diz na terceira que ama o outro mais que a ele e, na carta da Manhã, recusa fingir que não o ama. No outro, ela precisa dele sem medir o custo: precisava de alguém que levasse a carta, que a consolasse na espera e que lhe oferecesse um lugar se o outro não viesse, e aceita a mão dele na Quarta Noite na mesma noite em que perde a esperança.
O texto sustenta as duas, e a frase da Terceira Noite sobre o sacrifício mostra que ela sabia o bastante para escolher não saber mais. O que nenhuma das leituras explica sozinha é o beijo da Quarta Noite, dado depois da escolha e sem uma palavra, que é gratidão e despedida ao mesmo tempo e que o narrador conta sem interpretar.
Relações
- O Sonhador: o desconhecido que a livra do bêbado na Primeira Noite, a quem ela conta a história na história de Nástienka, na Segunda Noite e cujo amor ela aceita e deixa na Quarta Noite.
- O inquilino: o moço que lhe empresta livros, a leva ao Barbeiro de Sevilha e promete voltar em um ano (história de Nástienka, na Segunda Noite); ela corre para ele na Quarta Noite e anuncia o casamento na Manhã.
- A avó: a cega que a prende ao vestido com um alfinete (história de Nástienka, na Segunda Noite) e que ela pretende levar consigo nos planos da Quarta Noite.