Resumo do capítulo
Odisseu continua o relato que faz aos feácios na sala de Alcínoo. O navio deixa a corrente do Oceano e chega à ilha de Eeia, onde ficam a casa da Aurora e o lugar em que o Sol nasce. Na manhã seguinte, Odisseu manda os companheiros à casa de Circe buscar o corpo de Elpenor, o companheiro morto. Eles cortam lenha no ponto mais alto da costa, choram, queimam o corpo com as armas dele, erguem um túmulo com uma estela e fincam no alto o remo do morto. Circe, que percebeu que eles tinham voltado do Hades, chega logo com as servas, carregando pão, carne e vinho tinto, e os chama de "duas vezes mortais", porque os outros homens morrem uma vez só. Manda que comam e bebam o dia inteiro e que partam ao amanhecer: ela mostrará o caminho e explicará cada coisa, para que não sofram por algum engano nocivo no mar ou em terra. Eles obedecem. À noite, quando os companheiros dormem junto às amarras do navio, Circe toma Odisseu pela mão, senta-o longe deles e o interroga; ele conta tudo, e ela diz que isso já está cumprido e que agora ele deve ouvir o que vem, porque um deus lhe fará lembrar.
Circe começa pelas Sereias, que encantam com o canto todo homem que se aproxima: quem as ouve por ignorância nunca mais é recebido em casa pela mulher e pelos filhos, e há ossos de homens apodrecendo no prado onde elas se sentam. Manda passar de largo e untar de cera os ouvidos dos companheiros; se ele mesmo quiser ouvir, que o amarrem de pés e mãos, de pé junto ao mastro, e, se pedir que o soltem, que o prendam com mais laços. Depois diz que não indicará qual caminho tomar, que ele mesmo deve decidir, e descreve os dois. De um lado ficam as Rochas Errantes, onde só passou o navio Argo, e só porque Hera amava Jasão. Do outro, um rochedo liso que sobe até as nuvens, com uma gruta onde mora Cila, que tem doze pés, seis pescoços e três fileiras de dentes em cada cabeça e arrebata com cada cabeça um homem do navio; perto dela, um rochedo mais baixo com uma figueira, sob a qual Caríbdis engole e vomita a água negra três vezes por dia, e nem Poseidon, que abala a terra, poderia salvá-lo ali. Circe aconselha passar rente a Cila, porque é bem melhor sentir a falta de seis companheiros do que de todos. Odisseu pergunta se não poderia escapar de Caríbdis e defender-se de Cila quando ela atacar os seus; Circe o repreende: Cila é um mal imortal, não se combate, o melhor é fugir e invocar Crateis, mãe dela, que a impedirá de atacar de novo.
Por fim Circe fala da ilha Trinácia, onde pastam as vacas e as ovelhas do Sol (Hélio), sete rebanhos de cada, de cinquenta cabeças, que nunca se reproduzem nem morrem, guardadas pelas ninfas Faetusa e Lampécia, filhas do Sol. Se Odisseu as deixar ilesas e pensar no regresso, chegarão a Ítaca, ainda que sofrendo; se as ferirem, ela prevê a ruína do navio e dos companheiros, e ele mesmo, se escapar, voltará tarde, mal e sem ninguém. Chega a aurora, e Circe se retira pela ilha. Odisseu manda os companheiros embarcarem, e Circe lhes envia pela popa um vento favorável. Com o coração apertado, ele diz aos homens que não convém que só um ou dois saibam o que a deusa lhe disse: quer contar tudo, para que morram ou escapem sabendo. Repete o que ela mandou sobre as Sereias e pede que o amarrem forte ao mastro e, se ele ordenar que o soltem, apertem ainda mais.
