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O Idiota · Segunda Parte

O quadro

Resumo da parte

O fio desta parte é a palavra com que o príncipe se define diante de Rogójin: ele ama Nastácia Filíppovna não com amor, mas com pena, e em Pávlovsk, depois de um dia de suspeita, conclui que a compaixão é a lei principal da existência humana. Os doze capítulos põem essa lei à prova contra quatro resistências. Parfen Semeónovitch Rogójin ouve na pena do rival uma superioridade e responde com a faca que esconde num livro e depois ergue na escada do hotel. O grupo de Burdovski recebe a caridade como insulto e exige como direito o que o príncipe já ia dar. Hippolit Tieriêntiev, que quer ser reconhecido antes de morrer, recebe pena e a transforma em ódio. Aglaia Ivánovna Iepántchina admira em público a fidelidade do cavaleiro pobre e troca as iniciais do escudo pelas de Nastácia. No centro está o quadro de Holbein na casa de Rogójin, um Cristo recém-tirado da cruz diante do qual se pode perder a fé, e a resposta do príncipe, que não é argumento: é a alegria de uma camponesa com o primeiro sorriso do filho. A parte termina com ele sabendo que é enganado e confiando assim mesmo, e sendo puxado de volta para a casa de onde acabavam de proibi-lo.

Capítulo I: Seis meses de boatos

Resumo do capítulo

Dois dias depois da noite em casa de Nastácia Filíppovna Barachkova, Liev Nikoláievitch Míchkin parte para Moscou a fim de receber a herança, e por seis meses Petersburgo só sabe dele por boatos contraditórios. Na casa dos Iepántchin ninguém fala do príncipe durante um mês; Ielisavieta Prokófievna Iepántchina declara que se enganou com ele e que sua vida foi um erro contínuo sobre as pessoas. Duas cartas da velha princesa Bielokónskaia, que o recebe todos os dias em Moscou, mudam o humor da casa, e Ivan Fiódorovitch Iepántchin conta o que mandou apurar: a herança é menor do que se dizia, e o príncipe pagou quase todos os credores do comerciante morto, até os sem documento, porque alguns tinham de fato saído lesados. Duas semanas depois vem a notícia de que Nastácia Filíppovna, achada e perdida duas vezes por Rogójin em Moscou, fugiu pela terceira vez quase do pé do altar, e de que o príncipe sumiu de Moscou ao mesmo tempo. O silêncio volta.

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Enquanto isso, a casa dos Ívolguin se desfaz. Gavrila Ardaliónovitch Ívolguin adoece, larga o emprego, e a cidade fica sabendo que, na noite da festa, ele esperou o príncipe voltar de Iecateringof, pôs diante dele o pacote meio queimado e chorou duas horas ao seu lado; separaram-se amigos. Varvara Ardaliónovna Ívolguina casa com Ptítzin e passa a frequentar as moças Iepántchin pela porta dos fundos. O casamento planejado de Afanassi Ivánovitch Totski com a filha mais velha se desfaz sozinho, e ele se encanta por uma marquesa francesa. O príncipe Sch., homem sério de trinta e cinco anos, pede a mão de Adelaida Ivánovna Iepántchina; por ele entra na casa Ievguiêni Pávlovitch Radomski, ajudante de ordens de vinte e oito anos, rico e espirituoso, que se torna assíduo depois de ver Aglaia. O general Ardalion Alieksándrovitch Ívolguin vai parar na prisão por dívidas, levado por uma amiga, a viúva de um capitão, a quem assinara promissórias. Nikolai Ardaliónovitch Ívolguin, o Kólia, solto de casa, conhece os Iepántchin por conta própria e conquista Lisavieta Prokófievna por não bajular. Na Páscoa, sozinho com Aglaia Ivánovna Iepántchina, entrega-lhe um bilhete do príncipe, assinado como irmão:

Вы мне нужны, очень нужны. Мне нечего писать вам о себе, нечего рассказывать. Я и не хотел того; мне ужасно бы желалось, чтобы вы были счастливы. Счастливы ли вы? Вот это только я и хотел вам сказать, Preciso de você, preciso muito. Não tenho nada a lhe escrever sobre mim, nada a contar. Nem era isso que eu queria; queria terrivelmente que você fosse feliz. Você é feliz? Era só isso que eu queria lhe dizer.

