Porque idiota é a palavra que todos usam para Míchkin, que ele usa para o próprio passado e que fecha o livro: o título é o nome de um problema, e não só um insulto.
Em russo, idiot tem no livro dois usos que se cruzam. É diagnóstico: o doutor Schneider trata idiotia e loucura num sanatório do Valais, e o príncipe diz que os ataques o tinham feito "quase um idiota completo". E é insulto: Gánia o chama de idiota maldito, Aglaia murmura a palavra no vauxhall, Nastácia pergunta, ao vê-lo na porta, "mas que idiota é este?", e o próprio príncipe, depois de oferecer dinheiro a Burdóvski em público, diz "Sim, sou um idiota, um verdadeiro idiota!"
A última página volta à palavra: o narrador imagina Schneider, ao ver o príncipe ao lado do corpo de Nastácia, fazer um gesto de desânimo e dizer, "como naquele tempo", Idiota! O círculo se fecha, porque o príncipe está no estado de onde partiu no primeiro capítulo.
Quem é, afinal, o idiota do livro? Para uns, é o príncipe, doente e ingênuo; para outros, são os que o julgam assim e não veem o que ele vê. O texto sustenta as duas leituras, e a escolha do título é o que as mantém abertas.