Primeira Parte: A chegada
bom, se é assim [...] então você, príncipe, me sai um louco de Deus completo, e gente como você Deus ama!
Explicação e análise
No vagão de terceira classe do trem de Varsóvia, na manhã em que chega a Petersburgo, o príncipe Míchkin conversa com Rogójin, filho de comerciante que acaba de herdar uma fortuna e corre atrás de Nastácia Filíppovna. Rogójin quer saber se o novo conhecido gosta de mulheres, e o príncipe responde que, por causa da doença que o acompanha desde criança, nunca conheceu nenhuma. É a essa resposta que Rogójin reage com a frase.
Para um homem consumido pelo desejo, quem não deseja está fora da disputa, e Rogójin resolve o assunto com uma palavra da piedade popular russa: louco de Deus é o mendigo desordenado que o povo toma por protegido do céu. A frase classifica Míchkin como inocente, quase santo, e ao mesmo tempo o tira do jogo. Liébediev, que escuta, repete a expressão para agradar. Desde a primeira página o livro entrega ao leitor a ambiguidade que sustenta o título: a mesma pessoa pode ser vista como bênção ou como defeito, e o dia inteiro vai trocar a primeira palavra pela segunda.
O texto sustenta duas leituras. Rogójin pode estar sendo generoso e dizendo o que sente, pois acabou de se afeiçoar ao desconhecido sem saber por quê. Pode também estar se tranquilizando: se o príncipe é um louco de Deus, não será rival por Nastácia, e o afeto fica seguro.
mas a dor principal, a mais forte, talvez não esteja nas feridas, e sim nisto: em saber com certeza que daqui a uma hora, depois daqui a dez minutos, depois daqui a meio minuto, depois agora, já, a alma vai voar do corpo, e que você não vai mais ser um homem, e que isso é certo; o principal é que é certo.
Explicação e análise
Assinatura
A explicação desta e das outras 39 citações de O Idiota está na assinatura.
um rosto surpreendente! [...] O rosto é alegre, e no entanto ela sofreu terrivelmente, não é? [...] É um rosto orgulhoso, terrivelmente orgulhoso, e eis que não sei se ela é boa. Ah, se fosse boa! Tudo estaria salvo!
Explicação e análise
se ela agora aceita o capital, não é de modo nenhum como pagamento por sua desonra de moça, da qual ela não tem culpa, mas simplesmente como indenização por um destino estropiado.
Explicação e análise
graças a elas, eu lhes asseguro, ela morreu quase feliz. Graças a elas esqueceu a sua desgraça negra, como se tivesse recebido delas o perdão, porque até o fim se considerou uma grande criminosa.
Explicação e análise
todos também me tomam por idiota, não sei por quê; de fato, já fui tão doente que naquela época parecia um idiota; mas que idiota sou eu agora, se eu mesmo entendo que me tomam por idiota? Entro e penso: eis que me tomam por idiota, e no entanto sou inteligente, e eles nem desconfiam...
Explicação e análise
a senhora é uma beldade extraordinária, Aglaia Ivánovna. É tão bonita que dá medo de olhar. [...] A beleza é difícil de julgar; ainda não estou preparado. A beleza é um enigma.
Explicação e análise
me avaliou em cem mil! [...] Será que você queria mesmo me levar para a sua família? A mim, a mulher de Rogójin!
Explicação e análise
vai me aceitar assim como estou, sem nada! [...] Aceito, Nastácia Filíppovna... [...] Eu a aceito honrada, Nastácia Filíppovna, e não como a mulher de Rogójin.
Explicação e análise
eu fui concubina de Totski... Príncipe! agora você precisa é de Aglaia Iepántchina, e não de Nastácia Filíppovna [...] Assim são vocês todos: ou se relacionar com as desonradas, ou com as honradas, uma escolha só!
Explicação e análise
está vendo este pacote? Nele há cem mil! [...] Assim que o fogo pegar nele inteiro, enfie-se na lareira, mas sem luvas, de mãos nuas [...] Tirou, é seu, os cem mil são seus!
Explicação e análise
por acaso eu mesma não sonhei com você? Nisso você tem razão, sonhei faz tempo, ainda na aldeia dele, morei cinco anos sozinha; a gente pensa e pensa, sonha e sonha, e é sempre alguém assim como você, bom, honesto, bondoso e bobinho do mesmo jeito, que de repente chega e diz: a senhora não tem culpa, Nastácia Filíppovna, e eu a adoro!
Explicação e análise
Segunda Parte: O quadro
eu a amo não com amor, mas com pena.
Explicação e análise
Ela ama outro, é isso que você tem de entender! Do mesmo jeito que eu a amo agora, do mesmo jeito ela ama outro agora. E sabe quem é esse outro? É você!
Explicação e análise
Ora, esse quadro pode fazer alguém até perder a fé! E Rogójin: e perde mesmo.
Explicação e análise
a mesma alegria Deus tem toda vez que vê lá do céu um pecador se pôr a rezar diante dele de todo o coração.
Explicação e análise
Se naquele segundo [...] lhe acontecia ter tempo de dizer a si mesmo, com clareza e consciência: Sim, por este momento se pode dar a vida inteira!, então, é claro, esse momento por si só valia a vida inteira.
Explicação e análise
A compaixão é a lei principal e, talvez, a única da existência de toda a humanidade.
Explicação e análise
para esse cavaleiro pobre já não importava quem fosse a sua dama nem o que ela tivesse feito. Bastava que ele a tivesse escolhido e acreditado na sua beleza pura, e depois se inclinado diante dela para sempre; o mérito está justamente em que, mesmo que ela depois fosse uma ladra, ele ainda assim devia acreditar nela.
