Resumo do capítulo
Odisseu deixa o porto e sobe por um caminho áspero, entre matas e colinas, até a casa do porqueiro Eumeu, a quem Atena o mandara por ser, entre os servos, o que mais zela pelos bens do senhor. Encontra-o sentado na entrada de um pátio grande e circular que o próprio Eumeu construiu para os porcos depois da partida do rei, sem que a senhora nem o velho Laertes soubessem: muro de pedra coberto de espinhos, estacas de carvalho por fora e doze pocilgas por dentro, com cinquenta porcas em cada uma. Os cachaços dormem do lado de fora e são bem menos numerosos, porque os pretendentes os vão diminuindo à mesa: Eumeu é obrigado a mandar-lhes todo dia o melhor porco. Quatro cães ferozes guardam o lugar. Eumeu corta sandálias de couro de boi; três pastores estão no pasto com os porcos, e o quarto foi à cidade levar um porco aos pretendentes.
Os cães avistam Odisseu e correm contra ele, que por astúcia se senta e larga o cajado. Eumeu sai correndo, enxota os cães a pedradas e repreende o desconhecido: por pouco ele não foi despedaçado, o que teria coberto Eumeu de vergonha. Diz que já tem dores bastantes, pois chora o senhor e cria porcos gordos para outros comerem, enquanto o senhor talvez erre faminto entre povos de língua estranha, se ainda vive. Convida o velho a entrar, comer e contar de onde vem e o que sofreu, e o acomoda sobre ramos e uma grande pele de cabra montesa, a própria cama dele. Odisseu agradece e pede a Zeus que dê a Eumeu o que ele mais deseja. Eumeu responde que não lhe é lícito desonrar um estrangeiro, porque todos vêm de Zeus, e que o que dá é pouco: a sorte dos servos é viver com medo sob senhores jovens, e os deuses impediram o retorno do homem que lhe teria dado casa, terra e mulher, como se dá a um servo que trabalha bem. Amaldiçoa a linhagem de Helena, que fez perecer tantos homens, entre eles o próprio senhor, que foi a Troia por causa da honra de Agamêmnon.
Eumeu mata e assa dois leitões, serve-os quentes nos espetos com farinha branca, mistura vinho numa taça de hera e se senta diante do hóspede. Diz que os leitões são o que cabe aos servos e que os porcos cevados quem come são os pretendentes, que não têm temor dos deuses nem compaixão. Os deuses, diz ele, não amam as ações cruéis, mas honram a justiça, e até os piratas temem o castigo. Os pretendentes parecem saber algo, por voz de algum deus, sobre a morte do senhor, e por isso se recusam a cortejar com decência ou a voltar para casa: devoram os bens sem poupar nada, e sacrificam mais de uma rês por dia. Eumeu descreve a riqueza de Odisseu, que nenhum outro herói igualava: doze manadas no continente e onze rebanhos de cabras na ilha, e ele mesmo guarda os porcos e manda todo dia o melhor aos pretendentes. Odisseu come e bebe em silêncio, a planejar o mal aos pretendentes.
Depois de comer, Odisseu pergunta quem comprou Eumeu, o homem de tantos bens, dizendo que talvez o tenha visto em suas viagens e possa dar notícias. Eumeu responde que nenhum andarilho trouxe notícias que convencessem a mulher e o filho dele: os errantes, carentes de cuidado, mentem, e quem chega a Ítaca vai à rainha com histórias falsas, e ela, acolhendo-o, chora como é de uso. Diz ainda que o velho também inventaria depressa uma história se lhe dessem um manto e uma túnica, e que o senhor deve estar morto, comido por cães e aves ou pelos peixes, com os ossos na areia. Sofre mais por ele do que pelos próprios pais. Confessa que tem pudor de nomear o senhor, mesmo ausente, porque ele o amava e cuidava dele, e o chama de "caro irmão".