O vento cessa de repente, vem a calmaria, e um deus põe as ondas para dormir. Os companheiros recolhem a vela e se sentam nos remos. Odisseu corta com o bronze um grande disco de cera, amassa-o até amolecer e unta os ouvidos de todos; eles o amarram ao mastro, de pé. Quando o navio chega ao alcance da voz, as Sereias o veem passar e cantam: chamam-no pelo nome, dizem que ninguém passou ali sem ouvi-las e que quem as ouve parte sabendo mais, pois sabem tudo o que argivos e troianos sofreram em Troia e tudo o que acontece na terra. O coração de Odisseu quer ouvir; ele faz sinal com as sobrancelhas para que o soltem, mas os companheiros continuam a remar, e Perimedes e Euríloco se levantam para apertar as cordas. Quando já não ouvem o canto, tiram a cera e o desamarram.
Logo depois, Odisseu vê fumaça e uma grande onda e ouve um estrondo. Os companheiros, apavorados, deixam os remos caírem, e o navio para. Ele percorre o convés animando um por um: já passaram por mal pior, o do Ciclope, e escaparam por sua coragem, conselho e inteligência; manda os remadores bater o mar com força e ordena ao piloto que mantenha o navio fora da fumaça e da onda e rente ao rochedo, para que não se lance sem ele perceber para o outro lado. Sobre Cila não diz nada, para que o medo não faça os homens largar os remos e se esconder no fundo do navio. Ele mesmo esquece a ordem de Circe de não se armar, veste as armas, pega duas lanças e sobe à proa, de onde esperava ver Cila aparecer primeiro, mas não a vê e cansa os olhos de procurá-la na rocha. Entram no estreito chorando, com Cila de um lado e Caríbdis do outro, que vomita a água como uma caldeira no fogo e a engole mostrando o fundo de areia escura. Enquanto todos olham Caríbdis com medo, Cila arranca do navio seis companheiros, os mais fortes de braço. Odisseu os vê no alto, os pés e as mãos agitando-se, chamando-o pelo nome pela última vez. Cila os come à entrada da gruta, enquanto eles lhe estendem as mãos, e ele diz que foi a cena mais lastimável que viu em suas travessias.
Passados os rochedos, chegam à ilha do Sol e, ainda no mar, ouvem o mugido dos bois e o balido das ovelhas. Odisseu lembra o que disseram o cego Tirésias, adivinho de Tebas, e Circe de Eeia, e diz aos homens que ali os espera o pior dos males e que é preciso passar ao largo. Os homens perdem o ânimo, e Euríloco responde com dureza: Odisseu parece de ferro, nunca se cansa; os companheiros estão exaustos e querem desembarcar e preparar uma ceia, e não vagar a noite toda no mar, quando os ventos sopram perigosos e destroem navios mesmo contra a vontade dos deuses. Os outros o aprovam. Odisseu entende que um deus trama o mal e cede: faz todos jurarem que ninguém, por insensatez, matará boi ou ovelha, e que comerão só o que Circe lhes deu. Eles juram, ancoram num porto junto a água doce, jantam, choram os seis perdidos e adormecem. No terceiro quarto da noite, Zeus levanta uma tempestade que cobre terra e mar. De manhã eles puxam o navio para uma gruta, e Odisseu reúne a assembleia: ainda há comida e bebida no navio, é preciso poupar as vacas, que são de um deus terrível, o Sol, que tudo vê e tudo ouve. Eles concordam.
Durante um mês sopra sem parar o vento sul, e não vem outro, só o leste e o sul. Enquanto têm pão e vinho, os homens não tocam no gado, porque querem viver; quando acaba o que há no navio, saem à caça de aves e peixes com anzóis, e a fome os maltrata. Um dia Odisseu se afasta pela ilha, lava as mãos num lugar abrigado do vento e reza a todos os deuses do Olimpo para que lhe mostrem o caminho de volta; eles lhe derramam sono nas pálpebras. Euríloco começa então um mau conselho: toda morte é odiosa, mas morrer de fome é a mais lastimável; que tomem as melhores vacas do Sol e as sacrifiquem aos deuses; se chegarem a Ítaca, erguerão um templo ao Sol; e, se ele se irar e destruir o navio com o apoio dos outros deuses, prefere morrer de uma vez nas ondas a definhar numa ilha deserta. Os outros aprovam, tomam as vacas mais belas, que pastavam perto, sacrificam com folhas de carvalho no lugar da cevada branca, fazem as libações com água, e não com vinho, e assam os pedaços. Odisseu acorda, volta ao navio e sente o cheiro da gordura queimada. Grita aos deuses que o sono cruel o arruinou e que os companheiros cometeram um grande crime na sua ausência.
