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Um, Nenhum e Cem Mil · Livro IV

O primeiro experimento

Resumo do livro

Depois de três Livros de argumento, o Livro IV põe a tese à prova. Vitangelo Moscarda quer destruir de um golpe o usurário que a cidade vê nele, e escolhe como cobaia o homem que mais o odeia: Marco di Dio, um escultor condenado por um ato de um instante, que vive de sonhos de riqueza e do escárnio dos outros. O experimento, que parece simples (dar a Marco di Dio uma casa que seja dele), exige que Moscarda aja contra si mesmo, e todos os cenários do Livro mostram o efeito: o notário que olha o canário, os empregados do banco que nem levantam os olhos para ele, os dois sócios que o veem como outro, a multidão que, diante da doação, grita que ele é louco. O que muda em relação aos Livros anteriores é a plateia: já não é o leitor quem é posto diante do espelho, são os que conhecem Moscarda, e o espanto deles lhe devolve, em vez de alívio, a consciência lúcida da própria loucura.

Capítulo I: Marco di Dio, o inventor fracassado

Resumo do capítulo

Moscarda diz "eram", mas talvez Marco di Dio e a mulher, Diamante, ainda vivam; ele já não tem mundo para si e nada sabe do deles. Poderia lhes perguntar quem são e eles responderiam, como numa gramática de Ollendorff, e isso lhe bastava então, como basta ao leitor agora, para estabelecer a realidade dos dois e da rua. Pareciam-lhe dois infelizes que a miséria dispensava de lavar o rosto de manhã, mas não de tentar tudo para ficar milionários da noite para o dia, "mi-lio-ná-rios", como ele dizia, silabando, de olhos arregalados. Moscarda ria então, com todos; agora se horroriza, porque só ria por nunca ter duvidado da regularidade das experiências. Marco se julgava inventor. Muitos o lembram como um selvagem chegado do campo a Richieri, acolhido no ateliê de um dos melhores artistas locais e que aprendeu a trabalhar o mármore; o mestre o tomou por modelo para um grupo, "Sátiro e menino", famoso em gesso. Numa tarde abafada de verão, enquanto esculpia, o discípulo traduziu em movimento a visão que o mestre fixara no barro; o menino de verdade gritou por socorro e Marco foi apanhado num ato de bicho, condenado para sempre. Moscarda pergunta ao leitor se, por tantos outros atos honestos, ele não era também o bom rapaz que o mestre dizia; e, para quem objeta que a tentação prova o contrário, lembra Júlio César, Calpúrnia e o rei Nicomedes. Saído da prisão, Marco tramou projetos bizarros de braço com uma mulher que apareceu um dia; Marco dizia havia dez anos que partiria para a Inglaterra na semana seguinte e carregava uma gramática inglesa aberta sempre na mesma página; fazia à mulher perguntas em inglês, e ela respondia pronta e séria. Planejavam privadas inodoras para países sem água, e a seriedade deles era feroz porque todos riam. Por isso o maior inimigo deles fora o pai de Moscarda, que lhes dava dinheiro até certo ponto, "Quanto?", "Pouco", e depois parava, e nenhum deles o chamava de usurário com mais furor que Marco. Morto o pai, Marco jogava sobre o filho esse ódio, e com razão: Moscarda continuava, quase sem saber, a beneficiá-lo, alojando-o numa casinhola sua cujo aluguel nem Firbo nem Quantorzo cobravam. Essa casinhola lhe deu o meio de tentar o primeiro experimento.

Análise

Il guajo è questo, sempre, signori: che dovevano tutti quanti esser chiamati con quel nome solo di Giulio Cesare, e che in un solo corpo di sesso maschile dovevano coabitare tanti e anche una femmina, o problema é sempre este, senhores: que todos eles tivessem de ser chamados com aquele único nome de Júlio César, e que num só corpo de sexo masculino tivessem de coabitar tantos e até uma mulher.

