Resumo do capítulo
Chega ao palácio um mendigo conhecido em toda Ítaca, que pede esmola pela cidade e é famoso pelo ventre insaciável: é muito grande de se ver, mas não tem força nem vigor. A mãe lhe deu o nome de Arneu, mas os jovens o chamam Iro, porque ele leva recados quando alguém o manda. Ele tenta expulsar Odisseu do vestíbulo com insultos, e dá como razão que todos os pretendentes piscam para ele e o mandam arrastar o velho, embora diga que, mesmo assim, tem vergonha. Odisseu o olha de baixo e responde que não lhe fez mal, que a soleira cabe aos dois, que ele não deve ter inveja do que é alheio, porque também é mendigo e a riqueza vem dos deuses. Avisa que não o provoque com as mãos: velho como é, ainda pode ensanguentar-lhe o peito e os lábios, e no dia seguinte Iro não teria vontade de voltar àquela casa. Iro, furioso, diz que o glutão fala como velha de forno, promete quebrar-lhe os dentes e o desafia a se cingir para a luta diante de todos.
Antínoo ouve os dois e ri: nunca houve diversão assim, um deus a trouxe à casa. Os pretendentes se levantam e cercam os mendigos, e Antínoo propõe o prêmio: há buchos de cabra no fogo, cheios de gordura e sangue, para a ceia; quem vencer escolherá o que quiser, comerá sempre com eles e nenhum outro mendigo será admitido para pedir. Todos aprovam. Odisseu, que o narrador diz falar com astúcia, responde que não é possível a um velho esgotado pela desgraça lutar com um homem mais novo, mas que o ventre o leva a aceitar os golpes; exige que todos jurem que ninguém o ferirá com mão pesada para favorecer Iro. Eles juram. Telêmaco então diz ao hóspede que não receie nenhum dos aqueus, porque quem o tocar lutará contra muitos: ele é o anfitrião, e os chefes Antínoo e Eurímaco, ambos sensatos, concordam.
Odisseu cinge os trapos na cintura e mostra coxas fortes, ombros largos, peito e braços robustos, e Atena, parada ao lado, lhe aumenta os membros. Os pretendentes se admiram e dizem que Iro vai atrair para si um mal que ele mesmo buscou. Iro perde o ânimo, e os servos o cingem à força e o levam, tremendo. Antínoo o repreende e jura que, se o estrangeiro vencer, mandará Iro de navio ao rei Équeto, que lhe cortará nariz e orelhas e lhe dará os genitais crus aos cães. Os dois levantam as mãos. Odisseu pondera se deve golpeá-lo de modo a tirar-lhe a vida ali mesmo ou só estendê-lo no chão, e conclui que é melhor golpear leve, para que os aqueus não o percebam. Iro o acerta no ombro direito, e Odisseu o atinge na nuca, abaixo da orelha, quebrando-lhe os ossos por dentro; o sangue sobe à boca de Iro, que cai gemendo, batendo os dentes e chutando o chão. Os pretendentes morrem de rir. Odisseu o arrasta pelos pés até o pátio, encosta-o no muro, põe-lhe o cajado na mão e manda que fique ali espantando porcos e cães, que não mande mais em hóspedes e mendigos e que se cuide para que não lhe aconteça pior. Pendura-lhe a bolsa esburacada no ombro e volta à soleira.
