Resumo do capítulo
Ao nascer do sol, Telêmaco, Atena e a tripulação chegam a Pilos, a cidade bem construída de Neleu, onde os pílios sacrificam touros negros a Poseidon na praia, em nove assentos de quinhentos homens cada um, com nove touros diante de cada grupo. Os viajantes baixam as velas, ancoram e desembarcam, com Atena na frente. A deusa, com a forma de Mentor, diz a Telêmaco que deixe a vergonha de lado, porque cruzou o mar para saber do pai, onde a terra o cobriu e que sorte teve, e manda-o ir direto a Nestor e pedir-lhe que diga a verdade, porque ele é sensato e não mentirá. Telêmaco, que nunca praticou o discurso e tem vergonha de interrogar um homem mais velho, pergunta como vai falar; Atena responde que parte ele pensará por si e parte um deus lhe sugerirá, porque ele não nasceu nem cresceu contra a vontade dos deuses.
Nestor está sentado com os filhos, e os companheiros preparam o banquete. Ao verem os estranhos, todos vêm cumprimentá-los e convidá-los a sentar. Pisístrato, filho de Nestor, é o primeiro: toma a mão de ambos, senta-os em peles macias na areia, junto ao pai e ao irmão Trasimedes, serve-lhes as vísceras e enche de vinho uma taça de ouro, que oferece primeiro a Atena, pedindo-lhe que reze a Poseidon, cujo banquete encontraram, e depois passe a taça ao outro, porque todos os homens precisam dos deuses. Começa por ela porque o outro é jovem, da idade do próprio Pisístrato. Atena se alegra com o homem prudente e justo que lhe deu a taça primeiro e reza a Poseidon: glória a Nestor e aos filhos, recompensa aos pílios pela hecatombe, e que ela e Telêmaco voltem tendo cumprido a missão. Ela mesma realiza a prece, e Telêmaco reza da mesma forma.
Depois do banquete, Nestor propõe que agora é melhor perguntar aos hóspedes quem são, e quer saber se vêm por negócio ou se vagam como piratas, arriscando a vida e levando o mal a estrangeiros. Telêmaco, encorajado por Atena, que lhe pôs coragem no peito para que perguntasse pelo pai e conquistasse boa fama entre os homens, diz que vêm de Ítaca por um assunto particular, não público: segue a fama do pai, para saber algo de Odisseu, que dizem ter lutado ao lado de Nestor e saqueado Troia. Dos outros heróis souberam como morreram, mas Zeus deixou ignorado o fim de Odisseu, em terra ou no mar. Por isso chega aos joelhos de Nestor, em súplica, e pede que diga o que viu ou ouviu, sem suavizar por respeito ou pena, e que se lembre de qualquer palavra ou ação do pai em Troia.
Nestor, lembrado dos sofrimentos, diz que ali jazem Ájax, Aquiles, Pátroclo e o seu próprio filho Antíloco, e que ninguém poderia contar tudo: cinco ou seis anos não bastariam, e Telêmaco voltaria cansado para casa antes de ouvir. Durante nove anos os aqueus prepararam armadilhas contra Troia, e Zeus só no fim a concedeu; ninguém queria medir-se em astúcia com Odisseu, que vencia com toda sorte de ardis. Nestor se espanta com a semelhança: Telêmaco fala como o pai, e ninguém esperaria tal discurso de um jovem. Conta que ele e Odisseu nunca discordaram em assembleia nem em conselho, mas pensavam com um só ânimo pelo bem dos argivos.
Depois da queda de Troia, os aqueus subiram nas naus e um deus os dispersou: Zeus planejou um retorno doloroso, porque nem todos eram sensatos nem justos, e muitos tiveram mau fim pela ira de Atena, que lançou discórdia entre os Atridas. Estes convocaram a assembleia fora de hora, ao pôr do sol, e os aqueus chegaram pesados de vinho. Menelau mandava lembrar o retorno; Agamêmnon queria reter o exército para fazer hecatombes e aplacar Atena, sem saber, diz Nestor, que a deusa não cederia, porque a mente dos deuses não muda depressa. O exército se dividiu e passou a noite em desacordo, porque Zeus preparava a desgraça. Pela manhã, metade ficou com Agamêmnon e metade, com Nestor, partiu, com o mar aplanado por um deus. Em Tênedo sacrificaram, desejando voltar, mas Zeus ainda não decidira o retorno e suscitou nova discórdia: os homens de Odisseu voltaram para agradar a Agamêmnon, enquanto Nestor fugiu com seus navios, sabendo que um deus tramava o mal, e Diomedes também fugiu e animou os companheiros. Menelau os alcançou tarde, em Lesbos, quando deliberavam o caminho; pediram um sinal ao deus, que mandou atravessar o mar até a Eubeia. Chegaram a Geresto e ofereceram coxas de touro a Poseidon; em quatro dias a gente de Diomedes ancorou em Argos, e Nestor seguiu para Pilos, com vento sempre favorável.
