Hospitalidade, a lei que mede os povos
O poema mede cada povo por uma pergunta que Odisseu repete ao chegar a terras desconhecidas: são soberbos, selvagens e sem justiça, ou hospitaleiros, de mente que teme os deuses? Ele a faz diante dos feácios no Canto VI, à porta dos ciclopes no Canto IX e ao acordar em Ítaca no Canto XIII. A regra por trás dela é que todo estrangeiro e todo mendigo vêm de Zeus, e que o suplicante deve ser recebido.
O rito é conhecido de todos. Pisístrato acolhe os hóspedes antes de perguntar quem são e Nestor se ofende com a ideia de o filho de Odisseu dormir no convés (Canto III), Menelau manda comer primeiro (Canto IV), e Eumeu recebe o mendigo por temor de Zeus, sem exigir que o creiam (Canto XIV). O hóspede pode pedir uma escolta até a pátria, como Odisseu pede a Alcínoo (Canto VII), e recebe presentes (Canto VIII). O ciclope inverte tudo e devora os hóspedes (Canto IX), e os pretendentes violam a regra todos os dias ao comerem sem pagar o sustento alheio (Canto I), até o pé de boi que Ctésipo atira ao mendigo como presente de hóspede (Canto XX).
Os deuses e o castigo do retorno
O poema começa no Olimpo. No concílio do Canto I, Zeus lembra Egisto e diz que os mortais culpam os deuses pelos males, quando sofrem além da sua parte pela própria insensatez, e Atena pergunta por que o pai se esqueceu de Odisseu. A resposta é que Poseidon o persegue por ter cegado seu filho Polifemo: o castigo não é a morte, é a errância longe da pátria, e o retorno só se decide porque Poseidon está longe, num banquete entre os etíopes. Atena é a protetora de Odisseu e de Telêmaco e aparece em figuras alheias, como Mentes, Mentor, um pastor e uma andorinha, e derrama graça, sono e névoa. Os deuses, diz um dos pretendentes no Canto XVII, percorrem as cidades em forma de estrangeiros, observando a desmedida e a boa ordem dos homens.
Os retornos dos outros heróis
Quando a história começa, todos os sobreviventes de Troia já voltaram, menos Odisseu, e os outros retornos são contados dentro do poema como espelhos do dele. Nestor conta no Canto III que Zeus planejou um retorno doloroso porque nem todos os aqueus eram sensatos nem justos, e que Agamêmnon foi morto em casa por Egisto e vingado por Orestes. No Canto IV, Menelau diz que juntou riqueza em oito anos de errância pelo Egito e por outras terras enquanto o irmão era morto, e Proteu conta o fim de Ájax e o de Agamêmnon. No Canto XI, o próprio Agamêmnon, no Hades, aconselha Odisseu a não ser brando com a mulher e abre uma exceção para Penélope.
A casa de Ítaca e quem a ocupa
Ítaca é uma ilha áspera, boa criadora de rapazes, sem pistas largas nem prado para cavalos (Canto IX, Canto IV). A linhagem da casa de Odisseu se reduz a um filho em cada geração, Arcésio, Laertes, Odisseu e Telêmaco, e por isso os inimigos são muitos (Canto XVI). Os pretendentes vêm de Dulíquio, Same, Zacinto e da própria Ítaca, mais de cem com os servos, e consomem bois, ovelhas e vinho sem pagar (Canto XVI). Penélope não recusa nem decide o casamento: ganha três anos com o tear de Laertes (Canto II), é pressionada pelos pais e pelo filho (Canto XIX), e o dote de Eurímaco aumenta (Canto XV). A casa não é pública, diz Telêmaco: é de Odisseu, que a adquiriu para o filho (Canto XX).
Como o poema conta
O poema não segue a ordem dos fatos. Começa pela casa sem dono e pelo filho (Canto I), e Odisseu só entra em cena no Canto V. Do Canto IX ao Canto XII é ele mesmo quem narra, aos feácios, as aventuras do retorno, e acusa-se dentro da própria história; do Canto XIII em diante volta a ser contado em terceira pessoa, já em Ítaca. Dentro do poema há outros cantores: o cego Demódoco, entre os feácios, que canta a briga de Odisseu e Aquiles, a rede de Hefesto e o cavalo de madeira (Canto VIII), e Fêmio, em Ítaca, cujo canto do retorno dos aqueus faz Penélope chorar (Canto I). Os sonhos têm duas portas, de chifre e de marfim, e Penélope diz que os que passam pelo marfim enganam (Canto XIX).