Resumo do capítulo
Odisseu responde a Alcínoo, que lhe pediu o nome e a história. Começa elogiando o banquete em que estão: para ele, nada é mais belo do que o povo inteiro em festa, os convivas ouvindo o aedo, as mesas cheias e o vinho correndo nas taças. Diz que o rei quer saber de suas dores, o que o fará sofrer ainda mais, e que são tantas que não sabe por onde começar. Começa pelo nome, para que os feácios o conheçam e para que ele seja hóspede deles mesmo morando longe, depois de escapar do dia cruel: é Odisseu, filho de Laertes, conhecido de todos pelos ardis, com a fama chegando ao céu. Descreve Ítaca, com o monte Nérito e as ilhas vizinhas, áspera mas boa criadora de rapazes, e diz que nada vê de mais doce do que a própria terra. Lembra que Calipso e Circe quiseram retê-lo como marido sem convencer-lhe o ânimo, porque nada é mais doce do que a pátria e os pais, mesmo para quem vive em casa rica em terra estrangeira.
Passa ao regresso, que, diz ele, Zeus lhe deu ao deixar Troia: o vento o levou aos cícones, em Ísmaro, onde saqueou a cidade, matou os homens e repartiu mulheres e bens com os companheiros, para que ninguém ficasse sem parte igual. Mandou fugir logo, mas os companheiros, tolos, não obedeceram: beberam muito vinho e abateram rebanhos na praia. Enquanto isso, os cícones chamaram outros cícones do interior, mais numerosos e hábeis em lutar de carro e a pé, e voltaram de manhã cedo, tão numerosos quanto as folhas e as flores da primavera. Lutaram junto às naus, e os aqueus resistiram enquanto o dia crescia, mas ao entardecer cederam, e seis companheiros bem armados de cada nau morreram. Os demais fugiram, aliviados por escapar e entristecidos pelos mortos, e as naus só partiram depois que ele chamou três vezes o nome de cada companheiro morto.
Zeus lança então o vento Bóreas e uma tempestade que rasga as velas das naus, e os homens remam para a terra, onde ficam dois dias e duas noites, consumidos pela fadiga e pela dor. No terceiro dia, Odisseu diz que teria chegado são à pátria, mas a corrente e Bóreas o desviam ao dobrar o cabo Maleia, para além de Citera. Nove dias de ventos funestos o levam, e no décimo chegam à terra dos lotófagos, que comem uma flor. Fazem aguada e comem, e Odisseu manda dois homens e um arauto saber que gente vive ali. Os lotófagos não lhes fazem mal, mas lhes dão lótus a comer, e quem prova o fruto doce já não quer voltar com notícias nem regressar, e só quer ficar entre eles comendo lótus e esquecer o retorno. Odisseu arrasta-os chorando de volta às naus e os prende sob os bancos, e manda os demais embarcarem depressa, para que ninguém, ao comer lótus, se esqueça do retorno.
Dali chegam à terra dos ciclopes, povo soberbo e sem normas, que, confiando nos deuses, não planta nem ara, porque tudo nasce sem semeadura e a chuva de Zeus faz crescer. Não têm assembleias que deliberem nem leis: moram nos cumes, em grutas, e cada um dita a lei a filhos e mulheres sem se importar com os outros. Diante do porto fica uma ilha de cabras selvagens, onde não vão caçadores, sem lavoura nem rebanho, porque os ciclopes não têm navios nem carpinteiros que os façam e a visitem; seria boa terra, com prados, vinhas, campo fértil, um porto sem necessidade de amarras e uma fonte. Chegam de noite, guiados por algum deus, no meio de névoa, sem lua, sem ver a ilha. De manhã, admirados, percorrem a ilha, e as ninfas põem em movimento as cabras da montanha; caçam, doze naus com nove cabras cada uma e dez para Odisseu, e passam o dia banqueteando com o vinho que haviam tomado dos cícones. Do outro lado, veem a fumaça e ouvem as vozes dos ciclopes e os balidos dos rebanhos.
No dia seguinte, Odisseu reúne os companheiros e manda que fiquem na ilha, enquanto ele, com a própria nau e a sua tripulação, vai à terra vizinha ver quem são aqueles homens, se insolentes, selvagens e injustos, ou hospitaleiros e tementes aos deuses. Perto do mar encontram uma gruta alta, sombreada de loureiros, com um grande pátio de pedras, e veem que ali vive um homem enorme, que pastoreia sozinho, longe dos outros, e só conhece ações sem lei, e que mais parece o pico de uma alta montanha do que um comedor de pão. Odisseu manda os demais guardarem a nau e vai com doze companheiros escolhidos, levando um odre de vinho escuro e doce, presente de Maron, sacerdote de Apolo em Ísmaro, a quem ele e os seus tinham poupado, com mulher e filho, por respeito ao deus. Leva também provisões, porque seu ânimo valente lhe disse que iria ao encontro de um homem de força imensa, selvagem, que não conhece bem o direito nem as normas.