Os pretendentes entram rindo e o saúdam: que Zeus e os outros deuses lhe deem o que mais deseja, por ter feito o glutão parar de mendigar, a quem logo mandarão ao rei Équeto. Odisseu se alegra com o presságio. Antínoo põe-lhe ao lado um grande bucho, e Anfínomo lhe oferece dois pães e brinda com taça de ouro, desejando-lhe felicidade no futuro, já que agora ele tem males demais. Odisseu responde que Anfínomo lhe parece sensato, filho de Niso de Dulíquio, e lhe diz uma coisa: não há criatura mais frágil que o homem, que não espera mal enquanto os deuses lhe dão vigor e, quando enviam a desgraça, a suporta a contragosto, porque a mente dos homens é como o dia que lhes traz o pai dos homens e dos deuses. Diz que também ele devia ser feliz entre os homens e fez muitos atos injustos, cedendo à força e confiado no pai e nos irmãos, e que por isso ninguém deve ser sem lei, mas gozar em silêncio o que os deuses dão. Vê os pretendentes tramando coisas injustas, consumindo os bens e desonrando a mulher de um homem que, afirma, não ficará muito tempo longe dos seus; deseja que um deus leve Anfínomo para casa antes que o encontre, porque não crê que os pretendentes e ele se separem sem sangue quando entrar no palácio. Faz libação, bebe e devolve a taça a Anfínomo, que atravessa a casa com o coração aflito, balançando a cabeça, porque pressentia o mal; mas nem assim escapa, pois Atena também o prendeu, para ser domado pelas mãos e pela lança de Telêmaco. Ele volta ao assento de onde se levantara.
Atena põe no ânimo da prudente Penélope o desejo de aparecer aos pretendentes, para abrir-lhes mais o coração e para ser mais honrada pelo marido e pelo filho do que antes. Ela ri sem vontade e diz à despenseira Eurínome que o desejo, que nunca teve, é de mostrar-se aos pretendentes, mesmo os odiando, e de aconselhar o filho a não se misturar tanto com eles, que falam bem e pensam mal por trás. Eurínome concorda, mas pede que ela lave o corpo e unja as faces e não vá com o rosto banhado de lágrimas, porque o filho já é crescido, como ela sempre pediu aos deuses. Penélope recusa: os deuses lhe destruíram a beleza desde que o marido partiu; pede as servas Autónoe e Hipodâmia, porque tem vergonha de ir sozinha entre homens. Atena lhe derrama sono, e ela adormece na cadeira; a deusa lhe dá dons imortais, limpando-lhe o rosto com o ungüento de Afrodite e tornando-a mais alta, mais cheia e mais branca que o marfim. Penélope acorda com a chegada das servas, diz que um sono suave a cobriu e pede a Ártemis uma morte igualmente suave, para não consumir a vida de saudade do marido, o melhor dos aqueus em toda virtude. Desce com duas servas e para junto do umbral, com o véu sobre as faces; os joelhos dos pretendentes se soltam, enfeitiçados de amor, e todos rezam para deitar-se ao lado dela.
Penélope censura Telêmaco: ele já é grande e belo, mas já não tem juízo, pois deixou um hóspede ser maltratado na casa, e isso lhe trará vergonha entre os homens. Telêmaco responde que não se ofende com a raiva dela, que sabe distinguir o bom do pior e já não é criança, mas que não consegue pensar tudo com sensatez, cercado por homens de más intenções e sem aliados. A luta entre Iro e o estrangeiro não saiu como os pretendentes queriam, porque o hóspede era mais forte, e ele deseja a Zeus, Atena e Apolo que todos os pretendentes estejam vencidos como Iro, que está sentado à porta do pátio, balançando a cabeça como bêbado, sem poder levantar-se. Eurímaco elogia Penélope: se todos os aqueus de Argos a vissem, haveria mais pretendentes em sua casa, pois ela supera as mulheres em porte, beleza e juízo. Ela responde que os deuses destruíram a virtude e a beleza dela quando Odisseu partiu para Troia, e que, se ele voltasse, a fama dela seria maior. Conta a despedida: ele lhe tomou a mão e disse que não cria que os aqueus voltassem todos de Troia, que não sabia se um deus o traria de volta, que ela cuidasse dos pais dele e da casa e que, quando visse o filho de barba, casasse com quem quisesse e deixasse a casa. Diz que tudo isso agora se cumpre e que a noite do casamento odioso chegará. Acrescenta o que mais a fere: os pretendentes não seguem o costume de quem corteja a filha de um homem rico, que traz bois e ovelhas e dá presentes, em vez de comer sem pagar a casa alheia. Odisseu se alegra porque ela lhes arranca presentes e os encanta com palavras suaves, enquanto a mente dela pensa outra coisa.