O exemplo de César serve para tirar do leitor a objeção moral: se ele aceita que o imperador tem um César para a mulher e outro para o rei, aceita que Marco di Dio seja o bom rapaz e o homem do ato. A imagem de vários dentro de um corpo só, "e até uma mulher", leva ao absurdo a ideia de um nome para um único. Duas leituras: defesa de Marco di Dio, ou demonstração que poderia ser feita com qualquer um.

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Capítulo II: O experimento que dá em loucura

Resumo do capítulo

Moscarda diz que o experimento foi "total": bastou mover em si, por jogo, a vontade de se representar diferente a um dos cem mil em que vivia, para que todas as outras realidades suas se alterassem de cem mil modos. E por força esse jogo havia de lhe dar a loucura, ou melhor, o horror da consciência da loucura, fresca e clara como uma manhã de abril, lúcida e precisa como um espelho. Pois, ao se encaminhar para o primeiro experimento, ia pôr a vontade fora de si, como um lenço que se tira do bolso: queria fazer um ato que não devia ser seu, mas daquela sombra de si que vivia noutra pessoa, tão sólida que ele poderia tirar o chapéu e cumprimentá-la. Ia ao encontro do senhor Vitangelo Moscarda para lhe pregar um mau truque, fazendo-lhe cumprir um ato contrário a ele e incoerente que, destruindo de golpe a lógica da sua realidade, o aniquilasse aos olhos de Marco di Dio e de tantos outros. Não entendia que a consequência não seria perguntar a todos "vejam agora que não sou o usurário que querem ver", e sim ouvirem, assombrados, que o usurário Moscarda enlouqueceu. Porque o usurário Moscarda podia enlouquecer, mas não se destruir de golpe: era um senhor a tratar com respeito, de um metro e sessenta e oito, ruivo como o pai, fundador do banco, com as sobrancelhas circunflexas e o nariz que pendia à direita como o do caro tolo do Gengè de Dida, e que, ao enlouquecer, arriscava arrastar ao manicômio todos os outros Moscarda que ele era para os outros, o pobre Gengè e ele também. Arriscaram todos o manicômio nessa primeira vez; e ainda tiveram de arriscar a vida, para que ele se recobrasse e achasse, por fim, o caminho da saúde. Mas, diz, não antecipemos.

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Capítulo III: O notário Stampa e o canário

Resumo do capítulo

Moscarda vai ao cartório do notário Stampa, na Via del Crocefisso, número 24, onde, em tal data, reinando Vítor Emanuel III, o cavaleiro Elpidio Stampa, de cinquenta e dois ou três anos, tinha seu cartório. Pergunta ao leitor se o conhece (todos o conhecem) e diz que por isso podem estar seguros de não errar; mas entrava ali num estado de ânimo que o leitor não pode imaginar, e propõe a ele o experimento: penetrar o gracejo assustador sob a pacífica naturalidade das relações cotidianas, o gracejo pelo qual o leitor se irrita e grita ao amigo que não vê isto. Entra carregado de reflexões, querendo manter uma fixidez fria, com vontade de rir diante do sério notário, que ignora que Moscarda possa não ser para si o que ele vê. Pergunta se não ouve o raspar das patinhas do canário na gaiola de zinco; o notário não ouve, e diz que o canário não canta. Como ele começa a olhá-lo de certo modo, Moscarda deixa o canário para não comprometer o experimento e pergunta por uma casa vazia, de um certo Moscarda Vitangelo, filho de Francisco Antônio Moscarda: "E não é o senhor?" Era tão bom, no cartório, entre papéis amarelados, falar daquela casa à distância de séculos, enquanto imaginava como o notário via aquele cartório, que cheiro sentia, e ele mesmo no mundo do notário. Segue um elogio da história: tudo ali é determinado e fixo, ao contrário da vida. Para não estragar tudo, volta ao notário, inclina-se e confia-lhe em voz baixa o ato que quer fazer, sob segredo profissional. O notário diz que precisa de dados e documentos que estão no banco, com Quantorzo. Contrariado, ele se levanta, com vontade de perguntar como o notário o vê andar, e se contém; mas ao abrir a porta de vidro diz que vai com o seu passo, e conta de um cavalo que ri com as nádegas. Reconhece que não vinha ao caso; mas, quando se põe no estado de ânimo em que estava então, sentir os olhos da gente lhe parecia uma opressão horrível, e dava vontade de fazer loucuras, rolar na rua, dançar. E ele vai tão sério pela rua, como também o leitor.