Nestor diz que não sabe mais nada do destino dos outros, mas conta o que ouviu em casa: os mirmidões chegaram bem, com o filho de Aquiles, e também Filoctetes; Idomeneu levou os companheiros a Creta sem perdas. Quanto a Agamêmnon, Telêmaco já ouviu, ainda que distante, como voltou e como Egisto o matou; mas Egisto pagou amargamente, e é bom que o homem morto deixe um filho, porque Orestes se vingou do assassino do pai. Nestor anima Telêmaco, que vê alto e belo, a ser forte para que os vindouros falem bem dele.
Telêmaco responde que Orestes se vingou e terá fama larga entre os vindouros, e deseja que os deuses lhe dessem força igual para castigar os pretendentes, que o insultam e tramam atos ímpios; mas os deuses não fiaram tal ventura nem ao pai nem a ele, e agora é preciso suportar. Nestor pergunta se ele se submete por vontade ou se o povo o odeia, seguindo a voz de um deus, e lembra que Odisseu pode voltar e se vingar, só ou com todos os aqueus; e, se Atena quisesse amar Telêmaco como amou Odisseu em Troia, onde Nestor viu a assistência mais clara que já viu de um deus a um homem, algum dos pretendentes esqueceria o casamento. Telêmaco responde que não espera que isso se cumpra, nem que os deuses o queiram. Atena, com a figura de Mentor, o repreende: um deus salva com facilidade um homem, mesmo de longe; ela preferiria sofrer muito e ver o dia do retorno a morrer em casa como Agamêmnon, traído por Egisto e pela própria mulher; mas nem os deuses podem proteger um homem querido da morte comum, quando o destino a traz. Telêmaco pede que não falem mais disso: para o pai não há retorno verdadeiro, pois os imortais já lhe determinaram a morte. Quer perguntar outra coisa a Nestor, que dizem ter reinado por três gerações e lhe parece imortal: como morreu Agamêmnon, onde estava Menelau, que ardil teve Egisto para matar homem muito melhor, ou se Menelau estava longe de Argos, errando entre os homens.
Nestor responde que contará tudo. Se Menelau tivesse encontrado Egisto vivo ao voltar de Troia, nem o enterrariam: cães e aves o devorariam, longe da cidade, sem que mulher aqueia o chorasse, tamanho foi o crime. Enquanto os aqueus travavam batalhas em Troia, Egisto, em paz no fundo de Argos, enfeitiçava Clitemnestra com palavras; ela recusou no início, pois tinha bom juízo, e havia um aedo a quem Agamêmnon encomendara guardá-la; mas quando o destino dos deuses a prendeu, Egisto levou o aedo a uma ilha deserta e o deixou como presa para as aves, e levou a mulher, disposta, para casa, queimou muitas coxas nos altares e pendurou muitas oferendas, por ter cumprido o grande feito que nunca esperara. Nestor e Menelau voltavam juntos, amigos, mas no cabo Súnio Apolo matou com suas flechas o piloto de Menelau, Frôntis, e Menelau se deteve para enterrá-lo, apesar da pressa. Quando retomou o mar, ao chegar ao monte Maleia, Zeus lhe deu uma viagem odiosa, com ventos e ondas como montanhas; parte das naus foi para Creta, onde os homens escaparam à morte, mas as naus se partiram nos rochedos, e cinco navios foram levados ao Egito pelo vento e pela água; ali Menelau vagou juntando riquezas entre estrangeiros. Enquanto isso, Egisto reinou sete anos sobre Micenas; no oitavo voltou de Atenas o divino Orestes e matou o assassino do pai, e deu aos argivos o banquete fúnebre da mãe odiosa e de Egisto covarde; no mesmo dia chegou Menelau, com todas as riquezas que as naus podiam carregar.
