Resumo do capítulo
Odisseu continua a contar sua viagem aos feácios. Depois de Polifemo, o ciclope, chegam à ilha flutuante de Éolo, amigo dos deuses, cercada por um muro de bronze sem fendas, onde o rei vive em banquete contínuo com a esposa e os doze filhos, seis moças casadas com seis rapazes. Éolo o hospeda por um mês e pergunta por Troia, pelas naus dos argivos e pelo retorno dos aqueus, e Odisseu responde a tudo com ordem. Quando ele pede para partir, Éolo, a quem Zeus fez guardião dos ventos, para acalmá-los ou agitá-los como quiser, entrega-lhe um odre de couro de boi com os caminhos dos ventos amarrados dentro, preso no navio com fio de prata para que nenhum sopro escape. Só Zéfiro fica livre, para levá-los. Navegam nove dias e nove noites, e no décimo avistam a terra pátria, tão perto que se distinguem os fogos. Odisseu, que manejara as escotas sozinho para chegar o quanto antes, sem passá-las a ninguém, cai então de cansaço no sono.
Os companheiros conversam entre si: Odisseu é querido e honrado em toda cidade, leva de Troia belos tesouros e agora ganhou um presente de amizade de Éolo, enquanto eles, que fizeram o mesmo caminho, voltam de mãos vazias. Querem ver quanto ouro e prata há no odre. Vence o mau conselho: desatam o odre, os ventos saltam todos juntos, e a tempestade arrasta os navios, chorando, para longe da pátria. Odisseu acorda e pondera se deve atirar-se ao mar ou calar e continuar entre os vivos. Aguenta, cobre o rosto e fica no navio, enquanto a tormenta os leva de volta à ilha de Éolo.
Em terra, tomam água e comida, e Odisseu vai à casa de Éolo com um arauto e um companheiro. Sentam-se na soleira, enquanto o rei come com a família. Espantados, perguntam que demônio mau o trouxe de volta, se o tinham despachado em condições de alcançar a pátria. Odisseu responde, angustiado, que o prejudicaram os companheiros maus e um sono cruel, e pede ajuda com palavras brandas, porque só eles podem dar-lhe os meios. Todos calam. O pai o expulsa: não lhe é lícito acolher nem enviar de volta quem os deuses odeiam, e a volta de Odisseu prova que os deuses o odeiam. Os homens seguem viagem, abatidos, com os remos pesando por tolice deles mesmos, e sem esperança de escolta.
Seis dias depois, no sétimo, chegam à cidade de Lamo, Telépilo dos lestrigões. O porto tem a entrada estreita, entre dois promontórios, e dentro dele não há ondas. Os demais navios entram e se atam lá dentro, uns perto dos outros. Odisseu deixa o seu sozinho do lado de fora, preso à rocha na ponta, e sobe a um ponto alto para olhar: não vê trabalho de homens, só fumaça. Manda dois companheiros e um arauto para saber quem vive ali. Eles encontram, na fonte, uma moça filha do rei Antífates, que lhes mostra a casa do pai. A mulher do rei é grande como um monte, e eles se apavoram. Ela chama o marido da ágora, e Antífates agarra um dos companheiros e o prepara como refeição, enquanto os outros dois fogem para as naus. Antífates dá o alarme, os lestrigões acorrem inumeráveis, mais parecidos com gigantes que com homens, e arremessam pedras dos rochedos sobre os navios, matam os homens e quebram as naus, espetando os mortos como peixes. Odisseu, que não entrara no porto, tira a espada, corta as amarras do seu navio e manda os companheiros remarem com força. Só o seu navio escapa; os outros perecem ali. Seguem viagem, aliviados por escapar da morte e tristes pelos que perderam.
Chegam à ilha Eeia, onde mora Circe, irmã de Eetes e filha do Sol, e um deus os leva calados ao porto. Passam dois dias e duas noites deitados, consumidos de cansaço e dor. No terceiro dia, Odisseu pega lança e espada, sobe a um ponto alto para ver sinais de homens e vê a fumaça subindo do palácio de Circe, entre a mata. Pensa se vai investigar, e decide primeiro voltar ao navio, dar comida aos homens e depois mandar exploradores. Perto do navio, um deus se compadece dele, tão só, e lhe põe diante um grande cervo que desce ao rio para beber. Odisseu o atinge nas costas com a lança, o amarra com cordas trançadas de vime e o carrega apoiado na lança, porque o bicho é grande demais para levar num ombro. Joga-o diante do navio e anima os companheiros com palavras brandas: ainda não descerão à casa de Hades antes do dia marcado, então que comam. Eles obedecem, descobrem o rosto e passam o dia banqueteando.
Na manhã seguinte, Odisseu convoca a assembleia. Diz que não sabem onde fica o poente nem o nascente, e que é preciso ver se ainda há algum recurso, embora ele ache que não: do ponto alto viu que estão numa ilha baixa, cercada pelo mar, com fumaça no meio da mata. Os homens desabam ao se lembrar de Antífates e do ciclope comedor de gente, e choram sem proveito. Odisseu divide os companheiros em dois grupos, ele chefia um e Euríloco o outro, e sorteiam num elmo de bronze quem irá. A sorte cai em Euríloco, que parte com vinte e dois companheiros, chorando, e deixa os outros chorando atrás.
