Vitangelo Moscarda conta, de um asilo de mendigos, como a frase da mulher sobre o seu nariz lhe desfez a ideia de ser um, e o que fez para recuperá-la. A história corre em oito Livros e sessenta e três capítulos curtos, numa linha simples: a descoberta, nos Livros I a III; a experiência que a põe à prova contra os conhecidos, nos Livros IV e V; a casa esvaziada e a decisão de ir até o fim, nos Livros VI e VII; e o preço, no Livro VIII.
Livro I: o nariz e o espelho
Numa manhã, diante do espelho, Vitangelo, de vinte e oito anos, rico, ocioso e casado com Dida, ouve da mulher que o nariz dele pende para a direita e confere, com espanto, que é verdade, e que as sobrancelhas, as orelhas, o dedo mindinho e a perna também não são o que ele supunha (capítulo I do Livro I). No mesmo dia pergunta a um amigo se está vendo o seu nariz, descobre que o amigo já o via e, para se vingar, aponta nele uma covinha no queixo; em poucos dias a cidade inteira passa de vitrine em vitrine examinando o próprio rosto (capítulo II do Livro I). Passa a querer ficar só, o que Dida, que o chama de Gengè a cada minuto, não deixa (capítulo III do Livro I), e explica ao leitor que quer ficar sem si mesmo, a sós com o estranho que é ele (capítulo IV do Livro I). Faz caretas diante dos espelhos da casa e vê que nenhuma emoção resiste a ser vista (capítulo V do Livro I). Finge proibir Dida de sair para que ela saia (capítulo VI do Livro I) e, sozinho, vai de olhos fechados até o espelho do armário, vê um corpo sem nome e sem dono e dá o primeiro riso de louco quando esse corpo espirra (capítulo VII do Livro I). O Livro fecha com sete reflexões e duas conclusões: entender por que Dida o chama de Gengè e descobrir quem ele é para os conhecidos, desmontando de propósito o eu que eles têm dele (capítulo VIII do Livro I).
Livro II: o leitor e a casa
Imaginando as objeções do leitor, Vitangelo responde que a consciência de cada um não basta, porque há a dos outros (capítulo I do Livro II), e conta que o vizinho aposentado, tão educado com ele na escada, o via por dentro como um perfeito imbecil (capítulo II do Livro II). Senta na poltrona do leitor e mostra que os ciprestes queridos do leitor são um cemitério para o amigo dele, e seriam também para o leitor, se lhe morresse outro parente (capítulo III do Livro II), que as palavras são vazias e cada um as enche com o seu sentido (capítulo IV do Livro II) e que ninguém é um só, porque tudo são fixações (capítulo V do Livro II). Pela montanha que se transforma em casa mostra que o homem toma tudo como material de construção (capítulo VI do Livro II, capítulo VII do Livro II), leva o leitor a um passeio ao campo, onde a paz está em quem a sente (capítulo VIII do Livro II, capítulo IX do Livro II), explica com um passarinho e um avião por que o homem quer voar (capítulo X do Livro II) e conclui, na volta à cidade, que o homem se constrói como uma casa (capítulo XI do Livro II). Fecha com a cena do casamento: Dida conhece o Gengè melhor que ele, porque o construiu, e o ama de verdade; ela desmancha o penteado de moça para agradar a esse marido, e Vitangelo fica com ciúme de um imbecil que se meteu entre ele e a mulher (capítulo XII do Livro II).
Livro III: o pai e os cem mil
Decidido a destruir os Moscarda que vivem nos conhecidos, Vitangelo avisa que as loucuras que vêm são necessárias, porque ele nunca construiu um Moscarda próprio e só pode agir mostrando-se o contrário do que cada um supõe (capítulo I do Livro III). Descobre que o nome, feio como o zumbido de uma mosca, o corpo e até o ócio lhe foram dados por outros (capítulo II do Livro III), e então o pai lhe aparece, visto de fora, com anéis demais e um esgar frio no sorriso (capítulo III do Livro III, capítulo IV do Livro III). O banqueiro que o filho amava é na cidade o usurário, e o filho, que nunca olhou o negócio, vive dele (capítulo V do Livro III). Pergunta a Dida qual é a sua profissão, e o riso dela desfaz o horror sem lhe devolver nada: para a cidade ele é usurário, para ela um tolo, o Gengè (capítulo VI do Livro III). Um longo parêntese mostra que fatos, formas e atos são prisões (capítulo VII do Livro III) e convida o leitor a ir com cinco pessoas até a casa onde Vitangelo nasceu, para ver cinco imbecis diferentes num só Moscarda (capítulo VIII do Livro III). Fechado o parêntese, o leitor manda embora o velho amigo quando chega um novo, e Vitangelo lhe mostra que ele mandou embora a si mesmo (capítulo IX do Livro III, capítulo X do Livro III).
Livro IV: o primeiro experimento
Vitangelo escolhe como cobaia Marco di Dio, antigo aprendiz de escultor, condenado por um ato de um instante, que mora de graça numa casinhola dele e odeia o pai dele (capítulo I do Livro IV). O experimento, que ele chama de total, quer fazê-lo parecer outro a um só dos cem mil e acaba por alterar todos (capítulo II do Livro IV). No cartório do notário Stampa, confia ao notário o ato que pretende fazer e se perturba com o olhar do outro, que vê outra coisa (capítulo III do Livro IV); para buscar os papéis da casa no banco, caminha com plena consciência pela estrada real da loucura (capítulo IV do Livro IV). No banco, briga com Firbo, ajoelha-se no chão diante dele e ordena o despejo de Marco di Dio (capítulo V do Livro IV), furta os papéis do armário e se vê como ladrão (capítulo VI do Livro IV). Assiste ao despejo debaixo de chuva, protegido por guardas; a doação de uma casa, anunciada por um rapaz do cartório, não o transfigura, e Marco di Dio salta sobre ele gritando «louco!», o mesmo grito da multidão (capítulo VII do Livro IV).
