Resumo do capítulo
Odisseu fica sozinho na sala, pensando com Atena na morte dos pretendentes, e manda Telêmaco levar as armas para dentro. Se os pretendentes perguntarem, ele dirá que as pôs longe do fogo porque a fumaça as sujava e já não pareciam as que Odisseu deixou ao partir para Troia, e que um deus lhe pôs na mente um motivo maior: o vinho pode levar à briga e à ferida e estragar o banquete e a corte, porque o próprio ferro atrai o homem. Telêmaco obedece e pede à ama Euricleia que mantenha as mulheres nos aposentos enquanto ele guarda as armas do pai, que o fumo escurece. Ela lhe diz que gostaria que um dia ele tomasse juízo para cuidar da casa e dos bens, e pergunta quem lhe levará a luz, já que ele não deixa as servas saírem. Ele responde que o estrangeiro o ajudará, pois não suportará ocioso quem toque o pão dele, venha de onde vier. Ela cala e tranca as portas. Pai e filho carregam elmos, escudos e lanças, com Atena à frente, segurando uma lamparina de ouro, e a luz enche a sala. Telêmaco vê paredes, vigas e colunas brilharem como fogo e diz que há um deus dentro; Odisseu manda calar e não perguntar: é o costume dos deuses. Manda o filho dormir, porque ele ficará para provocar as servas e a mãe, que lhe fará perguntas chorando.
Penélope desce do quarto, semelhante a Ártemis ou a Afrodite, e senta na cadeira de marfim e prata feita por Icmálio, com escabelo. As servas retiram os restos do banquete e despejam o fogo dos braseiros para pôr lenha nova. Melanto repreende Odisseu pela segunda vez: manda-o sair, ou será atingido por um tição. Ele responde que é a necessidade que o obriga a mendigar, que já foi rico e deu esmola a vagabundos, até que Zeus o arruinou, e avisa que ela pode perder o brilho de que se orgulha, que a senhora pode irritar-se, que Odisseu pode voltar e que, se morreu, restou Telêmaco, a quem o mau proceder das servas não escapa. Penélope ouve e repreende a serva: ela sabia que a rainha queria interrogar o estrangeiro sobre o marido. Manda Eurínome trazer uma cadeira com velo, e Odisseu se senta.
Penélope pergunta quem ele é, de onde, de que pais. Odisseu a elogia: nenhum mortal pode censurá-la, porque a fama dela chega ao céu como a de um rei sem defeito, sob o qual a terra e o mar dão fruto e o povo prospera. Pede que ela lhe pergunte o resto, mas não a origem, para que não lhe renove as dores, pois não convém chorar em casa alheia nem ser tomado por bêbado. Penélope responde que os deuses destruíram a virtude e a beleza dela quando Odisseu partiu; os nobres das ilhas a cortejam e consomem a casa, e por isso ela não cuida de hóspedes, suplicantes e arautos: consome-se por Odisseu, enquanto os pretendentes apressam o casamento e ela tece enganos. Conta o ardil da mortalha para Laertes: disse que esperassem até que a terminasse, e teceu de dia e desfez à noite com tochas durante três anos; no quarto, as servas, cadelas sem pudor, a surpreenderam, e ela foi forçada a concluir. Agora não escapa ao casamento nem tem outro plano; os pais a pressionam; o filho se irrita com o consumo dos bens, já homem capaz de cuidar da casa. Pede de novo a origem do estrangeiro: ele não vem de carvalho nem de pedra.
Odisseu cede e conta uma história: diz que é de Creta, de Cnosso, neto de Minos, e se chama Étone, irmão mais novo de Idomeneu; hospedou Odisseu quando o vento o jogou ali, a caminho de Troia, e a frota ficou doze dias presa pelo Bóreas. O narrador diz que ele dizia muitas mentiras semelhantes a verdades, e Penélope se desfaz em lágrimas, como a neve nos montes quando o vento a derrete. Odisseu tem pena da esposa que chora o marido a seu lado, mas mantém os olhos fixos sob as pálpebras, como chifre ou ferro, e esconde as lágrimas com astúcia.