Odisseu responde que não só diz, mas jura, que o senhor voltará: pede como alvíssaras roupas, um manto e uma túnica, mas só depois do retorno, porque odeia, tanto quanto as portas do Hades, quem cede à pobreza e diz falsidades. Jura por Zeus, pela mesa hospitaleira e pelo lar de Odisseu que ele chegará neste mesmo ano, entre o fim de um mês e o começo do outro, e se vingará de quem desonra aqui a esposa e o filho. Eumeu recusa: não pagará alvíssaras, porque Odisseu não voltará, e pede que mudem de assunto, pois lembrar o senhor lhe dói. Fala de Telêmaco, criado pelos deuses como uma muda e que parecia destinado a igualar o pai, e que agora foi a Pilos em busca de notícias, enquanto os pretendentes o espreitam na volta para que a linhagem de Arcísio desapareça sem nome de Ítaca. Deixa o rapaz ao destino e a Zeus, e pede ao hóspede que diga a verdade sobre quem é e como chegou, pois não crê que tenha vindo a pé.
Odisseu responde com uma história inventada. Diz que é cretense, filho de um homem rico e de uma concubina comprada, mas honrado por Castor como os filhos legítimos; depois da morte de Castor, os filhos legítimos repartiram os bens e deram a ele pouco e uma casa, e ele se casou com a filha de uma família rica por seu valor, que era o da guerra e dos navios, não o do campo nem o da casa. Foi a Troia com Idomeneu, porque não podia recusar sem ganhar má fama; voltou e, passado um mês, partiu com nove navios para o Egito. Os companheiros, soltos pela insolência, saquearam os campos egípcios e levaram mulheres e crianças; os egípcios acorreram ao amanhecer, e Zeus pôs medo nos companheiros: muitos morreram, outros foram escravizados. Ele largou elmo, escudo e lança, abraçou os joelhos do rei, que o salvou e o levou para casa, e deteve os que queriam matá-lo por temor de Zeus hospitaleiro. Ficou sete anos no Egito, enriquecendo; no oitavo veio um fenício enganador, que o levou à Fenícia e, um ano depois, a um navio para a Líbia, com a intenção de vendê-lo. No mar, Zeus lançou um raio que destruiu o navio; ele se agarrou ao mastro por nove dias, e a onda o lançou à terra dos tesprotos, onde o rei Fidão o acolheu sem pedir resgate e o filho do rei o vestiu. Ali ouviu falar de Odisseu: Fidão lhe mostrou os tesouros que Odisseu juntara e disse que ele fora a Dodona consultar o carvalho de Zeus sobre como voltar a Ítaca, às claras ou em segredo, e jurou que o navio estava pronto para levá-lo. Mas Fidão mandou o hóspede antes, num navio de tesprotos, para Dulíquio, ao rei Acasto, e a tripulação planejou fazê-lo escravo: despiram-no e lhe deram os trapos que Eumeu vê, e ao chegar a Ítaca, à tarde, o amarraram no navio. Os deuses afrouxaram as cordas; ele se envolveu nos trapos, deslizou pelo leme e nadou, escondeu-se na mata, e os deuses o conduziram à casa de um homem sensato.
Eumeu se comove, mas diz que o hóspede não foi sincero numa coisa: o que diz de Odisseu. Não aceita ser enganado: Odisseu foi odiado pelos deuses, pois não morreu entre os troianos nem nos braços dos amigos, que lhe fariam túmulo e deixariam fama ao filho; as harpias o levaram sem glória. Ele mesmo vive afastado, com os porcos, e só vai à cidade quando Penélope o chama por causa de alguma notícia; foi enganado por um etólio, que lhe disse ter visto Odisseu em Creta consertando os navios e que ele voltaria no verão com tesouros. Pede ao hóspede que não tente agradá-lo com mentiras: acolhe-o por temor de Zeus hospitaleiro e por compaixão. Odisseu retruca que o espírito dele é muito descrente e propõe um pacto com os deuses por testemunhas: se o senhor voltar, receberá roupas e será enviado a Dulíquio; se não, os servos o jogarão de uma rocha, para que nenhum outro mendigo se atreva a enganá-lo. Eumeu recusa: que fama teria, entre os homens de agora e os vindouros, se acolhesse o hóspede e depois o matasse? Interrompe a conversa porque é hora da ceia.