Nestor aconselha Telêmaco a não ficar muito tempo longe de casa, deixando os bens e homens tão insolentes, para que não repartam tudo e a viagem seja inútil. Manda-o a Menelau, que voltou há pouco de onde ninguém espera voltar, e oferece-lhe a nau ou, por terra, carro, cavalos e seus filhos como guias até Esparta; pede que Telêmaco peça a Menelau a verdade, porque ele é sensato e não mentirá. Ao pôr do sol, Atena diz que o discurso foi justo e propõe cortar as línguas, misturar o vinho, fazer as libações a Poseidon e aos imortais e ir dormir, porque a luz já se foi e não convém demorar na festa dos deuses. Os arautos lavam as mãos dos convivas, os jovens enchem as crateras, lançam as línguas ao fogo e libam de pé. Quando Atena e Telêmaco querem voltar à nau, Nestor os detém: ofende-se, como se fosse pobre, sem mantos nem cobertores; ele tem mantas e belas colchas, e o filho de Odisseu não dormirá no convés enquanto ele viver e seus filhos receberem os hóspedes que cheguem à casa. Atena concorda: Telêmaco irá com Nestor dormir em seu palácio; ela voltará à nau para animar os companheiros, pois é a mais velha entre os jovens, e de manhã irá aos caucões cobrar uma antiga dívida; pede que Nestor mande Telêmaco em carro com o filho e os cavalos mais velozes. Em seguida parte sob a forma de uma ave de rapina, e todos se espantam.
Nestor, admirado, toma a mão de Telêmaco e diz que não espera que ele seja mau ou sem força, já que tão jovem os deuses o acompanham: aquela era a filha de Zeus, Tritogênia, que também honrava seu pai entre os argivos. Pede à deusa glória para si, os filhos e a esposa, e promete-lhe uma novilha de um ano, de fronte larga, nunca domada, com os chifres cobertos de ouro; Atena o ouve. No palácio, sentam-se em ordem, e Nestor manda misturar o vinho de onze anos, que a despenseira abre, e faz libações a Atena; os outros vão dormir, e ele deita Telêmaco numa cama de cordas sob o pórtico, ao lado de Pisístrato, o único filho ainda solteiro, enquanto ele mesmo dorme no fundo da casa, com a esposa.
Ao amanhecer, Nestor se senta nas pedras brancas diante da porta, onde Neleu antes se sentava, e os filhos se reúnem em torno dele. Manda cumprir logo o seu desejo de honrar Atena, que se mostrou claramente no banquete: buscar uma novilha, chamar os companheiros de Telêmaco, chamar o ourives Laerces para dourar os chifres e mandar as criadas preparar o banquete. Atena também vem assistir. Nestor dá o ouro, e o ourives cobre os chifres para que a deusa se alegre ao ver. Os filhos e a esposa cumprem o rito: Trasimedes golpeia a novilha com o machado, as mulheres gritam, Pisístrato a degola, e Nestor queima as coxas sobre lenha e vinho. Policasta, a filha caçula, banha Telêmaco, unge-o com óleo e o veste, e ele sai do banho semelhante aos deuses e se senta ao lado de Nestor. Depois do banquete, Nestor manda atrelar os cavalos ao carro; Telêmaco sobe, Pisístrato pega as rédeas, e partem, deixando Pilos. Ao anoitecer chegam a Feras, na casa de Diocles, onde passam a noite; ao amanhecer seguem pela planície de trigo, e o canto termina com o sol se pondo e as ruas escurecendo.
Análise
Telêmaco veio ouvir sobre o pai, e o que ouve é a história de outro pai. Nestor não sabe nada de Odisseu: diz que voltou sem notícia dos outros. O que oferece é um espelho, o de Agamêmnon, morto por quem ficou em casa, e o de Orestes, o filho que volta e vence. O canto termina com Telêmaco sem notícia, mas com um caminho, um carro e um companheiro.
Quem fala em Pilos é um anfitrião, e o canto mostra como se recebe: Pisístrato acolhe antes de perguntar quem são os estranhos, e Nestor se ofende com a ideia de o filho de Odisseu dormir no convés. O leitor, que viu no canto anterior como Telêmaco é tratado na própria casa, ouve o contraste sem que o poema o diga. Atena, por sua vez, fala de dois modos: dá coragem ao rapaz e o corrige quando ele duvida, e só se revela na saída, sob a forma de uma ave.
Assinatura
A análise completa de cada canto de Odisseia está na assinatura, com a explicação de cada citação, o quiz, o guia em PDF e o caderno de estudos.