Penélope o põe à prova: que roupa Odisseu vestia e quem o acompanhava? Ele responde que é difícil, passados vinte anos, mas descreve o que figura no ânimo: um manto púrpura de lã dupla, preso por um broche de ouro em que um cão segura nas patas uma corça que se debate, e todos se maravilhavam de como, sendo de ouro, o cão a sufocava; uma túnica fina e brilhante como a casca de uma cebola seca. Não sabe se Odisseu já saiu de casa com elas ou se as recebeu a bordo, e diz que ele mesmo lhe deu uma espada de bronze, um manto púrpura e uma túnica franjada. Descreve também o arauto Euríbates, curvo de ombros, de pele escura e cabelo crespo, a quem Odisseu estimava mais que aos outros. Penélope chora ainda mais, ao reconhecer os sinais, e diz que o hóspede, antes digno de pena, será agora querido e honrado em sua casa: foi ela quem dobrou aquelas roupas e prendeu o broche, e não as receberá de volta, porque Odisseu partiu em má hora para uma Troia que ela nem quer nomear. Odisseu pede que ela cesse o pranto e jura que ouviu falar de Odisseu entre os tesprotos, vivo, trazendo riquezas, depois de perder os companheiros, que mataram os bois do Sol, e de ser acolhido pelos feácios; o rei Fidão lhe mostrou os bens e disse que Odisseu fora a Dodona consultar o carvalho de Zeus sobre como voltar à pátria, às claras ou em segredo. Jura por Zeus e pelo lar de Odisseu que ele chegará neste mesmo ano, entre o fim de um mês e o começo do seguinte. Penélope responde que tomara, mas que o ânimo lhe diz o contrário: Odisseu não voltará e o hóspede não terá escolta, pois não há na casa senhores como Odisseu foi, se algum dia existiu. Manda as servas lavá-lo e prepararem-lhe um leito, e que no dia seguinte o banhem e ele ceie ao lado de Telêmaco; a vida dos homens é curta, e quem é duro é amaldiçoado enquanto vive e escarnecido depois de morto, enquanto quem é irrepreensível tem fama larga.
Odisseu recusa mantos e colchas, que lhe são odiosos desde que deixou Creta, e diz que passa as noites em claro; também não deixará que mulher alguma da casa lhe toque os pés, a menos que seja uma velha que tenha sofrido tanto quanto ele. Penélope o louva por sua prudência e chama Euricleia, ama de Odisseu, para lavá-lo, dizendo que talvez Odisseu tenha agora os mesmos pés e mãos, pois na desgraça os mortais envelhecem depressa. Euricleia cobre o rosto e chora: Zeus odiou Odisseu mais que a todos, ele que mais lhe queimou coxas e hecatombes; talvez as mulheres de algum palácio distante o ultrajem como as servas ultrajam o estrangeiro. Lava-o por ordem de Penélope e porque o estrangeiro a comoveu, e acrescenta que nunca viu hóspede tão parecido com Odisseu em corpo, voz e pés. Odisseu responde que todos os que os viram juntos diziam isso.
A ama toma a bacia e mistura água fria e quente. Odisseu se senta junto à lareira e logo se volta para a sombra, porque teme que ela, ao tocá-lo, reconheça a cicatriz e tudo se descubra. Ela a reconhece, a que um javali lhe fez no Parnaso, quando ele foi visitar Autólico, pai de sua mãe, mestre em furto e juramento por dom de Hermes. O poema conta a origem da marca: quando o neto nasceu, em Ítaca, Euricleia o pôs no colo de Autólico e pediu que ele achasse o nome; Autólico respondeu que, por ter chegado ali em desavença com muitos, o menino se chamaria Odisseu, e que, quando crescesse e visitasse o Parnaso, receberia presentes. Odisseu foi, recebido com alegria por Autólico, pelos filhos e pela avó Anfiteia; no dia seguinte caçou com os tios no monte, e um javali o feriu acima do joelho, e ele o matou com um golpe de lança. Os filhos de Autólico o trataram, estancaram o sangue com encantamentos e o mandaram de volta com presentes; os pais ouviram como a cicatriz se deu. De volta à cena: ao apalpar a marca, Euricleia a reconhece e solta o pé, que bate na bacia; a água se derrama. Dor e alegria a tomam ao mesmo tempo, os olhos se enchem de lágrimas, a voz some. Toca o queixo de Odisseu e diz que ele é Odisseu, que só ao tocar o senhor pôde saber. Olha para Penélope, querendo avisar que o marido está ali, mas Atena desvia o ânimo de Penélope, que não percebe. Odisseu agarra a ama pela garganta com a mão direita, puxa-a para perto e diz: mãe, queres me destruir? Tu me criaste; voltei no vigésimo ano; já que um deus te fez saber, cala-te, e que ninguém mais no palácio saiba; se por mim um deus dominar os pretendentes, não te pouparei quando eu matar as outras servas. Euricleia responde que sua vontade é firme, como pedra ou ferro, e se oferece para dizer quais servas o desonram e quais são inocentes; ele recusa, porque ele mesmo as examinará, e pede silêncio e confiança nos deuses. Ela busca mais água, porque a primeira se derramou. Depois do banho e da unção, Odisseu puxa o assento para perto do fogo e cobre a cicatriz com os trapos.
