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Um, Nenhum e Cem Mil · Livro VIII

Sem nome e sem conclusão

Resumo do livro

O último livro é o mais curto da obra, e nele Vitangelo Moscarda quase não age e passa a ser agido: interrogado por um juiz, protegido por um cônego, exibido num tribunal, abrigado num asilo de mendigos. Os três primeiros capítulos mostram como a sociedade absorve o experimento: o juiz o trata como paciente incurável, Sclepis o converte em penitente exemplar, a cidade lê a entrega de tudo como arrependimento. O quarto capítulo, em que Vitangelo fala sem interlocutor à vista, desmonta essas leituras: ele não se arrepende, não tem mais nome e deixa que a árvore, a nuvem e o vento falem por ele. O livro leva ao limite a pergunta do título: ser "um" para todos exige uma forma, e Vitangelo escolhe nenhuma. O leitor tem de decidir se isso é libertação ou desaparecimento.

Capítulo I: O juiz e a versão do acidente

Resumo do capítulo

O juiz encarregado de instruir o processo contra Anna Rosa, honesto por natureza e por princípio, quis ser escrupulosíssimo e perder meses e meses antes de chegar ao chamado esclarecimento dos fatos. Vitangelo não pôde responder ao primeiro interrogatório, logo depois de ser levado do quartinho de Anna Rosa para o hospital; quando os médicos lhe permitiram abrir a boca, a primeira resposta que deu, em vez de embaraçar quem o interrogava, o embaraçou. Foi tão fulminante em Anna Rosa a passagem daquela piedade, com que lhe estendera os braços do leito, ao impulso instintivo do ato violento, que ele, já cego ao sentir junto de si o calor da pessoa dela, nem teve tempo de perceber como ela sacara o revólver de sob o travesseiro. Como não lhe parecia admissível que ela, depois de atraí-lo, quisesse matá-lo, deu com a mais sincera franqueza a explicação que lhe parecia mais provável: que o ferimento dele, como o dela no pé, fora acidental, por causa do revólver sob o travesseiro, que ele devia ter batido e feito disparar ao tentar levantar a doente que lhe pedira para sentá-la na cama. A mentira, para ele obrigatória, estava só na última parte da resposta; a quem o interrogava, toda ela soou tão descarada que ele foi aspramente repreendido. Disseram-lhe que a justiça já possuía a confissão explícita da feridora, e ele, no atordoamento, mostrou a mais viva curiosidade em saber que razão ela dera: a resposta foi uma fragorosa bufada que quase lhe lavou o rosto, "Ah, o senhor só queria sentá-la na cama?". A justiça já devia ter também, supõe ele, um primeiro depoimento da mulher, que, com aquela prova, teria podido testemunhar em perfeita consciência a antiga data do seu amor por Anna Rosa. A justiça teria adquirido que Anna Rosa tentara matá-lo para se defender de uma agressão brutal, se ela mesma não tivesse jurado ao juiz que agressão nenhuma houve, e que o que a levara àquela loucura fora o fascínio de que ele falara. O juiz, insatisfeito com o resumo que ela lhe pôde dar das considerações de Vitangelo sobre a vida, decidiu vir pessoalmente falar com ele.

Análise

Vitangelo defende a versão do acidente por sinceridade e não por esperteza:

Per me la bugia (bugia doverosa) era soltanto in quest’ultima parte della risposta; a chi m’interrogava apparve invece tutta quanta così sfacciata, che ne fui aspramente rimbrottato., para mim a mentira (mentira obrigatória) estava apenas nesta última parte da resposta; a quem me interrogava, ao contrário, ela pareceu toda ela tão descarada que fui asperamente repreendido.

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Capítulo II: A coberta verde e o juiz

Resumo do capítulo

Vitangelo foi trazido do hospital para casa numa maca e, já convalescente, deixou o leito e passa os dias numa poltrona junto à janela, com uma coberta de lã verde sobre as pernas. Sente-se embriagado, a vaguear num vazio tranquilo e suave de sonho; a primavera voltou, os primeiros calores do sol lhe dão um langor de deleite inefável, e ele acaricia com a ponta dos dedos a penugem verde da coberta. Vê nela o campo, como se fosse uma imensa extensão de trigo, e se perde ali, distendendo-se e se abandonando, com uma distância tão esquecida que quase sente angústia, uma doce angústia. Pergunta se podia acontecer visita mais inoportuna do que a do juiz. Este tem algo de toupeira, com as duas mãozinhas sempre erguidas junto à boca, os olhos pequenos e plúmbeos quase sem visão, o corpinho magro e mal vestido, um ombro mais alto que o outro; anda de través, como os cães, embora todos digam que, moralmente, ninguém sabe andar mais direito. Ao ser perguntado pelas suas "considerações sobre a vida", Vitangelo diz que não é possível repeti-las e mostra a coberta, passando a mão por cima: se as repetisse, o juiz não o mataria, mataria a si mesmo, de remorso por ter exercido esse ofício por tantos anos. Fala-lhe da grande correnteza que o juiz canalizou bem nos afetos, nos deveres e nos hábitos, mas que vem em momentos de cheia, transborda e arrasa tudo, e da qual ele mesmo já está submerso e longe. O juiz fica atordoado, olhando-o como se olha um doente incurável. Para tirá-lo daquela atitude penosa, Vitangelo sorri, levanta a coberta com as duas mãos e a mostra mais uma vez, perguntando com graça se não lhe parece bela, assim verde, aquela coberta de lã.

