Canto I: O concílio dos deuses e Telêmaco
fala-me, Musa, do homem de muitas voltas, que muito vagou depois de saquear a cidadela sagrada de Troia.
Explicação e análise
O poema começa antes de qualquer cena: o narrador se dirige à Musa, a divindade que inspira o canto, e lhe pede que fale de um homem. Esse homem ainda não tem nome, que só aparece no verso 21. O que se diz dele nestes dois versos é que muito vagou depois de saquear a cidadela sagrada de Troia, a cidade em que se travou a guerra que a Ilíada conta.
O adjetivo que o define, polýtropos, “de muitas voltas”, quer dizer ao mesmo tempo que ele deu muitas voltas pelo mundo e que tem muitos expedientes. As duas coisas valem para Odisseu, e a palavra já anuncia o herói que o poema vai mostrar: alguém que sobrevive por inventar saídas, e não só pela força. Poucos versos adiante, o narrador diz que os companheiros dele morreram pela própria insensatez, porque comeram os bois do Sol, e com isso isenta Odisseu da culpa antes de contar qualquer aventura. A Ilíada abre com uma ira; a Odisseia abre com um homem e com aquilo que ele sofreu.
Pode-se ler a abertura como elogio, o de um herói cuja qualidade principal é a inventividade. Pode-se ler também como pergunta: quem muda de rumo e de recurso a cada obstáculo tem uma identidade fixa? O poema vai pôr essa dúvida à prova várias vezes, e o adjetivo do primeiro verso é o ponto de partida dela.
ai, como os mortais culpam os deuses! Dizem que de nós vêm os males, e eles mesmos, pela própria insensatez, têm dores além da sua parte.
Explicação e análise
Assinatura
A explicação desta e das outras 54 citações de Odisseia está na assinatura.
mas Odisseu, desejando ver ao menos a fumaça subindo da sua terra, anseia por morrer.
Explicação e análise
Canto II: A assembleia de Ítaca
jovens, meus pretendentes, já que morreu o divino Odisseu, esperai, ainda que apressados pelas minhas núpcias, até que eu termine um tecido, para que não se percam em vão os fios: uma mortalha para o herói Laertes.
Explicação e análise
muitas aves andam sob os raios do sol, e nem todas trazem sinal; quanto a Odisseu, morreu longe.
Explicação e análise
Canto III: Telêmaco em Pilos
ali ninguém jamais quis medir-se com ele em astúcia, porque o divino Odisseu vencia de longe com toda sorte de ardis, o teu pai.
Explicação e análise
Telêmaco, que palavra te escapou da cerca dos dentes! Um deus, se quiser, salva facilmente um homem, mesmo de longe.
Explicação e análise
Canto IV: Telêmaco em Esparta
mas Odisseu apertou-lhe a boca com as mãos, firmes, sem folga, e salvou todos os aqueus.
Explicação e análise
conduziu-o, sem que ele soubesse da ruína, e o matou depois de o banquetear, como se mata um boi junto à manjedoura.
Explicação e análise
Canto V: Calipso e a balsa
soberana deusa, não te irrites comigo por isto: eu mesmo sei muito bem que a prudente Penélope é inferior a ti no aspecto e na estatura, a quem a olhe de frente; pois ela é mortal, e tu és imortal e sem velhice. Mas, ainda assim, quero e desejo todos os dias voltar para casa e ver o dia do regresso.
Explicação e análise
como quando alguém esconde um tição na cinza escura, no limite do campo, onde não há outros vizinhos, guardando a semente do fogo para não ter de acendê-lo em outro lugar, assim Odisseu se cobriu de folhas.
Explicação e análise
Canto VI: Nausícaa
ai de mim, a terra de quais mortais alcanço de novo? Serão soberbos, selvagens e sem justiça, ou hospitaleiros, com mente que teme os deuses?
Explicação e análise
pois nada é mais forte nem melhor do que isto: quando, concordes nos pensamentos, mantêm a casa marido e mulher.
Explicação e análise
Canto VII: O palácio de Alcínoo
e que a vida me deixe depois de eu ter visto meus bens, minhas servas e a grande casa de alto teto.
Explicação e análise
ah, Zeus pai, Atena e Apolo! Que sendo tal como és, pensando o que penso, tivesses minha filha e fosses chamado meu genro, ficando aqui; eu te daria casa e bens, se de bom grado ficasses; contra a vontade ninguém dos feácios te reterá; que isto não seja caro a Zeus pai.
Explicação e análise
Canto VIII: Os jogos dos feácios
como uma mulher chora o querido marido, lançando-se sobre ele, que caiu diante da sua cidade e do seu povo, defendendo cidade e filhos do dia impiedoso.