Lampécia leva a notícia ao Sol, que, irado, pede aos deuses que castiguem os companheiros de Odisseu; se não houver compensação à altura, descerá ao Hades e brilhará entre os mortos. Zeus manda que ele continue a brilhar para imortais e mortais e promete despedaçar o navio com o raio. Odisseu diz que soube disso depois por Calipso, que ouviu de Hermes. Quando ele chega à praia, repreende os homens um a um, mas já não há remédio: as vacas estão mortas. Os deuses mandam prodígios: as peles rastejam, e a carne nos espetos muge, assada ou crua, com voz de boi. Durante seis dias os companheiros banqueteiam-se com as melhores vacas; no sétimo, Zeus faz cessar o vento, e eles zarpam. Quando já não se vê terra, só céu e mar, Zeus põe uma nuvem escura sobre o navio. O Zéfiro cai em tempestade, rompe os cabos do mastro, que desaba e esmaga a cabeça do piloto, e este cai do convés como um mergulhador. Zeus lança o raio sobre o navio, que se enche de enxofre; os homens são atirados na água e flutuam como gaivotas em torno do casco, e o deus lhes tira o retorno. Odisseu corre pelo navio até que a vaga solta o casco da quilha, junta o mastro e a quilha com a correia de couro de boi e senta-se sobre eles. Cessa o Zéfiro, vem o Noto e o devolve a Caríbdis. Ao amanhecer, ele salta e se agarra à figueira, pendurado como um morcego, sem apoio para os pés, e espera que Caríbdis vomite de volta o mastro e a quilha; eles vêm tarde, na hora em que o juiz sai da assembleia para o jantar. Ele se solta, cai no estreito junto às peças, senta-se nelas e rema com as mãos; Zeus não permite que Cila o veja. Depois de nove dias à deriva, na décima noite os deuses o levam à ilha de Ogígia, onde mora Calipso. Ele interrompe ali o relato: contou isso ontem a Alcínoo e à esposa dele, e lhe é odioso repetir o que já foi dito com clareza.
Análise
O canto arma três provas em sequência, e cada uma pede uma coisa diferente de Odisseu. Diante das Sereias, ele obedece a Circe ao pé da letra e se deixa prender por causa do que é capaz de querer; diante de Cila, desobedece e esconde o perigo por causa do que os homens são capazes de sentir; diante do gado do Sol, informa, faz jurar e vê o juramento quebrado na hora em que dorme. As três provas tratam de mando e de saber, e a última explica o proêmio do poema: os companheiros morrem, como diz o narrador logo no início, pela própria insensatez.
Quem conta tudo isso é o próprio Odisseu, diante dos feácios, e ele não se poupa: diz que escondeu o perigo de Cila, que se esqueceu da ordem de Circe e que o sono lhe veio quando os homens decidiam. A palavra atasthalíai, insensatez, que o proêmio aplica aos companheiros, aparece aqui na boca dele, no pedido de juramento (12.300): ele já dá nome ao risco antes que aconteça. Dois dados ficam em tensão sem que o poema os resolva: a fome de um mês era real, e o gado era de um deus.
Assinatura
A análise completa de cada canto de Odisseia está na assinatura, com a explicação de cada citação, o quiz, o guia em PDF e o caderno de estudos.