O tema na obra
A solidão, no livro, é o estado de onde tudo parte e para onde tudo volta. O Sonhador vive há oito anos em São Petersburgo sem um conhecido, e o livro o deixa, na última página, no mesmo quarto (A teia de aranha e o quarto), com a mesma criada, imaginando-se igual daqui a quinze anos. Entre uma ponta e outra há quatro noites em que ele não está sozinho, e o que o livro mostra nelas é que a companhia não desfaz a solidão por si: na terceira noite, logo depois de Nástienka lhe prometer que estarão juntos para sempre, ele escreve que ela não sabe em que solidão ele está agora. A solidão é a condição; o devaneio, que o livro trata à parte, é o modo como ele a habita (ver Sonho e fantasia).
A solidão do livro também não é uma só. A do Sonhador é a de quem não tem ninguém; a de Nástienka é a de quem está presa a alguém, uma avó cega que a prende ao vestido com um alfinete (O alfinete). Os dois chegam ao mesmo lugar, o cais e o devaneio, por caminhos opostos, e é por isso que se reconhecem.
Na Primeira Noite, ele percebe a solidão só quando a cidade se esvazia para as casas de campo e os rostos que conhecia de vista desaparecem. Leva três dias para entender a causa da angústia:
Мне страшно стало оставаться одному, и целых три дня я бродил по городу в глубокой тоске, решительно не понимая, что со мной делается., Deu-me medo ficar sozinho, e por três dias inteiros vaguei pela cidade numa angústia profunda, sem entender de jeito nenhum o que se passava comigo.
No mesmo começo, ele explica que cantarola na rua porque quem é feliz e não tem amigos com quem dividir a alegria cantarola sozinho. A moça que encontra no cais também não tem a quem pedir conselho, e diz isso ao confiar nele.
Na Segunda Noite, quando ela pede a história dele, ele responde com a palavra repetida até pesar:
так, жил, как у нас говорится, сам по себе, то есть один совершенно, — один, один вполне, — понимаете, что такое один?, assim, vivi, como se diz por aqui, por minha conta, quer dizer, inteiramente só, só, completamente só; entende o que é estar só?
E descreve o sonhador como um bicho que se fecha num canto da cidade para fugir até da luz do dia:
Селится он большею частию где-нибудь в неприступном углу, как будто таится в нем даже от дневного света, и уж если заберется к себе, то так и прирастет к своему углу, как улитка, Instala-se quase sempre num canto inacessível, como se nele se escondesse até da luz do dia, e, uma vez recolhido, gruda-se ao seu canto como um caracol.
Na história de Nástienka, na Segunda Noite, Nástienka conta a outra solidão, a de quem não pode se afastar nem um passo:
взяла булавку и пришпилила мое платье к своему, да тут и сказала, что так мы будем всю жизнь сидеть, если, разумеется, я не сделаюсь лучше, pegou um alfinete e prendeu o meu vestido ao dela, e ali mesmo disse que assim ficaríamos sentadas a vida inteira, a menos, é claro, que eu me tornasse melhor.
Na Terceira Noite, no momento em que ela lhe promete companhia para sempre, ele escreve, sem lhe dizer, o que sente:
О! Настенька, Настенька! Если б ты знала, в каком я теперь одиночестве!, Oh, Nástienka, Nástienka! Se você soubesse em que solidão eu estou agora!
Na Manhã, depois da carta, ele vê o futuro no próprio quarto:
я увидел себя таким, как я теперь, ровно через пятнадцать лет, постаревшим, в той же комнате, так же одиноким, с той же Матреной, eu me vi tal como sou agora, daqui a exatamente quinze anos, envelhecido, no mesmo quarto, tão sozinho quanto agora, com a mesma Matriona.
E se chama, ao abençoá-la, de outro coração, solitário e agradecido:
да будешь ты благословенна за минуту блаженства и счастия, которое ты дала другому, одинокому, благодарному сердцу!, que você seja abençoada pelo minuto de bem-aventurança e de felicidade que deu a outro coração, solitário e agradecido!
A solidão do Sonhador é anterior a Nástienka e posterior a ela, e as quatro noites não a interrompem: mudam o que ela significa. Na Primeira Noite ela era vazio que ele não sabia nomear; na Terceira Noite é solidão diante de alguém, a pior forma, a de quem tem a pessoa ao lado e não tem lugar nela; na Manhã é destino visto de fora, quinze anos adiante. O livro não oferece cura para ela, oferece um minuto de intervalo, e deixa ao Sonhador decidir se o intervalo basta.
Quem o encarna
O Sonhador é a solidão de quem conhece a cidade inteira e ninguém nela. Na Segunda Noite, depois de abandonar a pose, diz que perdeu os melhores anos e que o futuro é a mesma solidão:
что же ты сделал с своими годами? куда ты схоронил свое лучшее время? Ты жил или нет?, o que você fez dos seus anos? onde enterrou o seu melhor tempo? Você viveu ou não?
Nástienka é a solidão presa. Na Segunda Noite, ao responder ao discurso dele, diz que, se ele viver sempre assim, ela também viverá a vida inteira ao lado da avó, e propõe que fiquem juntos aconteça o que acontecer.
Matriona é a solidão sem consciência dela: a única companhia diária do Sonhador, que o livro põe ao lado dele no quadro dos quinze anos.
Onde aparece
- Primeira Noite: O Sonhador passa três dias angustiado sem entender por quê e descobre que a cidade partiu para as casas de campo sem que ninguém o convidasse.
- Segunda Noite: O Sonhador diz a Nástienka que viveu inteiramente só e descreve o sonhador como um caracol grudado ao seu canto.
- Segunda Noite, história de Nástienka: Nástienka conta que a avó cega a prende ao vestido com um alfinete e que assim ficariam a vida inteira.
- Terceira Noite: Nástienka pergunta se agora estão juntos para sempre, e o Sonhador escreve que ela não sabe em que solidão ele está.
- Manhã: O Sonhador se vê daqui a quinze anos no mesmo quarto, tão sozinho quanto agora, com a mesma Matriona, e se chama de coração solitário ao abençoar Nástienka.
Onde as leituras divergem
A solidão do Sonhador se lê como condição que o cerca, a cidade grande que se esvazia, os rostos que não falam, ou como escolha que ele fez, o canto onde se esconde até da luz. O texto dá as duas: na Primeira Noite ele se sente abandonado pela cidade, e na Segunda Noite se descreve como quem foge dela.
A frase da Manhã sobre os quinze anos não decide entre as duas, porque ele mesmo não sabe se a visão vem da luz que mudou ou de dentro dele. O que o livro mostra é que, quando a companhia chegou, ele a recebeu inteira e não fugiu, e que foi a escolha dela, e não a dele, que o devolveu ao quarto.