Explicação e análise
pois ninguém entre os homens é de todo sem nome, nem mau nem bom, desde que nasce, mas os pais o dão a todos, depois que os geram.
Explicação e análise
Canto IX: O ciclope
áspera, mas boa criadora de rapazes; eu, de fato, não consigo ver nenhuma outra terra mais doce do que a dela.
Explicação e análise
mas quem quer que provasse o fruto do lótus, doce como mel, já não queria voltar com notícias nem regressar, e queriam ficar ali mesmo, entre os lotófagos, comendo lótus e esquecendo o retorno.
Explicação e análise
Ninguém é meu nome: Ninguém me chamam minha mãe, meu pai e todos os outros companheiros.
Explicação e análise
mas, se lhe cabe por destino rever os seus e chegar à casa bem construída e à sua terra pátria, que chegue tarde e mal, tendo perdido todos os companheiros, numa nau alheia, e encontre desgraças em casa.
Explicação e análise
Canto X: Éolo, os lestrigões e Circe
e isso não havia de se cumprir: perdemo-nos pela nossa própria insensatez.
Explicação e análise
tens no peito uma mente que o feitiço não prende. Tu és certamente Odisseu, o de muitas voltas,
Explicação e análise
Canto XI: A descida aos mortos
três vezes me lancei, e o ânimo me mandava segurá-la; três vezes ela voou das minhas mãos, semelhante a uma sombra ou a um sonho.
Explicação e análise
por isso, nunca sejas brando com a tua mulher, nem lhe digas toda a história que bem conheces: diz uma parte, e que a outra fique escondida.
Explicação e análise
não me fales da morte como consolo, ilustre Odisseu. Preferiria, sendo lavrador, servir a outro, a um homem sem terra, de poucos bens, a reinar sobre todos os mortos consumidos.
Explicação e análise
Canto XII: As sereias, Cila e os bois do Sol
Vem cá, muito louvado Odisseu, grande glória dos aqueus, detém o navio para ouvires a voz de nós duas. Pois ninguém ainda passou por aqui em negra nau sem antes ouvir a voz de mel que sai de nossas bocas; mas parte deleitado e sabendo mais.
Explicação e análise
Se as deixares ilesas e pensares no regresso, ainda chegareis a Ítaca, embora sofrendo males; mas se as lesares, então te anuncio a ruína, para o navio e para os companheiros; e tu mesmo, se escapares, voltarás tarde e mal, tendo perdido todos os companheiros.
Explicação e análise
Canto XIII: A chegada a Ítaca
Ai de mim, a terra de que mortais alcanço desta vez? Serão violentos, selvagens e injustos, ou hospitaleiros, com mente que teme os deuses?
Explicação e análise
Seria ladino e furtivo quem te superasse em todos os ardis, ainda que um deus te encontrasse. Obstinado, de astúcia variada, insaciável de enganos, nem mesmo em tua própria terra ias deixar as trapaças e as palavras furtivas, que te são caras desde a raiz.
Explicação e análise
Canto XIV: Na cabana de Eumeu
pois odioso é para mim, tanto quanto as portas do Hades, aquele que, cedendo à pobreza, diz falsidades.
Explicação e análise
e os deuses me deram ainda outras dores e gemidos: pois, chorando e sofrendo pelo senhor igual a um deus, fico aqui sentado e crio porcos gordos para que outros os comam, enquanto ele, desejoso de comida, talvez erre entre povos e cidades de língua estranha.
Explicação e análise
Canto XV: A volta de Telêmaco
assim como esta águia arrebatou o ganso criado em casa, vinda do monte onde tem sua cria e seus filhotes, assim Odisseu, depois de sofrer muitos males e de muito errar, voltará para casa e se vingará.
Explicação e análise
e nós dois, na cabana, bebendo e comendo, deleitemo-nos com as dores um do outro, lembrando; pois também com as dores se deleita o homem que muito sofreu e muito errou.
Explicação e análise
Canto XVI: Pai e filho
não és Odisseu, meu pai, mas um nume me encanta, para que eu chore e gema ainda mais.
Explicação e análise
e choravam em voz aguda, mais copiosamente que aves, águias-marinhas ou abutres de garras curvas, a quem os camponeses tiraram os filhotes antes de poderem voar;
Explicação e análise
Canto XVII: O mendigo no palácio
com a cauda fez festa e baixou as duas orelhas, mas já não pôde chegar perto de seu dono; e Odisseu, olhando para o lado, enxugou uma lágrima,
Explicação e análise
os deuses também, semelhantes a estrangeiros de outras terras, assumindo formas de todo tipo, percorrem as cidades, observando a desmedida e a boa ordem dos homens.
