Um romance de dez anos, feito junto com o teatro
O romance foi elaborado entre 1916 e 1926, saiu em capítulos na revista La Fiera Letteraria em 1925 e 1926 e em livro em 1926, e é o último romance de Pirandello. Nesses anos ele estava na grande fase teatral: Seis Personagens à Procura de um Autor estreou em 1921, e o romance retoma, de modo quase obsessivo, situações que ele já tinha trabalhado na ficção e no palco. Pirandello recebeu o Nobel de Literatura em 1934 e morreu em 1936.
A pergunta de uma obra inteira
O assunto único de Pirandello, no teatro, no romance e nos contos, é a identidade humana: quem sou eu? O Falecido Matias Pascal a pôs em cena de outro modo, com um homem que é dado como morto, abandona o próprio nome e inventa outro, e fracassa porque ninguém vive sem documentos, sem passado e sem família. Em Um, Nenhum e Cem Mil a fuga não é para fora: Moscarda não precisa de morte falsa para deixar de ser um, porque descobre que nunca foi.
Do naturalismo siciliano ao fim do personagem de estado civil
Os primeiros contos e romances de Pirandello, como A Excluída e O Turno, contam casos regionais com tipos sicilianos, no caminho aberto pelo siciliano Verga, autor de Os Malavoglia, e os personagens que importam neles são os desajustados e os solitários, os que aprendem cedo a se ver vivendo. Pirandello continua o naturalismo de Verga até o ponto em que o personagem perde a homogeneidade psicológica, e uma frase pouco conhecida dele resume o caminho: a arte prossegue a natureza. Daí a fórmula de que ele destruiu o état civil que Balzac introduzira na literatura, isto é, a ficha de identidade do personagem, com nome, profissão, caráter e passado.
O que os documentos dizem de uma pessoa
No italiano de cartório, os dados públicos de um cidadão (nome, nacionalidade, classe, estado civil, idade, estatura, cor dos olhos) chamam-se generalità. O romance faz esse inventário de dentro: no Livro III, Moscarda lista a data de nascimento, o batismo, o casamento aos vinte e três anos, o metro e sessenta e oito e o cabelo ruivo, e mostra que os dados não dizem nada a quem os lê; no Livro IV, leva a descoberta ao cartório do notário Stampa.
Onde e quando se passa
A ação ocorre numa cidade de província chamada Richieri, que o texto não situa em região nenhuma, no reinado de Vítor Emanuel III, e o narrador conta tudo de um asilo, depois de passada a crise, a um leitor tratado por «senhores». Vitangelo tem vinte e oito anos quando a mulher lhe fala do nariz. O homem já voa em máquina, e ele conta o avião como uma novidade que arranca gritos de vitória (capítulo X do Livro II).
O título e a escolha
Numa entrevista dada no Rio de Janeiro em dezembro de 1927, durante a turnê do Teatro d'Arte de Roma, Pirandello disse que a multiplicidade da personalidade era para ele uma constatação, e não uma conclusão, e que não era autor de farsas, mas de tragédias. A tragédia, segundo ele, está na lei que obriga o homem a ser um: cada qual pode ser um, nenhum ou cem mil, mas a escolha é imperativa, e ela custa o sacrifício de todas as vidas que se poderia ter vivido. O romance dramatiza essa escolha e a deixa sem conclusão.