Resumo do capítulo
Ao amanhecer, no concílio dos deuses, Atena queixa-se a Zeus de que nenhum povo se lembra de Odisseu, rei que governou como um pai, e que agora está preso na ilha da ninfa Calipso, sem naus nem companheiros que o levem para casa. Lembra também que os pretendentes planejam matar o filho dele, Telêmaco, na volta de Pilos e de Esparta. Zeus responde que foi ela mesma quem decidiu que Odisseu se vingaria deles, e a manda conduzir Telêmaco com segurança até em casa, de modo que os pretendentes voltem de mãos vazias. Depois manda Hermes dizer a Calipso a decisão: Odisseu partirá sem escolta de deuses nem de homens, numa balsa bem atada, e no vigésimo dia chegará a Esquéria, terra dos feácios, que o honrarão como a um deus e o levarão numa nau até a pátria, com ouro, bronze e roupas em quantidade maior do que ele teria trazido de Troia. Pois é seu destino rever os seus e voltar à casa de teto alto.
Hermes calça as sandálias de ouro, toma a vara que encanta ou desperta os olhos dos homens e voa sobre o mar como uma gaivota até a ilha de Calipso. Ali encontra a gruta, cercada de fogo de cedro e tuia, de bosque, videira, quatro fontes e prados de violeta e aipo, e a ninfa, que canta enquanto tece com uma naveta de ouro. Calipso o reconhece, pois os deuses não são desconhecidos entre si, ainda que morem longe. Odisseu não está dentro: está sentado na praia, chorando, de olhos postos no mar. Calipso acolhe Hermes com ambrosia e néctar, e Hermes diz que veio contra a vontade, por ordem de Zeus, pois ninguém atravessa por gosto tanta água salgada. Diz que o homem que ela guarda é o mais desafortunado dos que lutaram em Troia, cujos companheiros, na volta, ofenderam Atena, e que perdeu todos eles, e que Zeus manda soltá-lo, porque não lhe é destinado morrer longe dos seus. Calipso estremece e se queixa: os deuses são cruéis e invejosos, não suportam que uma deusa durma abertamente com um mortal, e mataram Oríon, amante de Aurora, e Iásion, amante de Deméter. Salvou Odisseu quando Zeus lhe partiu a nau com o raio, cuidou dele e prometeu torná-lo imortal e sem velhice. Mas ninguém passa por cima de Zeus: que ele vá, ela não tem navio nem companheiros para mandá-lo, mas lhe dará conselhos. Hermes recomenda que o deixe partir, para não irritar Zeus.
Calipso vai à praia e o encontra chorando, sem que a ninfa lhe agrade mais, forçado a dormir com ela nas grutas à noite. Diz-lhe que deixe de chorar e faça uma grande balsa, com estrado alto, e que ela lhe dará pão, água, vinho, roupas e um vento favorável, se os deuses quiserem. Odisseu estremece e desconfia: ela quer outra coisa, pois não há como atravessar o mar numa balsa, e só subirá nela se ela jurar que não lhe fará outro mal. Calipso sorri, acaricia-o, chama-o manhoso e jura pela Terra, pelo Céu e pela água do Estige; diz que pensa para ele o que pensaria para si, pois tem espírito justo, não de ferro, mas compassivo. Voltam à gruta e comem, ele comida de mortal, ela ambrosia. Calipso pergunta se ele quer partir já, e diz que, se soubesse as penas que o destino lhe reserva antes de chegar, ficaria e seria imortal, ainda que sinta saudade da esposa; e se diz não inferior a ela em corpo nem em estatura. Odisseu pede que não se irrite: sabe que Penélope é inferior a ela em aparência, porque é mortal e Calipso não envelhece, mas ainda assim quer voltar para casa todos os dias. Se um deus o ferir no mar, suportará: já sofreu muito. Passam a noite juntos na gruta. De manhã ela lhe dá um machado de bronze e uma enxó e o leva à ponta da ilha, onde há árvores secas. Ele corta vinte troncos, aplaina e fura as peças, ajusta-as com cavilhas, faz estrado, mastro, leme, cerca de vime contra as ondas e uma vela com o pano que ela traz. Ao quarto dia a balsa está pronta. No quinto, Calipso o banha, o veste, põe a bordo odres de vinho e de água e provisões, e manda um vento suave. Odisseu navega sozinho ao leme, sem dormir, guiando-se pelas Plêiades, pelo Boieiro e pela Ursa, que ela mandou manter à esquerda. Navega dezessete dias, e no décimo oitavo vê ao longe os montes da terra dos feácios, como um escudo sobre o mar.