Antínoo diz que ela deve aceitar os presentes que cada aqueu quiser trazer, porque não é bom recusar uma dádiva, e que eles não irão a seus campos nem a outro lugar antes que ela se case com o melhor deles. Todos mandam o arauto buscar o presente: Antínoo, um grande manto bordado com doze fivelas de ouro; Eurímaco, um colar de ouro com âmbar; Euridamante, dois brincos de três pérolas; Pisandro, um colar. Penélope sobe com as servas, que levam os presentes, e os pretendentes voltam à dança e ao canto, esperando a noite.
À noite, as servas põem três braseiros na sala e os alimentam com lenha seca. Odisseu manda as servas irem para junto da rainha, distraí-la fiando e cardando lã, enquanto ele dará luz a todos; ainda que esperem a Aurora, não o vencerão, porque ele está habituado ao trabalho. As servas riem e se entreolham; Melanto, filha de Dólio, criada por Penélope como filha, mas amante de Eurímaco e sem parte na aflição dela, o insulta: diz que ele perdeu o juízo, que devia dormir na forja, que está bêbado ou é assim por natureza, ou ainda que se ensoberbeceu por ter vencido Iro, e que outro melhor virá expulsá-lo ensanguentado. Odisseu responde que vai contar tudo a Telêmaco, para que ele a corte em pedaços. As servas fogem de medo, crendo que ele falou a verdade. Odisseu fica junto aos braseiros, observando todos, com outros planos no ânimo. Atena não deixa que os pretendentes parem de injuriá-lo, para que a dor entre mais fundo no coração dele.
Eurímaco zomba: o mendigo não veio sem a ajuda de um deus, pois a luz das tochas parece sair da cabeça dele, que não tem um só cabelo. Oferece-lhe trabalho no campo, a consertar muros e plantar árvores, com comida e roupa, mas diz que ele prefere mendigar. Odisseu desafia: numa ceifa de primavera, sem comer até a noite, ou arando com os melhores bois, ou numa guerra, com escudo, duas lanças e capacete, Eurímaco veria quem ele é; diz que o outro é arrogante porque convive com poucos e fracos, e que, se Odisseu voltasse à pátria, a porta, por larga que fosse, seria estreita para a fuga dele. Eurímaco, enfurecido, atira o escabelo; Odisseu se esquiva e se senta junto aos joelhos de Anfínomo, por temer Eurímaco, diz o texto, e o escabelo acerta no braço direito o escanção, que cai gemendo, com a jarra rolando no chão. Há tumulto, e os pretendentes dizem que seria melhor que o estrangeiro tivesse morrido antes de vir. Telêmaco manda que parem de loucura e se deitem: não expulsa ninguém. Os pretendentes mordem os lábios, admirados de como ele falou. Anfínomo propõe que ninguém se irrite com palavra justa nem maltrate o estrangeiro ou qualquer servo da casa de Odisseu; o escanção sirva as taças, eles libem e vão dormir, e o hóspede fique a cargo de Telêmaco. Todos aprovam, libam aos deuses e cada um vai para casa.
Análise
O canto põe à prova o que o disfarce exige de Odisseu e mostra que ele sabe medir. Na luta com Iro, ele consegue o juramento que o protege, esconde a força que Atena lhe dá até o último instante e, no golpe, escolhe a medida que não o denuncia: quer matar e decide não matar, porque os aqueus estão olhando. O mesmo autocontrole o faz suportar, mais adiante, as injúrias de Melanto e de Eurímaco sem se revelar.
O canto mostra também as duas casas que o disfarce atravessa. Os avisos a Anfínomo e a ameaça a Eurímaco são verdade dita em tom de hipótese, e ninguém a ouve como aviso, porque os pretendentes tomam o mendigo por bêbado ou louco. Penélope, embelezada por Atena, recebe os presentes enquanto o narrador diz que a mente dela pensa outra coisa, e o marido se alegra: cada um joga no seu lado da sala, sem que o texto diga que se combinaram.
Assinatura
A análise completa de cada canto de Odisseia está na assinatura, com a explicação de cada citação, o quiz, o guia em PDF e o caderno de estudos.