Explicação e análise
a natureza é zombeteira! Por que ela, retomou de repente com ardor, por que ela cria os melhores seres para depois zombar deles?
Explicação e análise
Sei muito bem que ele às vezes me engana, [...] e ele sabe que eu sei.
Explicação e análise
Terceira Parte: A explicação
que o assassino mais empedernido e sem arrependimento ainda assim sabe que é um criminoso, isto é, em consciência julga que agiu mal, ainda que sem arrependimento nenhum [...] já estes de que Ievguiêni Pávlitch começou a falar nem querem se considerar criminosos, e pensam consigo que tinham direito e... que até agiram bem.
Explicação e análise
Naquele dia nós sentimos a mesma coisa, numa só palavra. Se tu não tivesses levantado a mão contra mim (a mão que Deus desviou), o que eu seria agora diante de ti? Pois eu também te suspeitava disso, um pecado só, nosso, numa só palavra!
Explicação e análise
E ousem dizer, enfim, que as fontes da vida não se enfraqueceram, não se turvaram sob essa estrela, sob essa rede que enredou os homens. [...] Há mais riqueza, porém menos força; a ideia que unia acabou; tudo amoleceu, tudo apodreceu e todos apodreceram! Todos, todos, todos nós apodrecemos!
Explicação e análise
É verdade, príncipe, que o senhor disse uma vez que a beleza salvará o mundo? [...] E eu afirmo que ele tem essas ideias brincalhonas porque agora está apaixonado.
Explicação e análise
Já no quadro de Rogójin não há nem palavra de beleza; é, por inteiro, o cadáver de um homem que suportou tormentos sem fim [...] No quadro, esse rosto está terrivelmente desfeito pelos golpes, inchado, com hematomas terríveis, inchados e ensanguentados, os olhos abertos, as pupilas enviesadas; os grandes brancos dos olhos, abertos, brilham com um reflexo morto, vítreo.
Explicação e análise
Olhando esse quadro, a natureza assoma na forma de uma fera enorme, implacável e muda [...] na forma de uma máquina gigantesca, de fabricação moderníssima, que sem sentido agarrou, triturou e engoliu [...] um ser grande e inestimável, um ser que sozinho valia toda a natureza e todas as suas leis, a terra inteira.
Explicação e análise
De que me serve toda essa beleza, quando a cada minuto, a cada segundo, eu devo e sou obrigado a saber que até essa mosquinha minúscula, que zumbe agora perto de mim num raio de sol, até ela toma parte em todo esse banquete e nesse coro, conhece o seu lugar, ama-o e é feliz, e só eu sou um aborto.
Explicação e análise
Essa mulher infeliz está profundamente convencida de que é o ser mais caído, mais depravado de todos no mundo. [...] que ela é a primeira a não acreditar em si mesma, e que com toda a sua consciência moral acredita, ao contrário, que ela... que ela mesma é culpada.
Explicação e análise
Que eu só tenho pena dela, e que eu... já não a amo.
Explicação e análise
Quarta Parte: O desfecho
era um daqueles mentirosos que, embora mintam até a volúpia e até o esquecimento de si, mesmo no ponto mais alto do êxtase ainda desconfiam, no íntimo, de que não lhes dão crédito, nem podem dar.
Explicação e análise
se o senhor puser-se a falar de alguma coisa como a pena de morte, ou a situação econômica da Rússia, ou de que "a beleza salvará o mundo", então... eu, é claro, vou me alegrar e rir muito, mas... estou avisando desde já: depois, não me apareça mais diante dos olhos!
Explicação e análise
É porque ele achou a pátria que aqui não tinha enxergado, e se alegrou; achou a margem, a terra, e se atirou a beijá-la! [...] "Quem não tem chão debaixo de si também não tem Deus".
Explicação e análise
Sabe, eu não entendo como se pode passar diante de uma árvore e não ser feliz por vê-la. Falar com uma pessoa e não ser feliz por amá-la! Oh, só que eu não sei dizer... e quantas coisas tão belas há a cada passo, que até o homem mais perdido acha belas? Olhem uma criança, olhem a aurora de Deus, olhem a grama, como cresce, olhem os olhos que olham para vocês e os amam...
Explicação e análise
Mas isso é possível? ela é... louca!
Explicação e análise
Felicidade? Oh, não! Eu caso assim, simplesmente; ela quer; e que importa que eu case: eu... Ora, tanto faz! Só que ela morreria, com certeza.
Explicação e análise
Aglaia Ivánovna amava como mulher, como ser humano, e não como... um espírito abstrato. Sabe de uma coisa, meu pobre príncipe? O mais certo é que o senhor nunca tenha amado nem uma nem outra!
Explicação e análise
Aos pés, umas rendas estavam embaladas num bolo, e sobre a renda branca, despontando do lençol, desenhava-se a ponta de um pé nu; parecia talhado em mármore e estava terrivelmente imóvel. O príncipe olhava e sentia que, quanto mais olhava, mais morto e silencioso ficava o quarto. De repente, uma mosca que despertara zumbiu, passou por cima da cama e se calou junto à cabeceira.
Explicação e análise
o príncipe estendia para ele, então, a mão trêmula e tocava de leve a cabeça dele, os cabelos, alisava-os e alisava as faces dele... nada mais podia fazer!
Explicação e análise
E se o próprio Schneider viesse agora da Suíça ver o seu antigo aluno e paciente, também ele, lembrando o estado em que o príncipe às vezes ficava no primeiro ano de tratamento na Suíça, faria agora um gesto de desânimo e diria, como naquele tempo: "Idiota!"