Resumo do capítulo
O relato de Odisseu termina, e a sala de Alcínoo fica em silêncio, como que enfeitiçada. Alcínoo diz que, tendo Odisseu chegado à sua casa, não acredita que ele volte a ser desviado do retorno. As roupas, o ouro e os outros presentes dos chefes feácios já estão guardados numa caixa polida; Alcínoo propõe que cada nobre acrescente um tripé e um caldeirão e que depois o povo se ressarça, porque seria pesado para um só dar tanto. No dia seguinte levam o bronze ao navio, Alcínoo mesmo o arruma sob os bancos para não atrapalhar os remadores, e fazem um banquete, com um touro sacrificado a Zeus e o aedo Demódoco cantando. Odisseu não para de olhar o sol, com pressa de que se ponha: quer partir. Pede a Alcínoo que o despache, agradece e reza para achar em casa a esposa irrepreensível e os seus com saúde; os feácios aprovam o discurso e mandam preparar a libação. Odisseu põe uma taça na mão de Arete, a rainha, e lhe deseja uma velhice feliz; sai com um arauto até o navio, e Arete manda servas com roupa, um baú e comida. No navio estendem para ele um tapete e linho na popa, para que durma sem ser incomodado; ele se deita em silêncio e, quando os remadores começam, cai num sono profundo, doce, quase morte, esquecido de tudo o que sofreu. O navio voa como quatro cavalos atrelados, e antes da aurora chega à ilha.
Os feácios entram no porto de Fórcis, em Ítaca, onde uma oliveira de folhas longas se ergue junto à gruta das Náiades, e põem Odisseu na areia, dormindo, com o linho e o tapete. Escondem os presentes ao pé da oliveira, fora da estrada, para que nenhum passante os leve antes que ele acorde, e voltam para casa. Poseidon, porém, não esqueceu a ameaça que fizera a Odisseu e vai queixar-se a Zeus: não será mais honrado entre os deuses se os mortais, os feácios, que são do sangue dele, não o honram; sempre julgou que Odisseu chegaria em casa e nunca lhe negou o retorno de todo, porque Zeus o prometera com um aceno, mas os feácios o deixaram em Ítaca dormindo, com mais presentes do que ele teria trazido de Troia. Zeus responde que os deuses não o desonram e que ele pode castigar, como quiser, os mortais que o desprezam. Poseidon quer destruir o navio dos feácios no mar escuro, para que parem de escoltar os homens, e cobrir a cidade com um monte; Zeus aconselha que ele espere o navio voltar à vista do povo e o transforme em pedra perto da costa, à vista de todos, e depois cubra a cidade. Poseidon vai à Esquéria e, quando a nau se aproxima, toca-a com a mão e a faz pedra enraizada no fundo. Os feácios se admiram; Alcínoo reconhece a antiga profecia do pai: Poseidon se ressentia por serem escoltas seguras e ameaçou fazer exatamente isso. Manda que cessem as escoltas a qualquer estrangeiro que chegue à cidade e que se sacrifiquem doze touros a Poseidon, para que ele não cubra a cidade. Eles temem, preparam os touros e rezam em volta do altar.
Enquanto isso, Odisseu acorda na terra do pai e não a reconhece: está ausente há muito tempo, e Atena derramou névoa sobre ele, para que ninguém o reconheça, nem a esposa, nem os cidadãos, nem os amigos, e para que ela lhe conte tudo antes que os pretendentes paguem o que fizeram. Tudo lhe parece estranho, os caminhos, os portos, as rochas. Ele se levanta, bate nas coxas e lamenta: a que terra chegou, de homens violentos e selvagens e injustos, ou de hospitaleiros que temem os deuses? Para onde levar tantos bens, e ele, para onde vai? Gostaria de ter ficado entre os feácios. Diz que os chefes feácios não foram sensatos nem justos, porque o levaram a outra terra, e pede a Zeus, protetor dos suplicantes, que os castigue. Conta os tripés, os caldeirões, o ouro e as roupas e vê que nada falta, e chora a pátria enquanto vaga pela praia. Atena se aproxima na forma de um jovem pastor de ovelhas, delicado, de capa dobrada, sandálias e dardo, e ele se alegra ao ver a primeira pessoa; suplica-lhe proteção para os bens e para si e pergunta que terra e que povo são estes. Atena responde que ele é tolo, ou veio de longe, se pergunta isso: a terra é conhecida de muitos, áspera para cavalos mas rica em trigo e vinho, e o nome de Ítaca chegou até Troia. Odisseu se alegra por pisar a terra paterna e responde com uma mentira: diz que ouviu falar de Ítaca em Creta, onde matou Orsíloco, filho de Idomeneu, que queria tirar-lhe o butim de Troia; que fugiu num navio de fenícios, a quem pagou para levá-lo a Pilos ou à Élide; que o vento os trouxe a Ítaca à noite e que, enquanto ele dormia, os fenícios descarregaram seus bens na areia e partiram para Sídon. O narrador diz que ele não falou a verdade, revolvendo sempre no peito a mente astuta.