Os exploradores encontram a casa de Circe, de pedra polida, num vale abrigado, rodeada de lobos e leões montanheses que ela encantou com drogas. As feras não os atacam, saúdam-nos com as caudas como cães ao dono que volta do banquete, e os homens se assustam. Na porta, ouvem Circe cantar e tecer. Polites, o mais querido e fiel dos companheiros, propõe chamá-la. Circe abre as portas e os convida, e todos a seguem, sem desconfiar, menos Euríloco, que suspeita de armadilha. Ela os senta em cadeiras, mistura queijo, farinha e mel em vinho Pramnio e acrescenta drogas funestas, para que esqueçam a pátria. Depois que bebem, toca-os com a vara e os tranca em chiqueiros: têm de porcos a cabeça, a voz, as cerdas e o corpo, mas a mente continua firme como antes. Circe lhes joga bolotas, para comerem como porcos.
Euríloco volta ao navio incapaz de falar, de tanta dor, com os olhos cheios de lágrimas. Quando todos o interrogam, conta que entraram no vale, encontraram a casa, ouviram a mulher cantar, ela os chamou e todos a seguiram, menos ele, que suspeitou de dolo; os outros sumiram, e ele esperou muito tempo. Odisseu põe a espada e o arco e manda Euríloco guiá-lo. Euríloco lhe abraça os joelhos, chorando, e suplica que não o leve contra a vontade: sabe que Odisseu não voltará nem trará nenhum companheiro, e propõe fugir com os que restam, enquanto ainda é possível escapar do dia mau. Odisseu responde que ele fique junto ao navio, comendo e bebendo; ele irá, porque uma necessidade forte o obriga.
Já no vale sagrado, perto da casa, Hermes o encontra com forma de jovem de buço nascente, toma-lhe a mão e pergunta aonde vai sozinho, sem conhecer o lugar: os companheiros estão em chiqueiros, como porcos, e ele não voltará se for tentar soltá-los. Hermes quer livrá-lo do mal, e lhe entrega uma erva, a mōly, que o protegerá do feitiço. Explica o que Circe fará, mistura de bebida e droga, e o que ele deve fazer: quando ela o tocar com a vara, sacar a espada e avançar como quem quer matá-la; ela, com medo, o convidará ao leito, e ele não deve recusar, para que ela solte os companheiros e o acolha, mas antes deve exigir dela o grande juramento dos deuses de que não tramará outro mal, para que não o torne, desarmado, vil e sem vigor. Hermes arranca a planta da terra e lhe mostra a natureza: raiz negra, flor branca como leite, difícil de arrancar para homens mortais, embora os deuses possam tudo. Depois sobe ao Olimpo.
Odisseu vai à casa de Circe com o coração batendo forte, chama à porta, e ela o recebe. Senta-o num trono de pregos de prata, com um banquinho sob os pés, e prepara-lhe numa taça de ouro a mistura com a droga. Ele bebe e não é enfeitiçado. Circe o toca com a vara e o manda para o chiqueiro, e ele saca a espada e avança. Circe grita, abraça-lhe os joelhos e pergunta quem ele é, espantada porque ninguém jamais resistiu à droga. Conclui que é Odisseu, de quem Hermes sempre lhe dizia que viria de Troia, manda guardar a espada e propõe que subam ao leito para que confiem um no outro. Odisseu pergunta como pode ser brando com quem transformou os companheiros em porcos e agora o quer no leito para torná-lo vil, desarmado. Só subirá se ela jurar o grande juramento de não lhe preparar outro mal. Ela jura, e ele sobe ao leito.
Quatro servas, nascidas de fontes, bosques e rios sagrados, preparam o salão: tapetes sobre os tronos, mesas de prata, vinho misturado na cratera, água aquecida para o banho. Odisseu é banhado, ungido, vestido de manto e túnica e posto à mesa, mas não come: está absorto, com a mente em males. Circe pergunta se ele suspeita de novo dolo, já que jurou. Odisseu responde que nenhum homem justo provaria comida e bebida antes de libertar os companheiros e vê-los com os olhos, e que, se ela quer que ele coma, solte-os. Circe sai com a vara e abre o chiqueiro, de onde saem os homens com forma de porcos de nove anos. Passa em cada um outra droga, as cerdas caem, e eles voltam a ser homens, mais jovens, mais belos e maiores que antes. Reconhecem Odisseu e o seguram pelas mãos, choram de saudade, o palácio ressoa, e a própria deusa se compadece. Ela manda Odisseu ir ao navio, puxá-lo para terra, guardar bens e armas em grutas e voltar com os demais companheiros.