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Capítulo IV: No caminho da loucura lúcida

Resumo do capítulo

Moscarda precisa então ir ao banco buscar os papéis da casa de que o notário necessita. Eles são seus, pois a casa é sua e ele pode dispor dela; mas, se se pensa bem, só poderia tê-los furtando-os ou arrancando-os, com violência demente, de outro que aos olhos de todos era o legítimo proprietário: o senhor usurário Vitangelo Moscarda. Para Moscarda isso é evidente, porque vê esse usurário fora de si, vivo nos outros e não nele; mas para os outros, que veem nele apenas o usurário, ele iria ao banco roubar de si mesmo os papéis, ou arrancá-los da mão com loucura. Podia dizer que não era ele, ou que era outro? Nem era caso de raciocinar com um ato que aos olhos de todos queria justamente parecer contrário a ele e incoerente. Seguia assim, com perfeita consciência, pela estrada real da loucura, que era a estrada da sua realidade, aberta agora diante dele com todas as imagens suas, vivas, espelhadas, caminhando com ele.

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Capítulo V: A briga com Firbo no banco

Resumo do capítulo

No banco, o furto não é possível de imediato: Moscarda não sabe onde estão os papéis, e o último subalterno de Quantorzo ou de Firbo é mais dono do lugar que ele; os empregados nem levantam os olhos, e trabalham com zelo para reforçar a fama de usurário que a cidade lhe dá. Descreve o banco com tédio rigoroso: divisórias de vidro fosco, janelinhas amarelas, chão de tijolos gastos, cifras nas paredes, cheiro de velho, e poucas cadeiras antigas em que ninguém se senta. Hoje encontra os empregados rindo de uma altercação entre Firbo e um certo Turolla, zombado por todos, a propósito de um pedido de empréstimo que Turolla abonou e Firbo recusa. Moscarda sente um ímpeto de rebelião e grita a Firbo com que direito quer se impor a outro; Firbo pergunta se ele enlouqueceu, e ele responde com uma injúria: sim, como a mulher de Firbo, que lhe convém manter trancada no manicômio. Firbo empalidece; Moscarda fica como de pedra, e Quantorzo o arrasta para a sala da direção. Ali pensa em Firbo como um falso corcunda elegante e vê de uma vez que cada um quer impor aos outros o mundo que tem dentro, e que os opressores só conseguem impor palavras, como "usurário" e "louco". Quando Firbo volta, inimigo, a exigir contas, Moscarda se ajoelha e toca três vezes a testa no chão: quem deveria ficar assim é Firbo, diante da mulher, e todos diante dos assim chamados loucos. Agarra-o pela lapela, rindo; Firbo, forçado a olhá-lo nos olhos, confessa o susto: parece-lhe louco. Moscarda ri longamente, para de súbito e, para se recompor, pergunta por Marco di Dio, que há anos não paga aluguel. Eles não entendem; ele fala como a um outro, o Moscarda que esperavam, e diz as palavras que os dois estavam por dizer. Pousa a mão no ombro de Quantorzo, avisa que não é seu pai, ordena o despejo e a lista das suas casas com os papéis, leva-os ao armário e os põe para fora. Atrás da porta, tem certeza, dirão que enlouqueceu.

