Resumo do capítulo
De manhã, na cabana, Odisseu e o porqueiro Eumeu preparam a refeição e mandam os pastores sair com os porcos. Telêmaco chega, e os cães, em vez de latir, lhe fazem festa. Odisseu repara nisso e no barulho de passos, e avisa Eumeu de que vem alguém conhecido. Antes que termine a frase, o filho está à porta. Eumeu deixa cair as vasilhas, corre a beijar-lhe a cabeça, os olhos e as mãos, e chora como um pai que recebe o filho único depois de dez anos fora. Diz que não esperava vê-lo de novo, porque ele partiu para Pilos em segredo, e estranha que o rapaz prefira a cidade e o bando dos pretendentes ao campo. Telêmaco responde que veio por Eumeu e para saber da mãe: se ela ainda está na casa ou se algum homem já se casou com ela. Eumeu garante que Penélope resiste, chorando noites e dias.
Telêmaco entra, e Odisseu, que passa por mendigo, lhe oferece o assento; o rapaz o faz sentar de novo, e Eumeu improvisa outro lugar com ramos e uma pele. Depois da refeição, Telêmaco pergunta quem é o estrangeiro. Eumeu repete a história cretense que ouviu, a de um homem que errou por muitas cidades e fugiu de um navio de tesprotos, e o entrega à proteção do rapaz. Telêmaco se aflige: é jovem, não confia na força do braço para defender um hóspede, e a mãe hesita entre guardar a casa do marido e seguir o melhor pretendente. Oferece ao estrangeiro manto, túnica, espada e sandálias, e propõe que fique com Eumeu, mas não o deixará ir à casa, onde os pretendentes o ofenderiam. Odisseu responde que o ouvir lhe parte o coração e pergunta se o rapaz se submete de bom grado ou se o povo o odeia ou se lhe faltam irmãos. Diz que, se fosse jovem e filho de Odisseu, ou o próprio Odisseu, preferiria morrer em sua casa a ver hóspedes maltratados e servas arrastadas.
Telêmaco explica que o povo não o odeia e que não tem irmãos: a estirpe é de filho único em cada geração, Arcésio, Laertes, Odisseu e ele, e por isso os inimigos são muitos. Os senhores de Dulíquio, Same, Zacinto e Ítaca cortejam a mãe, que não recusa nem decide o casamento, e consomem a casa. Manda Eumeu avisar Penélope em segredo de que ele voltou são e salvo de Pilos, sem que nenhum aqueu saiba. Eumeu pergunta se deve passar também por Laertes, que, desde a partida de Telêmaco, não come nem bebe e só chora. Telêmaco manda deixá-lo, e que a despenseira avise o velho em segredo. Eumeu parte.
Atena vê Eumeu sair e se aproxima da cabana com a figura de uma mulher alta e bela. Só Odisseu e os cães a veem; os cães fogem ganindo. Com um sinal das sobrancelhas, a deusa o chama ao pátio e manda que revele tudo ao filho, que combinem a morte dos pretendentes e vão à cidade, porque ela não ficará longe, ansiosa por lutar. Toca-o com a vara de ouro: o manto e a túnica ficam limpos, o corpo cresce e rejuvenesce, a pele escurece e a barba se faz escura. Odisseu volta à cabana, e Telêmaco, espantado, desvia o olhar com medo de que seja um deus, e lhe promete sacrifícios e presentes de ouro. Odisseu nega: é o pai dele, por quem o rapaz tanto sofreu. Beija o filho e deixa correr a lágrima que tinha contido. Telêmaco não crê: pensa que um nume o engana para que chore mais, porque nenhum mortal faria sozinho essa mudança. Odisseu responde que nenhum outro Odisseu virá, que chegou no vigésimo ano e que a mudança é obra de Atena, que o faz ora mendigo, ora jovem bem vestido, pois é fácil aos deuses exaltar ou rebaixar um mortal. Então Telêmaco o abraça e os dois choram alto, como aves a quem tiraram os filhotes, até que o rapaz pergunta em que navio o pai chegou.
Odisseu conta que os feácios o levaram a Ítaca dormindo, com presentes que escondeu em grutas, e que Atena o aconselhou a vir planejar o extermínio dos inimigos. Pede o número dos pretendentes. Telêmaco, que ouvira falar da fama do pai, se espanta: dois homens não lutam contra tantos. Enumera cinquenta e dois de Dulíquio com seis servos, vinte e quatro de Same, vinte de Zacinto, doze de Ítaca, mais o arauto Médon, o aedo e dois trinchantes, e teme que o pai pague caro por enfrentá-los. Pede que ele pense num aliado. Odisseu pergunta se Atena e Zeus bastam, e Telêmaco admite que são excelentes defensores. Então o pai expõe o plano. Telêmaco vai para casa ao amanhecer e se mistura aos pretendentes; Eumeu leva depois Odisseu à cidade, disfarçado de mendigo velho. Se o maltratarem, o filho deve aguentar, mesmo que o arrastem pelos pés ou o atinjam com dardos, e apenas aconselhá-los com palavras suaves, porque não o ouvirão. Quando Odisseu fizer sinal com a cabeça, Telêmaco levará todas as armas da sala para o quarto de cima e dirá aos pretendentes que as pôs longe da fumaça e que o ferro atrai o homem quando o vinho provoca briga. Deixará só duas espadas, duas lanças e dois escudos para os dois. E ninguém pode saber que Odisseu voltou: nem Laertes, nem o porqueiro, nem servo algum, nem Penélope. Só os dois sondarão as servas e depois os servos. Telêmaco promete provar seu caráter, mas objeta: sondar os servos pelas fazendas gasta tempo enquanto os pretendentes devoram a casa; que se provem as servas e, por ora, não os homens.