Atena sorri, acaricia-o, assume a forma de uma mulher bela e alta e se revela: quem o ultrapassasse em ardis teria de ser muito astuto, mesmo sendo um deus, e ele não vai deixar os engodos nem em sua própria terra. Mas os dois são astutos: ele é o melhor dos mortais em planos e palavras, ela é famosa entre os deuses pela mesma coisa. Lembra que esteve sempre ao lado dele, que o tornou querido dos feácios e que veio agora combinar um plano, esconder os presentes e dizer os males que o destino lhe prepara no palácio: ele terá de suportar calado e não dizer a ninguém quem é, mesmo sob a violência dos homens. Odisseu responde que é difícil reconhecê-la, que ela o assistiu em Troia mas o abandonou depois da queda da cidade, e que só voltou a vê-la entre os feácios; pede-lhe em nome do pai que lhe diga se está mesmo em Ítaca, porque suspeita que ela o engana. Atena diz que sempre há essa desconfiança em seu peito e que por isso mesmo não pode deixá-lo: outro homem correria ao palácio rever os seus, mas ele não quer saber antes de provar a esposa, que fica sentada nos aposentos, e para quem as noites e os dias se consomem em lágrimas. Ela nunca duvidou de que ele voltaria, mas não quis enfrentar Poseidon, tio dela, irado porque Odisseu cegou o filho dele. Para convencê-lo, mostra o porto de Fórcis, a oliveira, a gruta das ninfas onde ele fazia hecatombes e o monte Nérito. Dissipa a névoa, a terra aparece, e Odisseu a reconhece, beija o chão e reza às Náiades, prometendo presentes se Atena permitir que ele viva e o filho cresça.
Atena e Odisseu escondem os presentes no fundo da gruta, e a deusa fecha a entrada com uma pedra. Sentados junto à oliveira, planejam a morte dos pretendentes. Atena lembra que eles dominam a casa há três anos, cortejando Penélope, e que ela, chorando o retorno dele, dá esperança a todos com mensagens enquanto sua mente deseja outra coisa. Odisseu responde que teria tido no palácio o destino de Agamêmnon se Atena não lhe tivesse contado tudo, e lhe pede que o ajude como em Troia: com ela ao lado, lutaria contra trezentos. Atena promete estar com ele e que o chão será manchado de sangue e miolos dos pretendentes. Para que ninguém o reconheça, nem eles, nem a esposa, nem o filho, ela o disfarça: murcha a pele, tira os cabelos, cobre-o de trapos e turva-lhe os olhos. Manda-o primeiro ao porqueiro Eumeu, que o ama, ao filho e à prudente Penélope, e que está com os porcos junto à Pedra do Corvo e à fonte Aretusa; ela mesma vai a Esparta chamar Telêmaco. Odisseu pergunta por que ela não avisou o rapaz, para que ele não vague sofrendo pelo mar enquanto outros devoram seus bens. Atena responde que ele não deve se inquietar com Telêmaco: foi ela quem o enviou, para que ganhasse boa fama, e ele está tranquilo na casa de Menelau, com fartura; há jovens que o espreitam num navio para matá-lo, mas ela acha que a terra engolirá alguns pretendentes antes. Toca-o com a vara: a pele, os cabelos e os olhos se fazem de velho, e ela lhe dá trapos, um couro de cervo, bordão e surrão. Separam-se, e Atena parte para a Lacedemônia.
Análise
O canto tem duas metades que se espelham. Na primeira, os feácios devolvem Odisseu a Ítaca sem que ele precise fazer nada, e o preço é a pedra em que Poseidon transforma o navio e o fim das escoltas: o último hóspede levado por eles é também o que encerra a hospitalidade desse povo. Na segunda, o homem que dormia na praia acorda sem saber onde está e, em vez de reclamar o que é seu, conta uma mentira à primeira pessoa que encontra. Atena lhe diz o porquê: ele não larga o engano nem em casa, e ela o acompanha justamente por essa mente.
O retorno que o poema esperou doze cantos para mostrar não é uma chegada: Odisseu desembarca dormindo, não reconhece a terra e, antes de chorar a pátria, conta os presentes. A volta só se completa quando a deusa dissipa a névoa e lhe mostra o porto, a oliveira e a gruta, e mesmo então o poema o põe de novo sob disfarce, desta vez imposto. Os dois ocultamentos têm o mesmo motivo, dito pelo narrador: que a esposa e os cidadãos não o reconheçam antes que os pretendentes paguem (13.192-193).
Assinatura
A análise completa de cada canto de Odisseia está na assinatura, com a explicação de cada citação, o quiz, o guia em PDF e o caderno de estudos.