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Capítulo VI: O furto dos papéis da casa

Resumo do capítulo

Sozinho no cubículo do armário, Moscarda sente a presença do móvel, tão velho, pesado e carcomido, como um guardião inviolado de todos os papéis. Há ali uma janela, uma cadeira de palha velha, uma mesinha nua, preta e empoeirada. Pensa de repente que as mãos do pai, carregadas de anéis, se levantaram ali para tirar os papéis das prateleiras, e as vê de cera, brancas, gordas, com os pelos ruivos no dorso dos dedos, e vê os olhos dele, de vidro, azuis e maliciosos. Para apagar o espectro, impõe-se o volume do próprio corpo vestido de preto, entrado ali para roubar; as mãos abrindo as portas lhe dão um arrepio. Começa a puxar os maços de papéis aos montes e a jogá-los na mesa; os braços doem, e não sabe se deve rir ou chorar: não é uma brincadeira, roubar a si mesmo? Vai praticar um ato, mas era ele? Volta-lhe a ideia de que entraram ali todos os estranhos inseparáveis dele, e de que comete o furto com mãos que não são suas. Olha-as: eram as que conhecia, mas pertenciam só a ele? Esconde-as nas costas e fecha os olhos; sente uma vontade que se perde fora de qualquer consistência, e tem tal horror que quase desmaia. Abre os olhos e diz que o faz "sem nenhuma lógica", e procura. Quando o cansaço o vence, senta-se sobre a cadeira com uma pilha de papéis nos joelhos e deseja morrer; ouve de longe o cacarejar de uma galinha que botou um ovo, que o leva a um sítio seu onde não vai desde a infância, e o ranger da veneziana. Duas batidas à porta o sobressaltam; grita que não o amolem e recomeça, com fúria. Quando encontra o maço da casa, sente-se livre e exulta; mas passa tão depressa da exultação à suspeita que se vê, e se arrepia: ladrão, roubava de verdade. Encosta-se à porta, desabotoa o colete e a camisa e enfia o maço no peito. Uma barata sai de baixo do armário; ele a esmaga com o pé. Põe os outros papéis de qualquer jeito, sai; Quantorzo, Firbo e os empregados já se foram, só o velho guarda ficou, e Moscarda lhe diz que limpe o chão lá dentro porque esmagou uma barata. Corre ao cartório de Stampa.

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Capítulo VII: Despejo, doação e a multidão

Resumo do capítulo

Moscarda ainda tem nos ouvidos o jorro d'água de uma calha diante do casebre de Marco di Dio, no beco já escuro, e vê a gente parada junto aos muros para assistir ao despejo: o monte de trastes miseráveis exposto à chuva, os gritos de Diamante, que de vez em quando vem à janela soltar imprecações, os moleques descalços que dançam em volta. Os comentários correm: mais nojento que o pai, debaixo de chuva, perseguir assim um pobre louco, usurário. Moscarda está ali de propósito, protegido por um delegado e dois guardas, e sorri, um pouco pálido, com uma volúpia que lhe suspende as vísceras; de vez em quando se prende com os olhos ao arquitrave da porta do casebre. Por pouco esse prazer de se alienar não lhe custa caro: Marco di Dio, ao sair com a mulher e vê-lo, lança contra ele o velho macete de entalhador, e só não o mata porque o delegado o puxa a tempo. A multidão protege Marco e está a ponto de se voltar contra Moscarda, quando um homenzinho de preto, malvestido e de aspecto feroz, jovem do cartório de Stampa, sobe numa mesinha entre os trastes e grita que vem avisar Marco de uma doação: "Este usurário Moscarda..." Moscarda treme, à espera da transfiguração aos olhos de todos, mas o frêmito é cortado por assobios e injúrias, pois ninguém entende que a doação foi dele depois da crueldade do despejo. Instintivamente levanta os braços, vê-se em atitude de implorar e os baixa. O jovem confirma: uma casa na Via dei Santi, número 15, e dez mil liras para um laboratório. A multidão se pasma. Moscarda não vê o que segue: esconde-se no corredor da casa, à espera de Marco. Ele chega, seguido da multidão, abre a porta com a chave do notário, vê Moscarda encostado à parede como um espectro e salta sobre ele com um estertor de bicho, feito de soluços e risos, batendo-o contra a parede e gritando: "Louco! Louco! Louco!" Era o mesmo grito da multidão diante da porta.

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