Livro I: O nariz e o espelho
Pende? Em mim? O nariz? E a minha mulher, placidamente: Mas sim, querido. Olhe bem para ele: pende para a direita.
Explicação e análise
O romance abre com um gesto banal. Vitangelo Moscarda, de vinte e oito anos, se demora diante do espelho apertando uma narina, e a mulher, Dida, pergunta o que ele faz. Ele fala de uma dorzinha que sente ao apertar a narina; ela responde, sorrindo, que achava que ele estava vendo para que lado o nariz pende. A passagem é o que vem logo depois: ele repete a palavra dela como quem foi pisado, e ela confirma, sem pressa, que o nariz pende para a direita.
O peso da cena está no tom. Dida fala com calma e com um "querido", sem intenção de ferir, e é essa calma que torna o fato irrefutável. Moscarda reage como quem levou um golpe, não como quem foi informado: o susto é de corpo. Sempre julgara o nariz, se não belo, ao menos decente, e a descoberta o irrita como um castigo imerecido. Depois vêm as sobrancelhas, a orelha, o dedo mínimo, a perna direita, e ele confere tudo e reconhece que é verdade.
O que o fere, porém, não é o defeito. É ter vivido tantos anos com o mesmo nariz sem saber, e precisar de uma esposa para ficar sabendo. A frase traz em miniatura o problema do livro: há em cada um uma figura que os outros veem e ele não, e basta uma observação distraída para ela aparecer. Tudo o que Moscarda fará a seguir nasce deste momento.
Fixou-se em mim, em vez disso, o pensamento de que eu não era para os outros o que até então, dentro de mim, eu me figurara ser.
Explicação e análise
Assinatura
A explicação desta e das outras 37 citações de Um, Nenhum e Cem Mil está na assinatura.
Quando eu me punha diante de um espelho, dava-se como uma parada em mim; toda espontaneidade acabava, cada gesto meu me parecia fingido ou refeito. Eu não podia me ver viver.
Explicação e análise
Com a descoberta dos cem mil Moscarda que eu era não só para os outros mas também para mim, todos com este único nome de Moscarda, feio até a crueldade, todos dentro deste meu pobre corpo que era um também, um e nenhum, ai de mim.
Explicação e análise
Quem era? Nada era. Ninguém. Um pobre corpo mortificado, à espera de que alguém o tomasse para si.
Explicação e análise
Livro II: O leitor e a casa
Garanto aos senhores, ao contrário, que ele, no mesmo momento em que de fora me dizia com educação bom dia ou boa noite pela escada, por dentro me fazia viver como um perfeito imbecil.
Explicação e análise
E esperemos, pelo amor de Deus, que não tenha morrido algum outro parente próximo, pois então os senhores também veriam como um cemitério todos aqueles queridos ciprestes.
Explicação e análise
Mas que culpa temos, eu e o senhor, se as palavras, por si, são vazias? Vazias, meu caro. E o senhor as enche do seu sentido, ao dizê-las a mim; e eu, ao recebê-las, inevitavelmente as encho do meu. Pensamos nos entender, não nos entendemos de modo algum.
Explicação e análise
O homem toma como matéria até a si mesmo, e se constrói, sim senhores, como uma casa.
Explicação e análise
Mas é claro que ela conhecia aquele seu Gengè mais do que eu o conhecia! Ela o construíra! E ele não era de modo algum um fantoche. Se algum, o fantoche era eu.
Explicação e análise
Livro III: O pai e os cem mil
O nome, seja: feio até a crueldade. Moscarda. A mosca, e o despeito do seu áspero zumbido incômodo.
Explicação e análise
Foi um instante, mas a eternidade. Senti ali dentro todo o pavor das necessidades cegas, das coisas que não se podem mudar: a prisão do tempo; o nascer agora, e não antes nem depois; o nome e o corpo que nos são dados; a cadeia das causas.
Explicação e análise
Ah, aí está: um usurário, para os outros; um tolo aqui, para Dida, minha mulher. Gengè eu era; um aqui, no ânimo e diante dos olhos de minha mulher.
Explicação e análise
Cinco imbecis. Um em cada um. Cinco imbecis que estão diante dos senhores, como os veem de fora, em mim, que sou um e cinco como a casa.
Explicação e análise
O senhor mandou embora a si mesmo, aquele um que é para o seu velho amigo, porque o sentiu totalmente diferente do que é, ou quer ser, para o novo.
Explicação e análise
Livro IV: O primeiro experimento
O problema é sempre este, senhores: que todos eles tivessem de ser chamados com aquele único nome de Júlio César, e que num só corpo de sexo masculino tivessem de coabitar tantos e até uma mulher.
Explicação e análise
Ou melhor, este horror: a consciência da loucura, fresca e clara, senhores, fresca e clara como uma manhã de abril, e lúcida e precisa como um espelho.
Explicação e análise
E aquele não, não o vê, porque vê outra coisa, quando os senhores acham que deva ver a coisa dos senhores, como lhes parece. Ele a vê como lhe parece a ele, e para ele, portanto, o cego são os senhores.
Explicação e análise
É aqui que está tudo, pensava eu, nesta subjugação. Cada um quer impor aos outros aquele mundo que tem dentro, como se fosse fora, e que todos devam vê-lo à sua maneira, e que os outros não possam estar nele senão como ele os vê.