Não encontram o dono, que apascenta o rebanho; veem queijos, currais de cordeiros separados por idade e vasilhas de leite. Os companheiros pedem que levem os queijos e partam depressa com cordeiros e cabritos para a nau, mas Odisseu não obedece, porque queria ver o dono e saber se lhe daria presentes de hóspede, o que, diz ele, não seria bom para os companheiros. Acendem o fogo, fazem oferenda e comem queijo, e esperam. O ciclope chega com um grande feixe de lenha seca, que atira dentro da gruta com estrondo, e eles correm assustados para o fundo. Leva o rebanho para dentro, deixando os machos fora, e fecha a entrada com uma pedra enorme, que nem vinte e duas carroças moveriam; ordenha ovelhas e cabras e, ao acender o fogo, vê os estrangeiros e pergunta quem são e de onde vêm, e se vagam como piratas. A voz e a figura dele partem o coração dos homens, mas Odisseu responde: são aqueus vindos de Troia, desviados pelos ventos, súditos de Agamêmnon, e pedem, de joelhos, um presente de hóspede, invocando Zeus Xênio, vingador dos suplicantes e dos hóspedes. O ciclope diz que ele é tolo se o manda temer os deuses, porque os ciclopes não se importam com Zeus nem com os deuses, já que são mais fortes, e que só os poupa se o ânimo lhe mandar; e pergunta onde deixou a nau. Odisseu percebe que ele o testa e responde com ardil: Poseidon quebrou o navio contra as rochas na ponta da terra deles, e só ele e os companheiros escaparam.
O ciclope não responde. Agarra dois companheiros, bate-os contra o chão como cachorrinhos e os devora, sem deixar nada. Odisseu e os outros erguem as mãos a Zeus, chorando, sem saber o que fazer. Quando o ciclope termina, dorme esticado entre as ovelhas. Odisseu pensa em sacar a espada e feri-lo no peito, mas outro pensamento o detém: também eles morreriam ali, porque não poderiam remover a pedra da porta. De manhã, o ciclope acende o fogo, ordenha, devora outros dois e sai com o rebanho, repondo a pedra como quem fecha uma aljava. Odisseu fica maquinando como vingar-se, esperando que Atena lhe dê glória. Junto ao curral está uma clava de oliveira verde que o ciclope cortou para secar, grande como o mastro de uma nau de carga. Odisseu corta uma braça, os companheiros a alisam, ele a afia na ponta e a endurece no fogo e a esconde no esterco. Sorteiam quem o ajudará a enfiá-la no olho do ciclope quando o sono vier: saem os quatro que ele mesmo escolheria, e ele é o quinto.
À tarde, o ciclope volta e, desta vez, leva todo o rebanho para dentro, por suspeita ou por ordem de algum deus, fecha a porta e devora outros dois. Odisseu se aproxima com uma tigela de vinho escuro e diz que lhe trouxe uma libação para que ele se compadeça e o mande para casa, mas que a fúria dele é intolerável: quem, de tantos homens, o visitaria depois, se ele age contra os costumes? O ciclope bebe, adora o vinho, pede mais e pede o nome de Odisseu, para lhe dar um presente de hóspede: diz que a terra dos ciclopes também dá vinho, mas este é um pedaço de ambrosia e néctar. Odisseu lhe dá três vezes, e, quando o vinho lhe chega ao juízo, diz que ele pediu o nome famoso e que o dirá, desde que ele dê o presente prometido: seu nome é Ninguém, nome que lhe dão a mãe, o pai e os companheiros. O ciclope responde que comerá Ninguém por último, depois dos companheiros, e que esse será o presente de hóspede. Cai de costas e dorme, vomitando vinho e pedaços de carne humana.
Odisseu enfia a estaca nas cinzas até esquentar e anima os companheiros, para que ninguém recue de medo. Quando a estaca verde está para pegar fogo, ele a tira do fogo e os companheiros se postam em volta, e um deus lhes sopra coragem. Enfiam a ponta no olho do ciclope e Odisseu, apoiado por cima, gira a estaca como se fura o madeiro de uma nau com trado, enquanto outros puxam a correia por baixo. O olho chia como um machado que o ferreiro mergulha em água fria para temperar. O ciclope grita, eles recuam, e ele arranca a estaca e chama os outros ciclopes. Estes acodem de todos os lados e perguntam a Polifemo por que grita na noite e os desperta: se alguém lhe rouba o rebanho, se alguém o mata por dolo ou por força. Polifemo responde de dentro da gruta que Ninguém o mata por dolo, e não por violência. Os ciclopes respondem que, se ninguém o força, estando sozinho, a doença vem de Zeus e não se evita, e que reze a Poseidon, seu pai, e vão embora. Odisseu ri por dentro, porque o nome e a astúcia irrepreensível os enganaram.