Entretanto chega a Ítaca a nau que levou Telêmaco a Pilos. Os companheiros a puxam à praia, levam as armas e os presentes à casa de Clítio e mandam um arauto avisar Penélope. O arauto e Eumeu se encontram no palácio; o arauto anuncia a volta do filho diante das servas, e Eumeu repete o recado a Penélope em particular e retorna aos porcos. Os pretendentes, abatidos, saem do pátio e se sentam diante do portão. Eurímaco propõe mandar outra nau para chamar de volta os que montavam a emboscada, mas Anfínomo vê a nau já ancorada no porto, ri e diz que não é preciso. Reunidos na ágora, sem deixar ninguém se aproximar, ouvem Antínoo: os deuses salvaram o homem, eles passaram dias vigiando dos cumes e noites no mar para matá-lo, e agora é preciso tramar a morte antes que Telêmaco convoque a assembleia e denuncie o plano, porque o povo já não os favorece e pode expulsá-los. Propõe matá-lo no campo ou no caminho, repartir os bens e deixar a casa à mãe e ao marido dela. Se preferirem que ele viva, que parem de comer o que é dele e cada um corteje Penélope da própria casa, com presentes. Todos calam. Anfínomo, chefe dos de Dulíquio e bem visto por Penélope, responde que não quer matá-lo: é terrível matar uma estirpe real, e é preciso consultar antes os deuses. Se os decretos de Zeus aprovarem, ele próprio o matará; se não, que desistam. Todos aprovam e voltam ao palácio.
Penélope, que soubera do plano por Médon, desce com as servas e, velada, se põe junto ao umbral. Repreende Antínoo: o povo o diz o melhor da ilha em conselho e palavras, e ele não é tal. Lembra-lhe que Zeus protege os suplicantes e que o pai de Antínoo se refugiou na casa de Odisseu quando o povo, irritado com a aliança dele com piratas táfios contra os tesprotos, queria matá-lo, e Odisseu o salvou. Em paga, Antínoo devora a casa, corteja a esposa e quer matar o filho. Eurímaco a acalma: ninguém tocará em Telêmaco enquanto ele viver, porque Odisseu o sentava nos joelhos e lhe dava carne assada, e ele o ama acima de todos. O narrador acrescenta que, ao dizê-lo, Eurímaco mesmo preparava a morte do rapaz. Penélope sobe e chora Odisseu até que Atena lhe dá o sono.
À tarde Eumeu volta à cabana, e os três preparam a ceia com um porco de um ano. Atena toca Odisseu com a vara e o faz velho de novo, com trapos, para que o porqueiro não o reconheça e vá contar a Penélope. Telêmaco pergunta que notícias há na cidade, se os pretendentes já voltaram da emboscada. Eumeu diz que não perguntou nada, só entregou o recado, e que ao voltar viu da colina de Hermes uma nau cheia de homens, escudos e lanças entrando no porto; supõe que fossem eles. Telêmaco sorri e olha o pai, sem que Eumeu perceba. Terminada a ceia, vão dormir.
Análise
O canto tem dois andares que o poema monta em paralelo. Em cima, na cabana, pai e filho se reconhecem e armam o plano; embaixo, na cidade, os pretendentes decidem matar o rapaz e só o adiam por uma consulta aos deuses. O reconhecimento é o único do poema que se dá pela palavra e pela explicação do disfarce, não por um sinal no corpo, e custa a Odisseu duas tentativas: o filho não aceita o pai enquanto vê nele um deus ou um engano de nume.
A virada do canto é o plano. Odisseu pede a Telêmaco o que o rapaz ainda não fez, suportar a ofensa a um estranho sem reagir, e impõe o silêncio absoluto, que inclui Penélope e Laertes. O poema separa quem sabe (pai, filho, Atena) de quem ignora: Penélope defende o filho com argumentos de justiça, e Eurímaco a tranquiliza enquanto trama o contrário.
Assinatura
A análise completa de cada canto de Odisseia está na assinatura, com a explicação de cada citação, o quiz, o guia em PDF e o caderno de estudos.