Odisseu volta à praia e encontra os homens do navio chorando. Eles correm em volta dele como novilhas em volta das vacas que voltam do pasto, e sentem como se tivessem chegado à própria Ítaca. Pedem que conte a morte dos outros. Odisseu manda puxar o navio, guardar os bens e acompanhá-lo para ver os amigos em fartura na casa de Circe. Todos obedecem, menos Euríloco, que tenta reter os companheiros: para onde irão, buscando a desgraça? Circe os transformará em porcos, lobos ou leões, para guardarem sua casa à força, como fez o ciclope quando os companheiros entraram na gruta com o audacioso Odisseu, e por insensatez dele aqueles morreram. Odisseu sente o desejo de cortar a cabeça de Euríloco com a espada, mesmo sendo seu parente próximo, mas os companheiros o contêm com palavras brandas e propõem que Euríloco fique de guarda no navio. Euríloco, porém, os segue, com medo da repreensão de Odisseu.
Na casa, Circe banha e veste os outros homens, e eles estão banqueteando. Quando se veem uns aos outros, prorrompem em choro. Circe manda parar: sabe o que sofreram no mar e na terra, e pede que comam e bebam até recobrar o ânimo que tinham ao deixar Ítaca, porque agora estão secos e sem alegria, sempre lembrando a errância. Eles aceitam e ficam um ano inteiro, comendo e bebendo. Quando o ano se completa, os companheiros chamam Odisseu de lado e dizem que é hora de lembrar a pátria, se está destinado que ele se salve. À noite, no leito de Circe, Odisseu lhe abraça os joelhos e pede que cumpra a promessa de enviá-lo para casa, porque os companheiros o desgastam com lamentos quando ela está longe.
Circe responde que não ficarão contra a vontade, mas que antes devem fazer outra viagem, à casa de Hades e da temível Perséfone, para consultar a alma do adivinho cego Tirésias, o tebano, a quem Perséfone deu manter a mente depois de morto, enquanto as outras almas esvoaçam como sombras. Odisseu cai chorando sobre o leito, sem querer viver nem ver o sol. Depois pergunta quem os guiará, porque ninguém chegou ao Hades de nau. Circe diz que não se preocupe: ele só precisa erguer o mastro e abrir a vela, e o sopro de Bóreas os levará. Depois de atravessar o Oceano e chegar ao bosque de Perséfone, deve encalhar o navio e ir à casa de Hades, onde o Piriflegetonte e o Cocito desaguam no Aqueronte, junto a uma rocha. Ali cavará um fosso de um côvado, fará libações de mel misturado, vinho, água e farinha, prometerá às almas sacrificar em Ítaca uma vaca estéril e a Tirésias um carneiro negro, e degolará um carneiro e uma ovelha negra voltados ao Érebo. Quando as almas acorrerem, deve queimar as reses com os companheiros e rezar a Hades e Perséfone, e, de espada na mão, não deixar nenhum morto aproximar-se do sangue antes de falar com Tirésias, que lhe dirá o caminho e o retorno.
Na aurora, Circe veste Odisseu, e ele percorre a casa despertando os companheiros. Mas nem dali sai sem perdas. Elpenor, o mais jovem, não muito forte na guerra nem de juízo firme, fora dormir no telhado, buscando o fresco, pesado de vinho. Ouvindo o barulho dos companheiros, levanta-se de súbito, esquece de descer pela escada comprida e cai do telhado, quebrando o pescoço, e sua alma desce ao Hades. Odisseu diz aos reunidos que eles pensam que vão para casa, mas Circe lhes marcou outro caminho, até a casa de Hades e de Perséfone, para consultar Tirésias. Eles desabam chorando, arrancando os cabelos, sem proveito nenhum. Quando vão ao navio, chorando, Circe já passou por eles e amarrou ao navio um carneiro e uma ovelha negra. Ninguém vê um deus que não quer ser visto.
Análise
O canto vai de um retorno quase feito, a fumaça de Ítaca vista no décimo dia, a uma viagem que passa pela morte. No meio, Odisseu perde a frota inteira menos um navio e recupera os homens que Circe transformou. Em cada episódio, o perigo vem de um lugar que se apresenta como acolhedor: a ilha de banquete contínuo, o porto onde as ondas nunca crescem, a casa que canta ao tear. A ruína de Éolo nasce do que os companheiros não sabiam e do sono do chefe, a dos lestrigões, de um porto que parecia seguro, a de Circe, de uma hospitalidade que esconde droga. Circe é a primeira adversária que Odisseu vence com ajuda de um deus, e o texto mostra que a astúcia sozinha não bastaria: sem a erva de Hermes, ele seria mais um dos porcos.
Euríloco é a voz que o poema deixa sem resposta. Duas vezes lê o perigo certo, quando não entra na casa de Circe e quando prevê que o chefe não voltará de lá, e uma vez culpa Odisseu pela morte dos companheiros do ciclope. Odisseu narra a acusação dentro da própria história e não a refuta. O canto não resolve de quem foi a insensatez: do chefe que dorme, dos homens que abrem o odre, ou dos que entram na casa sem desconfiar.
Assinatura
A análise completa de cada canto de Odisseia está na assinatura, com a explicação de cada citação, o quiz, o guia em PDF e o caderno de estudos.