Polifemo, gemendo de dor, tateia até a pedra, a tira da porta e senta-se diante dela, de braços abertos, para pegar quem tentar sair com as ovelhas; julga que Odisseu seria tão tolo. Odisseu, em perigo de morte, pensa no melhor modo de salvar a si e aos companheiros, e decide: amarra em silêncio os carneiros mais gordos e de lã espessa, de três em três, com os vimes em que o ciclope dormia; o carneiro do meio leva um homem, e os dois dos lados o protegem. Ele mesmo, para o melhor carneiro do rebanho, agarra-se à lã da barriga e fica ali, com paciência. De manhã, os machos saem para o pasto e as fêmeas, sem ordenha, balem; o dono, em dor, apalpa o dorso dos animais em pé e não percebe os homens atados sob o peito deles. O carneiro de Odisseu sai por último, pesado da lã e do homem que carrega. Polifemo lhe fala: pergunta por que sai por último, quando costuma ser o primeiro; supõe que ele sinta falta do olho do dono, que um homem mau cegou com companheiros miseráveis, domando-lhe o juízo com vinho, esse Ninguém, que ele não crê ter escapado; e diz que, se o carneiro pudesse falar e dizer onde Ninguém se esconde, lhe espatifaria o cérebro contra o chão e aliviaria o coração dos males. Manda-o sair. Longe da gruta, Odisseu se solta e solta os companheiros, e tocam as ovelhas até a nau. Os companheiros se alegram ao vê-los, mas choram os mortos; Odisseu os proíbe com sinais das sobrancelhas e manda embarcar o rebanho.
Quando estão à distância de um grito, Odisseu provoca o ciclope: diz que ele não devia ter devorado os companheiros de um homem que não era fraco, e que seus atos o alcançaram, porque não temeu comer hóspedes em casa, e por isso Zeus e os outros deuses o castigaram. Polifemo, ainda mais irado, arranca o cume de uma montanha e o atira; a pedra cai diante da proa, e a onda empurra a nau de volta à terra. Odisseu a afasta com uma vara e manda os companheiros remarem. Quando já estão duas vezes mais longe, quer falar de novo, e os companheiros o contêm, dizendo que o ciclope quase os matou com a pedra e que, se ouvir a voz, a próxima lhes quebrará as cabeças e a nau. Mas não convencem seu ânimo, e ele grita, com rancor: se algum mortal perguntar a Polifemo sobre o olho cego, que diga que foi Odisseu, saqueador de cidades, filho de Laertes, que tem casa em Ítaca. Polifemo geme e diz que a antiga profecia o alcançou: o adivinho Télemo, filho de Êurimo, lhe disse que perderia a vista pelas mãos de Odisseu, mas ele esperava um homem grande e belo, de grande força, e quem o cegou foi um pequeno, insignificante e fraco, depois de dominá-lo com vinho. Chama Odisseu de volta para lhe dar presentes de hóspede e pedir a Poseidon, seu pai, que lhe dê escolta, e diz que só o pai pode curá-lo. Odisseu responde que queria poder tirar-lhe a alma e a vida e mandá-lo à casa de Hades, tão certo quanto nem o abalador da terra lhe curará o olho.
Polifemo ergue as mãos ao céu e reza a Poseidon: se é mesmo seu filho, que Odisseu não chegue a casa; mas, se está no destino que ele reveja os seus e volte à sua terra, que chegue tarde e mal, tendo perdido todos os companheiros, em nau alheia, e encontre desgraças em casa. Poseidon o ouve. Polifemo atira outra pedra, ainda maior, que cai atrás da popa, e a onda empurra a nau para a ilha. Lá encontram as outras naus e os companheiros, que esperavam em choro. Repartem as ovelhas, e os companheiros dão a Odisseu o carneiro além da sua parte; ele o sacrifica a Zeus, queimando as coxas, mas Zeus não aceita o rito e pensa em como perderiam todas as naus e os companheiros. Banqueteiam até o pôr do sol, dormem na praia e, ao amanhecer, Odisseu manda embarcar, e partem, aliviados por escapar da morte e tristes pelos companheiros perdidos.
Análise
Este é o canto em que Odisseu conta contra si mesmo. Diz que saqueou Ísmaro e que os companheiros não lhe obedeceram quando mandou fugir; diz que ficou na gruta por querer ver o dono e receber presentes, e que obedecer "teria sido muito mais vantajoso"; diz que gritou o próprio nome ao ciclope, apesar do pedido dos companheiros. O herói que narra é também o que se acusa, e o poema faz os feácios ouvirem isso. Cada uma dessas decisões custa companheiros: seis na gruta, e a maldição de Polifemo pede a perda de todos.
O canto é uma prova de hospitalidade ao contrário. No canto anterior, Alcínoo deu escolta, banquete e presentes a um hóspede que nem tinha nome; aqui o ciclope devora os hóspedes e responde ao pedido de presente com um "presente" macabro. O nome é a outra chave: o homem que começou dizendo "sou Odisseu" vira "Ninguém" para sobreviver, e volta a ser Odisseu para ser lembrado, e é o segundo gesto que dá a Polifemo alguém a quem amaldiçoar. Zeus, invocado como vingador dos hóspedes, não aceita o sacrifício dele no fim; o texto não explica por quê.
Assinatura
A análise completa de cada canto de Odisseia está na assinatura, com a explicação de cada citação, o quiz, o guia em PDF e o caderno de estudos.