Explicação e análise
Canto XVIII: Iro e os pretendentes
assim falou, e alegrou-se o muito sofredor, divino Odisseu, porque ela lhes arrancava presentes e lhes encantava o ânimo com palavras suaves, mas a mente dela pensava outra coisa.
Explicação e análise
se Odisseu viesse e chegasse à terra pátria, logo as portas, por mais largas que fossem, seriam estreitas para ti, fugindo pelo vestíbulo para fora.
Explicação e análise
Canto XIX: Penélope e a cicatriz
sentou-se junto à lareira e logo se voltou para a sombra; pois logo pressentiu no ânimo que ela, ao tocá-lo, poderia perceber a cicatriz, e as ações viriam à luz. Chegando mais perto, lavava o seu senhor, e logo reconheceu a cicatriz que um javali lhe fizera, outrora, com o dente branco.
Explicação e análise
dizia muitas mentiras, semelhantes às verdades; e, enquanto ela ouvia, corriam lágrimas e se desfazia a sua pele.
Explicação e análise
coragem, filha de Icário, de longe famosa; isto não é sonho, mas visão boa, que se cumprirá para ti. Os gansos são os pretendentes; e eu, que antes era a águia, agora vim de novo, teu marido, que a todos os pretendentes imporei um destino indigno.
Explicação e análise
Canto XX: Os presságios
suporta, coração! Já suportaste coisa ainda mais vil, no dia em que o Ciclope, de força irresistível, devorava os meus valentes companheiros; tu aguentaste, até que o plano te tirou da caverna, quando pensavas morrer.
Explicação e análise
o lamento arde, as faces estão em lágrimas; de sangue estão salpicadas as paredes e as belas vigas; cheio de vultos está o pórtico, cheio também o pátio, vultos que correm para o Érebo, sob a treva; o sol desapareceu do céu, e uma névoa má se espalhou.
Explicação e análise
Canto XXI: O arco
como quando um homem que conhece a lira e o canto estica com facilidade a corda em torno de uma cravelha nova, prendendo dos dois lados o fio bem torcido de tripa de ovelha, assim, sem esforço, Odisseu esticou o grande arco.
Explicação e análise
aqui dentro estou eu mesmo, depois de sofrer muitos males; vim, no vigésimo ano, à terra pátria.
Explicação e análise
vai para o teu quarto e cuida de teus afazeres, o tear e a roca, e manda as servas ocuparem-se do trabalho; o arco será assunto dos homens, de todos, e sobretudo meu, pois meu é o poder nesta casa.
Explicação e análise
Canto XXII: A matança dos pretendentes
para beber vinho; a morte não lhe estava no ânimo. Quem imaginaria que um só homem, entre tantos convivas, por mais forte que fosse, traria para ele a morte má e o negro destino?
Explicação e análise
Eurímaco, nem que me devolvêsseis todos os bens paternos, tudo o que agora tendes, e ainda acrescentásseis de outra parte, nem assim eu pararia as mãos da matança antes que os pretendentes pagassem toda a sua desmedida. Agora está posto diante de vós lutar de frente ou fugir, quem escapar da morte e dos destinos.
Explicação e análise
não é lícito gloriar-se sobre homens mortos. A estes dominou o destino dos deuses e as obras cruéis: a nenhum dos homens da terra honravam, nem mau nem bom, quem chegasse a eles; por isso, por suas insolências, tiveram sorte indigna.
Explicação e análise
Canto XXIII: O leito de oliveira
Euricleia, estende-lhe o firme leito fora do sólido quarto que ele mesmo construiu; ali, depois de colocarem fora o firme leito, lançai a roupa de cama, com peles, mantos e cobertas brilhantes. Assim falou, pondo o marido à prova.
Explicação e análise
dentro do recinto crescia uma oliveira de longas folhas, vigorosa, em plena força; o tronco era grosso como uma coluna. À volta dela construí o quarto, até o terminar, com pedras cerradas, cobri-o bem por cima e pus portas juntas, bem ajustadas.
Explicação e análise
como quando a terra aparece acolhedora a nadadores cuja bem construída nau Poseidon despedaça no mar, empurrada pelo vento e pela onda pesada; poucos escapam do mar cinzento para a terra firme nadando, e muito sal lhes cobre a pele, e eles pisam a terra alegres, tendo fugido ao mal; assim era acolhedor para ela o marido que ela olhava, e do pescoço não largava de todo os braços brancos.
Explicação e análise
Canto XXIV: A paz em Ítaca
deste-me treze pereiras e dez macieiras, e quarenta figueiras.
Explicação e análise
cessai a guerra penosa, itacenses, para que vos separeis o mais depressa sem derramar sangue.