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Um, Nenhum e Cem Mil · Livro VII

O revólver e o bispo

Resumo do livro

Vitangelo Moscarda, sozinho depois da partida da mulher, é chamado pela amiga dela, Anna Rosa, e o que parecia uma mediação conjugal vira um livro cheio de acontecimentos: um revólver que dispara numa abadia, a descoberta de que a mulher e o sogro já reuniram provas para interditá-lo, uma visita ao bispo para pedir proteção, um louco que, num terraço, quer voar com a coberta aberta ao vento e, no fim, o tiro que a própria Anna Rosa dá nele, na cama. Entre os acontecimentos, a tese de Vitangelo ganha duas faces novas. Uma é religiosa: o ponto vital que o riso de Dida feriu era Deus, e Deus tem uma casa que se pode pedir em socorro. A outra é amorosa: para Dida e para Anna Rosa, ele já era alguém que sente simpatia por Anna Rosa, e essa realidade que os outros lhe dão acaba sendo vivida por ele. O livro deixa a pergunta de o que Vitangelo oferece quando se oferece a Anna Rosa, e por que isso a leva a atirar.

Capítulo I: O bilhete de Anna Rosa

Resumo do capítulo

Na manhã seguinte à visita do sogro, Vitangelo recebe um bilhetinho entregue em mãos, que o convida a ir logo à casa de Anna Rosa, a amiguinha de Dida que ele nomeou uma ou duas vezes no começo, de passagem. Esperava um mediador da reconciliação, mas vindo do sogro e dos outros sócios do banco, não direto da mulher, já que o único obstáculo era a sua intenção de liquidar o banco; entre ele e Dida quase nada acontecera, e bastaria dizer sinceramente que se arrependia de tê-la sacudido e jogado na poltrona para que a paz se fizesse. Que Anna Rosa tivesse assumido o encargo de fazê-lo recuar, pondo isso como condição para a volta da mulher, não lhe parece admissível. Sabe por Dida que a amiga recusou vários casamentos ditos vantajosos por desprezo ao dinheiro, o que lhe valeu a reprovação das pessoas sensatas e a de Dida, que, casando com ele, filho de um usurário, deixou entender às amigas que o casamento era "vantajoso". Mais plausível seria o contrário: que Dida a tivesse procurado para avisá-lo de que o pai, de acordo com os sócios, a retinha em casa e a impedia de voltar. Conhecendo bem a mulher, também isso lhe parece inadmissível. Vai ao convite com grande curiosidade, sem conseguir adivinhar a razão.

Análise

Vitangelo pesa as razões possíveis de Anna Rosa e descarta a mais óbvia:

Per questo “vantaggio„ da salvare Anna Rosa non poteva esser dunque l’avvocato più adatto., para essa “vantagem” a salvar, Anna Rosa não podia ser, portanto, o advogado mais adequado.

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Capítulo II: O aviso da Abadia

Resumo do capítulo

Vitangelo conhecia pouco Anna Rosa: vira-a várias vezes em casa, sempre se mantendo longe, mais por instinto que de propósito, das amigas da mulher, e certos meios-sorrisos surpreendidos nos lábios dela lhe pareceram dirigidos à imagem tola que o Gengè de Dida lhe fizera nascer na mente, de modo que nunca teve vontade de conversar. Nunca estivera na casa dela. Órfã de pai e mãe, mora com uma velha tia na casa que parece esmagada pelos muros altíssimos da Badìa Grande, de antigo castelo, com janelas de grades onde, ao pôr do sol, se debruçam as poucas freiras velhas que restam. Uma delas, a menos velha, é também tia de Anna Rosa, irmã do pai, e era, dizem, meio louca; mas é pouco o que se precisa para enlouquecer uma mulher fechando-a num mosteiro. Não encontra Anna Rosa em casa. A velha criada que levara o bilhete, falando misteriosamente pelo olho mágico da porta sem abrir, diz que a patroazinha está na Abadia, com a tia monja, e que o procure lá, pedindo à freira porteira para ser introduzido no parlatório de Suor Celestina. O mistério o espanta e, em vez de aumentar a curiosidade, o faz hesitar. Qualquer nexo entre a sua fútil desventura conjugal e o convite lhe parece rompido, e fica apreensivo, como diante de uma complicação imprevista. O narrador então interrompe para declarar, como já fez diante dos juízes, que a aventura que se seguiu quase lhe custou a vida, mas que Anna Rosa não teve nenhuma culpa.