Poseidon, voltando dos etíopes, vê a balsa dos montes Sólimos e se irrita, pois os deuses mudaram de ideia a respeito de Odisseu enquanto ele estava fora, e ele está perto da terra dos feácios, onde deve escapar do limite de seus sofrimentos. Poseidon diz que ainda lhe dará mal bastante, junta nuvens, revolve o mar com o tridente e solta todos os ventos, e cai a noite. Odisseu desanima e lamenta não ter morrido em Troia, junto ao corpo de Aquiles, para ter honras fúnebres e fama. Uma onda quebra o mastro e o leva ao mar, e ele afunda, pesado com as roupas de Calipso; volta à tona e se agarra à balsa. Ino, filha de Cadmo, que foi mortal e agora é deusa do mar, tem pena dele, aparece como um mergulhão na balsa e o manda largar as roupas e nadar até os feácios, com o véu imortal sob o peito, e jogá-lo de costas ao mar assim que tocar a terra. Odisseu desconfia que seja um engano de algum deus e decide ficar na balsa enquanto as tábuas aguentarem, para só nadar quando ela se desfizer. Poseidon manda uma onda que espalha as tábuas; Odisseu monta numa como num cavalo, tira as roupas, ata o véu e nada. Poseidon o vê e lhe diz que vague até se misturar a homens criados por Zeus, mas que nem assim terá pouco sofrimento; vai a Egas. Atena prende os ventos, deixando livre só Bóreas, para que as ondas se abram para ele.
Odisseu flutua dois dias e duas noites. Ao terceiro dia o vento cai e ele vê a terra perto, alegre como filhos que veem o pai se levantar de uma doença longa. Ao chegar a um grito de distância, ouve as ondas nos rochedos e vê que não há porto, apenas penhascos. Pensa nos riscos: uma onda pode lançá-lo contra a pedra, e se nadar ao longo da costa o vento pode levá-lo de volta ao alto-mar, ou um monstro de Anfitrite pode atacá-lo, pois sabe que Poseidon o odeia. Uma onda o lança contra o recife, e Atena o inspira a se agarrar à rocha até a onda passar; o refluxo o arranca, e a pele das mãos fica na pedra, como as pedrinhas que ficam presas às ventosas do polvo arrancado de sua toca. Atena lhe dá juízo, e ele nada ao longo da costa até a foz de um rio, onde não há pedras e há abrigo do vento. Reconhece que é um rio e suplica ao deus: o homem que chega errante é digno de respeito até para os deuses imortais. O rio detém a corrente e o salva. Odisseu cai exausto, sem fôlego nem voz; quando recobra o ânimo, solta o véu de Ino na corrente, e ela o recolhe. Beija a terra fértil, pensa se dorme perto do rio, onde o frio e o orvalho podem matá-lo, ou na mata, onde pode ser presa das feras, e escolhe a mata. Sob dois arbustos entrelaçados, de zambujeiro e de oliveira, faz uma cama larga de folhas, deita-se no meio e se cobre de folhas, como quem guarda a brasa de um tição sob a cinza. Atena derrama o sono sobre os olhos dele.
Análise
O canto mostra Odisseu em três posições: retido, livre e navegando, despojado de tudo na costa. Nada do que ele leva de Calipso chega à terra: a balsa é desfeita, as roupas são deixadas, o véu de Ino é devolvido ao mar. Chega a Esquéria sem nada de ninguém, a não ser o corpo e a vida, e é essa a imagem com que o canto termina: a brasa guardada sob as folhas.
A recusa da imortalidade é o centro do canto, e nela Odisseu não nega nada do que Calipso diz: concede que Penélope é inferior e continua querendo voltar. O poema não explica a escolha, mostra-a em ação, no machado, na vela, no leme e nas dezessete noites sem dormir. Calipso, por sua vez, não é obstáculo: cede à ordem de Zeus, jura, ensina o caminho pelas estrelas e dá as provisões, e a frase de que não tem coração de ferro encontra confirmação nos atos que vêm depois.
Assinatura
A análise completa de cada canto de Odisseia está na assinatura, com a explicação de cada citação, o quiz, o guia em PDF e o caderno de estudos.