Voltam os outros porqueiros com os porcos, que são recolhidos entre grunhidos. Eumeu manda trazer o melhor porco para o hóspede e diz que os servos também comerão, já que penam pelos porcos e outros devoram o fruto do trabalho. Racha lenha e o porco de cinco anos é morto; Eumeu, que não esquece os imortais, lança ao fogo as primícias e reza para que Odisseu volte à casa. Divide a carne em sete partes, uma para as ninfas e Hermes, as outras para os presentes, e dá a Odisseu o lombo inteiro, o que alegra o senhor. Odisseu deseja a Eumeu a amizade de Zeus pai; Eumeu responde que Zeus dá uma coisa e nega outra, como quer. Mesáulio, servo que Eumeu comprou aos tafios com os próprios haveres, distribui o pão.
A noite vem escura, com chuva e vento de Zéfiro. Odisseu quer ver se Eumeu lhe dará um manto ou mandará outro dos companheiros, e começa dizendo que o vinho o obriga a contar. Conta uma emboscada diante de Troia, em que comandava com Odisseu e Menelau: a noite era de neve e gelo, todos tinham mantos, e ele, por imprudência, deixara o seu. No último terço da noite cutucou Odisseu, que estava ao lado, e disse que ia morrer de frio. Odisseu, de espírito pronto, mandou-o calar, inventou diante dos outros um sonho divino e pediu que alguém fosse dizer a Agamêmnon que estavam longe das naves e precisavam de mais gente. Toante saiu correndo, deixou o manto púrpura, e o narrador dormiu embrulhado nele até a Aurora. Termina dizendo que, se fosse jovem como então, algum porqueiro lhe daria um manto, por amizade e respeito a um homem; agora o desprezam pelas roupas ruins. Eumeu elogia a história, que não teve palavra fora de medida, promete-lhe agasalho, mas diz que amanhã ele voltará aos trapos, porque ali ninguém tem mantos de troca; quando o filho de Odisseu chegar, dará roupas e o enviará aonde quiser. Prepara-lhe um leito junto ao fogo, com peles de ovelha e cabra, e o cobre com um manto grosso e grande que guardava para o inverno.
Os rapazes se deitam ao lado de Odisseu, mas Eumeu não aceita dormir longe dos porcos: arma-se com espada, manto, pele de cabra e dardo contra cães e homens e vai deitar-se ao relento, junto aos porcos, sob uma rocha abrigada do vento do norte. Odisseu se alegra ao ver o zelo com que ele cuida dos bens do senhor ausente.
Análise
O canto joga com dois tipos de verdade. O mendigo mente em tudo o que conta de si, mas a única promessa que faz sobre Odisseu, voltar neste mesmo ano e se vingar, é a verdade do próprio Odisseu, e é justamente a que Eumeu recusa. Ele recusa por experiência: já foi enganado por um etólio, viu andarilhos mentirem à rainha por roupas, e o hóspede, que acabara de dizer que odeia os que mentem por pobreza, vai pedir um manto com uma história inventada. O canto mostra que uma desconfiança bem fundada pode rejeitar uma verdade.
O segundo fio é a hospitalidade, que Eumeu pratica sem depender de crer no hóspede: acolhe por temor de Zeus e por compaixão, divide o que tem, dá-lhe o lombo e o manto de reserva, e reza pelo retorno do senhor diante do próprio senhor. A casa que os pretendentes devoram continua de pé nas mãos de um servo que construiu o curral por conta própria e comprou Mesáulio com os próprios haveres, e o poema o põe em contraste com os que comem sem pagar. Odisseu, que ouve tudo calado e planejando o mal aos pretendentes, vê aqui o que a casa ainda tem de seu.
Assinatura
A análise completa de cada canto de Odisseia está na assinatura, com a explicação de cada citação, o quiz, o guia em PDF e o caderno de estudos.