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Capítulo III: A entrega de tudo

Resumo do capítulo

Vitangelo se consola com a ideia de que tudo aquilo facilitará a absolvição de Anna Rosa. Mas o cônego Sclepis aparece várias vezes, com um grande tremor de todas as suas cartilagens, para lhe dizer que ele tornou e continua tornando mais difícil a tarefa de salvá-lo. Como não se dar conta do escândalo enorme que provocou com aquela aventura, justo quando deveria provar que tem a cabeça no lugar? Não demonstrou que a mulher tinha razão ao fugir para a casa do pai, pela indignidade do comportamento dele? Ele a traía, e só para se fazer belo aos olhos daquela moça exaltada protestara que não queria mais ser chamado de usurário; e, por essa paixão culpada, que por pouco não lhe custou a vida, quis e insiste em arruinar a si e aos outros. Ante a sublevação de todos, a Sclepis só resta reconhecer as culpas dele e ver a salvação na confissão aberta delas; mas, para que seja segura, Vitangelo precisa mostrar uma necessidade tão viva de heroica emenda que dê ao cônego a força de pedir aos outros o sacrifício dos seus interesses. Vitangelo só diz que sim com a cabeça, sem se forçar a ver até onde aquela argumentação dialética se torna convicção sincera em Sclepis. Chega-se à decisão de que ele dará um exemplo solene de arrependimento e abnegação, fazendo doação de tudo, até da casa e de todo outro bem, para fundar com o que lhe couber da liquidação do banco um asilo de mendicância com cozinha econômica, e de que ele mesmo viverá ali como qualquer mendigo. O que mais o queima é que essa entrega total seja interpretada como arrependimento. Ele fica calado, admirando o velho prelado diáfano, que sabe querer tanto e exerce a vontade com arte tão fina, não por proveito próprio, nem tanto para fazer o bem aos outros, mas pelo mérito que viria àquela casa de Deus, de que é servidor fidelíssimo. Mas há nele orgulho demais do seu poder e do seu saber; querer ser um para si, distinto dos outros, ainda é querer ser alguém. Vitangelo o admira e sente pena.

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Capítulo IV: Sem nome, sem conclusão

Resumo do capítulo

Anna Rosa devia ser absolvida, e Vitangelo acredita que a absolvição se deveu em parte à hilaridade que se espalhou pela sala do tribunal quando, chamado a depor, o viram aparecer com o boné, os tamancos e o camisão azul do asilo. Nunca mais se olhou num espelho e nem lhe passa pela cabeça querer saber o que aconteceu com o seu rosto: o que ele tinha para os outros deve ter parecido muito mudado e de modo bastante cômico, a julgar pelo espanto e pelas risadas com que foi recebido. Ainda assim todos quiseram chamá-lo de Moscarda, embora o nome tivesse agora para cada um um significado tão diferente que poderiam ter poupado aquele pobre desmemoriado, barbudo e sorridente, da pena de se voltar ao nome como se lhe pertencesse. Declara então que não há nome, que não há lembrança, hoje, do nome de ontem; que cada um grave o nome que ele levou entre os homens como epitáfio na testa da imagem com que lhe apareceu, e a deixe em paz. O nome convém aos mortos, a quem concluiu; ele está vivo e não conclui. Diz que é esta árvore, a nuvem, amanhã livro ou vento. O asilo fica no campo, num lugar ameníssimo, e ele sai todo dia ao alvorecer para conservar o espírito fresco de aurora, com as coisas como se descobrem, antes que o sol lhes seque o hálito úmido. Descreve as nuvens de água sobre os montes lívidos, o capim, o burrico que passou a noite ao sereno, os sulcos de carroça entre sebes negras. Desvia logo os olhos para não ver nada se deter na sua aparência e morrer, e só assim pode viver agora: renascendo instante a instante, impedindo que o pensamento volte a lhe refazer o vazio das vãs construções. A cidade está longe; de vez em quando chega o som dos sinos, que ele agora ouve não mais dentro de si, mas fora, tocando por si. Pensar na morte, rezar: há quem ainda tenha essa necessidade, e os sinos falam por eles. Ele não, porque morre a cada instante e renasce novo e sem lembranças.

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