Explicação e análise
Você, não eu, entende? diante de sua mulher, entende? é que devia ficar assim! E eu, e ele, e todos nós, diante dos assim chamados loucos, assim!
Explicação e análise
Livro V: O ponto vital
Eu perdi, perdi para sempre, nos olhos dos outros, a minha realidade e a de todas as coisas, Bibi! Mal me toco, me falto.
Explicação e análise
Quando a vista dos outros não vem nos socorrer, de algum modo, para constituir em nós a realidade daquilo que vemos, nossos olhos já não sabem o que veem; a nossa consciência se perde, porque isto que julgamos o mais íntimo de nós, a consciência, quer dizer os outros em nós; e não podemos nos sentir sós.
Explicação e análise
Dois, portanto, não aos olhos deles, mas somente para mim, que me sabia, para aqueles dois, um e um; o que para mim não fazia um a mais, e sim um a menos, pois queria dizer que, aos olhos deles, eu como eu não era ninguém.
Explicação e análise
Fora de toda imagem em que eu pudesse me representar vivo para mim mesmo, como alguém também para mim, fora de toda imagem de mim tal como eu imaginava que pudesse ser para os outros, um “ponto vital” em mim se sentira ferido tão fundo que perdi a luz dos olhos.
Explicação e análise
Pois bem, mas isto, justamente isto, era o “ponto vital” ferido em mim, que me cegava e me tirava naquele momento a compreensão de tudo: que usurário não, aquele usurário que eu nunca fora para mim, agora eu não queria mais ser nem para os outros e não seria mais, ainda que ao custo da ruína de todas as condições da minha vida.
Explicação e análise
Pare você com o seu Gengè, que não sou eu, não sou eu, não sou eu! Chega dessa marionete! Quero o que quero; e como eu quero será feito!
Explicação e análise
Livro VI: Dizer eu a quem
Eu me tornava “um”. Eu. Eu, que agora me queria assim. Eu, que agora me sentia assim. Finalmente. Não mais usurário (chega daquele banco!): e não mais Gengè (chega daquela marionete!).
Explicação e análise
A quem dizer “eu”? De que valia dizer “eu”, se para os outros tinha um sentido e um valor que nunca podiam ser os meus; e para mim, tão fora dos outros, assumir um (sentido) logo se tornava o horror deste vazio e desta solidão?
Explicação e análise
Não era eu, posso lhes garantir. Tanto é verdade que, um instante depois, antes de sair, mal virei um pouco a cabeça para olhá-lo de novo naquele espelho, já era outro, também para mim, com um sorriso diabólico nos olhos agudos e luzidios.
Explicação e análise
Livro VII: O revólver e o bispo
Tive de, pouco depois, subir de novo à Abadia para retomar do corredor, sob o janelão, aquele revólver, que depois deveria servir para mim.
Explicação e análise
Aquele ponto vital que se sentira ferir em mim, quando minha mulher rira ao me ouvir dizer que eu não queria mais ser tido na conta de usurário em Richieri, era Deus, sem dúvida alguma: Deus que se sentira ferido em mim, Deus que em mim já não podia tolerar que os outros, em Richieri, me tivessem na conta de usurário.
Explicação e análise
Espontaneamente, sem querer mesmo, escapou-me então dizer: Como eu.
Explicação e análise
A senhora só pode se conhecer posando: estátua, não viva. Quando alguém vive, vive e não se vê. Conhecer-se é morrer. A senhora passa tanto tempo se mirando nesse espelho, em todos os espelhos, porque não vive; não sabe, não pode ou não quer viver. Quer demais se conhecer, e não vive.
Explicação e análise
A senhora não quer que o seu sentimento seja cego. Obriga-o a abrir os olhos e a se ver num espelho que lhe põe sempre à frente. E o sentimento, assim que se vê, congela dentro da senhora. Não se pode viver diante de um espelho.
Explicação e análise
Livro VIII: Sem nome e sem conclusão
Ah, aquela da grande correnteza, senhor juiz! O senhor a canalizou bem nos seus afetos, nos deveres que se impôs, nos hábitos que traçou; mas depois vêm os momentos de cheia, senhor juiz, e a correnteza transborda, transborda e arrasa tudo. Eu sei. Tudo submerso, para mim, senhor juiz! Eu me joguei nela e agora nado, nado. E estou, se soubesse, já tão longe! Quase não o vejo mais.
Explicação e análise
O que mais me ardia era que esta minha total entrega fosse interpretada como verdadeiro arrependimento, enquanto eu dava tudo, não me opunha a nada.
Explicação e análise
Nenhum nome. Nenhuma lembrança, hoje, do nome de ontem; do nome de hoje, amanhã. [...] Não é outra coisa senão isto, epitáfio, um nome.
Explicação e análise
Eu sou esta árvore. Árvore, nuvem; amanhã livro ou vento: o livro que leio, o vento que bebo. Tudo fora, vagabundo.
Explicação e análise
Eu não tenho mais essa necessidade, porque morro a cada instante, eu, e renasço novo e sem lembranças: vivo e inteiro, não mais em mim, mas em cada coisa fora.