Penélope diz que fará poucas perguntas antes do descanso: de dia chora, olhando o trabalho das servas, e à noite, quando todos dormem, fica no leito assaltada por preocupações. Compara-se ao rouxinol, filha de Pandareu, que canta na primavera e chora o filho Ítilo, que matou por insensatez. O seu ânimo se divide entre ficar com o filho, guardar os bens, respeitar o leito do marido e a fama diante do povo, ou seguir o melhor dos aqueus que a cortejam e traga os melhores presentes. Enquanto o filho era criança, ele não a deixava casar; agora que está grande, pede que ela deixe a casa, irritado com o consumo dos bens. Conta o sonho: vinte gansos comem trigo no palácio e ela os vê com prazer; uma grande águia desce do monte, quebra-lhes os pescoços e os mata; ela chora, as aqueias a cercam; a águia volta, pousa na viga e diz com voz humana que não é sonho, mas realidade boa: os gansos são os pretendentes, e ela, que era a águia, agora é o marido que voltou para dar-lhes destino indigno. Penélope acordou e viu os gansos comendo como antes. Odisseu diz que o sonho não se interpreta de outro modo, pois o próprio Odisseu mostrou como se cumprirá, e a perdição ameaça todos os pretendentes. Penélope responde que os sonhos são confusos e nem todos se realizam: há duas portas, uma de chifre e outra de marfim, e os que passam pelo marfim enganam, os que passam pelo chifre se cumprem; não crê que o seu tenha vindo daí. Anuncia que a manhã odiosa chega, a que a levará da casa de Odisseu, e que por isso propõe uma prova: os doze machados que Odisseu enfileirava e atravessava com a flecha de longe. Quem armar o arco com mais facilidade e atravessar os doze machados, a esse ela seguirá, deixando a casa. Odisseu lhe diz que não adie a prova, pois Odisseu virá antes de os pretendentes armarem o arco e atravessarem o ferro. Penélope diz que não pode ficar sem dormir, e que os deuses puseram para cada mortal sua parte; sobe ao quarto de cima, onde chora desde que Odisseu partiu, e manda que o hóspede se deite na casa, no chão ou na cama que as servas lhe arrumarem. Sobe com as servas e chora o marido até que Atena lhe derrame o sono nos olhos.
Análise
O canto monta um interrogatório em que cada um sabe o que o outro não sabe ou não diz. Odisseu sabe quem é e mente com detalhes verdadeiros; Penélope sabe com que roupa o marido partiu e, depois que o hóspede acerta, diz que o hóspede será amigo, mas insiste que o marido não volta. O texto não diz se ela suspeita; diz o que ela faz: trata o mendigo como hóspede de honra, manda lavá-lo e, ao fim, anuncia a prova do arco. As duas leituras, ela sem saber ou ela já desconfiada, cabem nos versos.
A cicatriz põe o corpo no lugar da palavra: o que Odisseu sustenta com o nome falso e a história cretense, a ama desmonta com a mão. A digressão liga a marca ao nome: Odisseu é, desde o berço, o nome de quem chega a um lugar tendo-se indisposto com muitos, e a cicatriz vem de uma caça no Parnaso feita para receber presentes. O reconhecimento não passa a Penélope porque Atena lhe desvia a atenção; o poema deixa a ama como a única que sabe, e Odisseu a obriga ao silêncio com uma ameaça de morte.
Assinatura
A análise completa de cada canto de Odisseia está na assinatura, com a explicação de cada citação, o quiz, o guia em PDF e o caderno de estudos.