Livro V: o ponto vital
Depois do despejo, Firbo quer trancá-lo num manicômio ou ao menos interditá-lo, e Quantorzo defende deixar passar (capítulo I do Livro V). Em casa, Vitangelo assume o papel de Gengè, o marido tolo, para que o ato pareça capricho; Dida ri, repreende o seu Gengè e se senta no colo dele, e o abraço lhe parece o de dois estranhos (capítulo II do Livro V). Esconde-se num terreno vazio com a cadela Bibi, a quem confessa que não suporta mais ser olhado (capítulo III do Livro V), pensa em se matar, conclui que a consciência são os outros em nós, chuta a cadela e se assusta com o chute (capítulo IV do Livro V, capítulo V do Livro V). De volta, encontra Quantorzo com Dida e conta oito pessoas num salão onde os dois veem três (capítulo VI do Livro V, capítulo VII do Livro V). No capítulo final, o mais longo do romance, Quantorzo vem, de acordo com Firbo, ameaçar deixar a direção do banco se ele praticar mais atos arbitrários; Vitangelo o desconcerta, Dida ri, e o riso o fere num ponto vital: ele exige o banco fechado naquela noite, empurra Dida na poltrona e grita que o Gengè dela não é ele (capítulo VIII do Livro V).
Livro VI: dizer eu a quem
Fechado no quarto, Vitangelo se sente «um» pela primeira vez, graças à violência que acaba de cometer, e vê que esse «um» não tem conteúdo: não é mais usurário nem Gengè, mas não sabe quem é (capítulo I do Livro VI). Dida foi embora com Quantorzo e mandou levar as coisas dela para a casa do pai; sozinho, ele sente o alívio de estar livre e depois a solidão de não ter a quem dizer «eu» (capítulo II do Livro VI). Na manhã seguinte pisca para o Moscarda do espelho e vê, um instante depois, que ele já é outro (capítulo III do Livro VI). Recebe o sogro, que vem pedir contas, e se diverte oferecendo-lhe um genro médico, advogado, professor ou deputado, até o sogro fugir gritando «louco!» (capítulo IV do Livro VI). Entende que o sogro fugiu menos de um louco que de um genro que desmonta o arranjo em que todos se acomodavam (capítulo V do Livro VI), e conclui que nenhuma profissão o salvaria, porque qualquer forma é prisão (capítulo VI do Livro VI).
Livro VII: o revólver e o bispo
Anna Rosa, amiga de Dida, o chama à casa dela por um bilhete (capítulo I do Livro VII); como não a encontra, ele vai à Abadia, onde ela está com a tia monja (capítulo II do Livro VII), e ali o revólver que ela traz na bolsa dispara e fere o pé dela; ele a carrega para casa (capítulo III do Livro VII). Anna Rosa conta que o chamou para que fosse falar com o bispo antes que Dida, o sogro, Firbo e Quantorzo consigam interditá-lo, e que Dida o julga um tolo; Vitangelo vê uma Dida inimiga e, ao mesmo tempo, inteira (capítulo IV do Livro VII). Concluindo que o ponto vital ferido pelo riso era Deus, decide pedir ajuda ao Deus de fora (capítulo V do Livro VII). Monsenhor Partanna, o bispo que desce a pé, o recebe (capítulo VI do Livro VII); na audiência, Vitangelo vê num terraço um louco que quer voar com uma coberta vermelha e diz «Como eu», e o bispo manda chamar o cônego Sclepis, que promete cuidar da defesa (capítulo VII do Livro VII). Enquanto espera, fica com Anna Rosa convalescente e lhe diz que conhecer-se é morrer; pouco depois cai da cama, ferido no peito pelo revólver que ela guardava sob o travesseiro (capítulo VIII do Livro VII).
Livro VIII: sem nome e sem conclusão
Interrogado no hospital, Vitangelo diz que o tiro foi acidente; a justiça já tem a confissão da feridora e, supõe ele, o depoimento de Dida, e a versão parece descarada a quem o interroga (capítulo I do Livro VIII). O juiz o visita em casa, e Vitangelo, numa poltrona com uma coberta verde sobre as pernas, recusa repetir suas considerações sobre a vida e pergunta se a coberta não é bela (capítulo II do Livro VIII). O cônego Sclepis conduz o plano: Vitangelo doa tudo, a casa inclusive, para fundar, com o que lhe couber da liquidação do banco, um asilo de mendicância onde viverá como um mendigo; ele aceita e vê a cidade ler como arrependimento o que é entrega (capítulo III do Livro VIII). Anna Rosa é absolvida, em parte pelo riso que o aparecimento dele, de boné, tamancos e camisão do asilo, provoca no tribunal. O romance acaba com Vitangelo sem nome, sem espelho e sem lembrança, vivendo ao amanhecer entre árvores, nuvens e o som de sinos, que ouve de fora (capítulo IV do Livro VIII).