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Capítulo II: Liébediev

Resumo do capítulo

No começo de junho os Iepántchin se mudam para a datcha de Pávlovsk, e dois ou três dias depois Liev Nikoláievitch Míchkin desembarca do trem de Moscou. Na estação tem a impressão de um olhar ardente, de dois olhos, no meio da multidão, e não consegue mais distingui-lo. Aluga dois quartos escuros num hotel ruim perto da Litéinaia e sai às pressas para a casa de Lukian Timofêievitch Liébediev, no bairro de Peski. Encontra-o discursando para a família: Vera, de vinte anos, de luto, com a irmã recém-nascida no colo (a mãe morreu no parto há cinco semanas), uma menina de treze, um rapaz de quinze, e o sobrinho Doktorenko deitado no sofá, que o contradiz o tempo todo. O sobrinho conta que o tio virou advogado de causas pequenas e defendeu um agiota contra a velha que ele roubara, por cinquenta rublos de honorário; que ele próprio perdeu vinte rublos no jogo para um tenente reformado do antigo bando de Rogójin, pugilista, e que está ali deitado até o tio lhe dar quinze; e que Liébediev reza à noite pela alma da condessa Du Barry. Liébediev se defende contando a morte dela, que acabara de ler num dicionário: a condessa arrastada à guilhotina implorando ao carrasco mais um minutinho.

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Capítulo III: A casa de Rogójin

Resumo do capítulo

Em vez de ir a Pávlovsk, o príncipe procura uma casa na Gorókhovaia, hesitando a cada passo. Reconhece-a de longe pela fisionomia: grande, sombria, de três andares, de um verde sujo, com janelas raras, e na placa o nome do cidadão honorário hereditário Rogójin. Parfen Semeónovitch Rogójin abre a porta do gabinete e fica pálido como uma estátua de pedra. Os dois se tratam por tu desde Moscou. O príncipe pergunta se ele sabia da chegada e fala dos olhos na estação; Rogójin desconversa. O príncipe nota o retrato do pai, um velho de olhar desconfiado e triste, e um volume da História de Soloviov aberto sobre a mesa. Então diz a que veio: não é inimigo, não vai atrapalhar o casamento, veio porque soube por Liébediev da nova fuga e queria convencê-la a ir tratar-se no estrangeiro, sem ele; sempre disse que com Rogójin ela se perde, e que Rogójin se perde também. E define o que sente por ela:

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Capítulo IV: O quadro e as cruzes

Resumo do capítulo

Rogójin conduz o príncipe de volta pelos cômodos escuros. Numa sala com retratos de bispos, sobre a porta, há um quadro de formato estranho, comprido e baixo, que mostra o Salvador recém-tirado da cruz. O pai o comprou por dois rublos num leilão, um entendido disse que não era lixo, já ofereceram quinhentos, e Rogójin o guardou para si. O príncipe reconhece uma boa cópia de Hans Holbein, que viu no estrangeiro e não consegue esquecer. Rogójin larga o assunto, anda alguns passos e pergunta de repente se o príncipe crê em Deus; depois diz que gosta de olhar para aquele quadro.

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Capítulo V: A faca na escada

Resumo do capítulo

O general Iepántchin não está em casa, e o príncipe espera Kólia em vão no hotel Viessí, onde deixa um bilhete. Às quatro sai a andar sem rumo, num dia claro e quente, querendo ficar só com a angústia, sem buscar saída. Às seis compra uma passagem para Pávlovsk e, quase no vagão, joga o bilhete no chão e sai da estação. Na rua se surpreende num movimento que vinha repetindo havia horas, sem perceber: olhar em volta procurando alguma coisa. Lembra que da última vez estava diante de uma vitrine avaliando um objeto em sessenta copeques, volta quinhentos passos para conferir se a loja existe, encontra o objeto, ri de modo histérico e foge dele. Recusa-se a pensar e pensa em outra coisa: no grau que precede o ataque epiléptico, quando o cérebro se inflama de luz e tudo se resolve numa calma alta e harmoniosa.

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Capítulo VI: O cavaleiro pobre

Resumo do capítulo

A datcha de Liébediev tem um terraço enfeitado com laranjeiras, limoeiros e jasmins em tinas, que ele comprou num leilão para cobrar mais do inquilino. No terceiro dia depois do ataque o príncipe já parece quase são. Lukian Timofêievitch Liébediev o vigia, entra na ponta dos pés a cada quinze minutos, escuta atrás da porta e afasta as filhas; abriga em sua parte da casa o general Ardalion Alieksándrovitch Ívolguin, com quem discute assuntos eruditos e de quem diz que conta duzentos convidados à mesa todo dia durante trinta anos. Conta ao príncipe que Rogójin vem todos os dias saber da saúde dele, que certa pessoa quer um encontro secreto, e que essa pessoa tem medo de Aglaia Ivánovna; o príncipe ameaça deixar a datcha. Chegam ao mesmo tempo Gánia, muito mudado, Vária e Ptítzin, e, pelo terraço, Ielisavieta Prokófievna Iepántchina com as três filhas e o príncipe Sch. Ela, que imaginava encontrá-lo no leito de morte, fica contrariada ao vê-lo sorridente e bem vestido, e o diz. Simpatiza com Vera, chama Liébediev de tolo, e Aglaia lhe pede que um dia lhe interprete o Apocalipse.

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Capítulo VII: As letras trocadas

Resumo do capítulo

O rapaz é Ievguiêni Pávlovitch Radomski, de quem o príncipe muito ouvira falar. Aglaia Ivánovna Iepántchina não se volta para ele e recita a balada olhando só para o príncipe, que se refugia atrás da poltrona. Ela cobre a afetação com uma seriedade e uma simplicidade que prendem todo mundo, e lê os versos do cavaleiro que teve uma visão, nunca mais olhou para mulher, escreveu com o próprio sangue as letras no escudo, combateu na Palestina gritando um nome santo e morreu como um louco. Mas o príncipe percebe uma coisa:

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Capítulo VIII: O filho de Pavlischov

Resumo do capítulo

O príncipe propõe conversar noutro cômodo; Doktorenko protesta contra as duas horas de espera, Burdovski balbucia que não é lacaio, Hippolit pergunta com que direito o caso vai ao juízo dos amigos dele. Lisavieta Prokófievna, a quem Liébediev passara um semanário humorístico com uma coluna marcada, manda Kólia ler em voz alta. O artigo zomba do herdeiro tratado de idiotia na Suíça, afirma que o pai dele desviou o dinheiro da companhia, que o benfeitor P. era um libertino ocioso, que o verdadeiro filho de P. vive de aulas e que o milionário lhe mandou cinquenta rublos como esmola; fecha com um epigrama. Kólia termina, corre para um canto e esconde o rosto de vergonha. Hippolit e Doktorenko desaprovam o artigo; Keller se confessa autor, e diz que a publicidade é direito de todos. Doktorenko formula a exigência:

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Capítulo IX: As provas de Gánia

Resumo do capítulo

Gavrila Ardaliónovitch Ívolguin apresenta as provas, falando direto a Burdovski: ele nasceu dois anos depois do casamento legítimo da mãe com o secretário de colégio Burdovski, e três cartas de Pavlischov, obtidas por meio de Vária e de um coronel reformado, mostram que ele partiu para o estrangeiro, onde ficou três anos, um ano e meio antes desse nascimento. Burdovski se levanta: foi enganado, não por Tchebarov, mas desde muito antes; recusa os dez mil e quer ir embora. Gánia pede mais cinco minutos e conta o resto: Pavlischov amara na juventude uma moça serva, irmã da mãe de Burdovski, e só não casou com ela porque morreu de repente; tomou a irmã menor como pupila aos dez anos, deu-lhe um dote, e ela casou por amor com o pai de Burdovski, que perdeu o dote em negócios, bebeu e morreu; Pavlischov a sustentou com seiscentos rublos por ano e se afeiçoou ao menino justamente por ele parecer gago, aleijado, uma criança infeliz. O boato de que Burdovski era filho dele só se firmou nos últimos anos, quando a família temeu pelo testamento. A mãe, que Gánia visitou em Pskov, vive pobre e só sobrevive pela ajuda do filho. Gánia conclui, com veneno, que Pavlischov amou Burdovski por generosidade, que não houve roubo e que o príncipe pode agora oferecer de novo a sua ajuda. Burdovski joga sobre a mesa um envelope: os duzentos e cinquenta rublos mandados por Tchebarov. Gánia o abre e anuncia que só há cem. Doktorenko explica que cento e cinquenta foram para a viagem de Tchebarov e que o grupo pagará, nem que seja um rublo de cada vez. O príncipe pede perdão de modo desconexo: errou ao falar em trapaça, ao dizer que Burdovski era doente como ele, ao oferecer o dinheiro daquele jeito. Doktorenko responde:

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Capítulo X: Hippolit

Resumo do capítulo

Hippolit Tieriêntiev repara que Liébediev serviu o chá nas xícaras de porcelana do dote da mulher, que nunca saem do armário, e conta que Liébediev corrigiu o artigo. Keller confirma: pagou seis rublos pelos fatos, não pelo estilo. Lisavieta Prokófievna se enfurece; Hippolit elogia com ironia a excentricidade dela, e o general Iepántchin o repreende: a mulher ficou por compaixão de um doente. Hippolit diz que nenhum dos presentes amou a mãe como Burdovski, e revela que o príncipe mandou dinheiro às escondidas à mãe dele, por meio de Gánia. Radomski resume a teoria do grupo como triunfo do direito antes de se saber em que consiste o direito, e diz que daí se pula para o direito da força, o dos tigres e crocodilos; Hippolit, mal ouvindo, estende-lhe a mão e diz que não está zangado. Depois convida todos ao seu enterro, diz que veio para ver as árvores, que da sua janela só vê o muro de tijolo vermelho da casa de Meyer, que um morto pode dizer tudo:

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Capítulo XI: Pensamentos duplos

Resumo do capítulo

Só no terceiro dia os Iepántchin se reconciliam com o príncipe. Nesse meio-tempo ele se culpa por dois extremos, uma confiança sem sentido e uma desconfiança baixa, e o episódio da caleche cresce na cabeça dele. O príncipe Sch. e Adelaida o visitam, em segredo da família, falam de uma árvore velha que ela quer desenhar e, já saindo, perguntam quem era a mulher. O príncipe diz que era Nastácia Filíppovna; o príncipe Sch. garante que Radomski, rico, não pode ter promissórias com agiota nem tratá-la por tu, talvez a tenha conhecido anos atrás por Totski, e o príncipe percebe que o julgam cúmplice de uma intriga. Pensa nela: louca. Gánia passa vinte minutos conversando sem tocar no essencial: Nastácia Filíppovna está em Pávlovsk há quatro dias, na casa de Dária Alieksêievna, já tem uma corte de admiradores e a caleche mais bela da cidade; a história das promissórias pode ser verdadeira, porque os negócios de Radomski andam em alguma desordem. Vária conta que Aglaia brigou com a família inteira. Sozinho no parque, o príncipe tem vontade de ir embora para longe, sem se despedir, porque sente que, se ficar mais uns dias, vai ser arrastado para aquele mundo sem volta:

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Capítulo XII: O bilhete de Aglaia

Resumo do capítulo

Às sete da tarde Ielisavieta Prokófievna Iepántchina entra sozinha no terraço, avisa que não veio pedir perdão e o proíbe de falar dos rapazes. Interroga-o sobre a carta que ele mandou a Aglaia na Páscoa; ele a recita de cor, explica que escreveu num momento de esperança, de se sentir em casa na Rússia, como a uma irmã. Ela conta que Aglaia o chamava de aleijadinho e de idiota, que a filha, quando ama, xinga em voz alta, como ela mesma fazia, e o faz jurar que não casou com aquela mulher; ele admite que quase casou e jura que não veio para isso. Ela o beija, diz que respira enfim, e que Aglaia não será dele enquanto ela viver. E confessa por que o esperava:

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