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Capítulo III: O revólver entre as flores

Resumo do capítulo

Vitangelo sobe à Abadia por uma das ruelas em declive da velha Richieri, empestadas de dia pelo fedor do lixo apodrecido. A Badìa, antigo castelo feudal dos Chiaramonte, com o portão baixo carcomido, o pátio amplo com a cisterna, a escadaria gasta e sombria, o corredor comprido de tijolos roídos, guarda tantos casos que agora, na lenta agonia das poucas freiras que vagam perdidas, parece não saber mais de si. A freira porteira abre a porta de um parlatório escuro, onde só se distingue a grade ao fundo, e manda tocar a campainha para chamar Suor Celestina. Uma voz fraca, vinda da grade, convida-o a sentar, porque Anna Rosa logo subirá da horta; e a voz o fulmina como se de repente um sol se acendesse na horta que ele não vê, e no meio do verde lhe surge a figura de Anna Rosa como nunca a viu, um frêmito de graça e de malícia. É um relâmpago. Quando volta a escuridão, vê a grade, uma mesinha, duas cadeiras, e não há mais ninguém; a voz devia ser de uma velha. Anna Rosa abre de repente a porta e o chama para o corredor: o rosto em fogo, os cabelos em desordem, os olhos faiscantes, a blusa de lã desabotoada no peito, os braços cheios de flores e um ramo de hera caindo por um ombro. Ela corre para o fundo do corredor e sobe o degrau sob o janelão e, ao subir, deixa cair a bolsinha: um estampido seguido de um grito altíssimo faz ressoar o corredor. Vitangelo ainda a ampara quando ela desaba sobre ele. As freiras velhas acodem piando, com um terror que ele não entende: não é pela ferida, é porque vai chegar Monsenhor. Anna Rosa grita "o revólver, o revólver!", que quer de volta, por ser lembrança do pai. Ele compreende que na bolsa havia um revólver que disparou e feriu o pé dela, mas não por que o trazia consigo naquela manhã, e não lhe passa pela cabeça que fosse por causa dele. Como ninguém ajuda, ele a carrega nos braços para fora da Abadia, ruela abaixo, até a casa dela.

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Capítulo IV: A explicação de Anna Rosa

Resumo do capítulo

A notícia do tiro na Abadia, e de Vitangelo saindo às pressas com Anna Rosa ferida nos braços, corre por Richieri e dá pretexto a maledicências que a ele parecem absurdas, até descobrir que podem ser tidas por verdadeiras, inclusive pela mulher que ele carrega. Dida meteu na cabeça que o Gengè nutria uma simpatia ardente por Anna Rosa, confiou isso, sorrindo, à amiga e deu como razão de ele a evitar o medo de se apaixonar; Anna Rosa, por sua vez, leu os olhares de passagem dele como os de um infelicíssimo Senhor Gengè, que sofria por ser amado assim pela própria mulher. Vitangelo não tem como desmentir: a realidade de Gengè é de Dida, que a deu. Depois de levá-la para casa, chamar médico e enfermeira e sentar-se aos pés do leito, sente que a simpatia que lhe atribuem é também verdadeira. Anna Rosa explica o revólver: achou-o no colete do pai, morto seis anos antes, pequeno, de cabo de madrepérola, e em momentos de sobressalto teve a tentação de experimentá-lo contra si; que tenha mordido o pé e não a têmpora a perturba estranhamente, e ela repreende a arma, como a uma menina: "Má!". Explica também o convite: sabia que Monsenhor Partanna visitaria as freiras naquela manhã e queria que Vitangelo falasse com o bispo a tempo de impedir a interdição, para a qual Firbo, Quantorzo, o pai de Dida e a própria Dida reuniram provas e testemunhas, entre elas Turolla e Marco di Dio. À objeção de que a doação cairia se ele fosse declarado louco, ela ri: prometeram a Marco di Dio que não perderá a casa. Aprova as loucuras dele, a maior de todas a de largar o banco e uma mulher que sempre lhe foi inimiga, e conta que há tempo tenta fazer Dida entender que ele não é o tolo que ela imagina. Vitangelo vê uma Dida tão diferente da sua e igualmente verdadeira, e sente o horror da descoberta: a intimidade dos dois exposta à derrisão, outra Dida, uma Dida verdadeiramente inimiga. Mas tem certeza de que, com o Gengè, ela não fingia. Ele não devia ter revelado o segredo da descoberta a Anna Rosa, mas foi tentado pelo que ela contou, e antes de dizer a loucura que isso causou conta a visita ao bispo, a que ela o empurra com pressa.

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Capítulo V: O Deus de dentro e o de fora

Resumo do capítulo

No tempo em que levava Bibi para passear, as igrejas de Richieri eram o desespero de Vitangelo: a cadela queria entrar a todo custo, e diante das broncas se sentava, erguia uma das patinhas, espirrava e ficava a olhá-lo, com uma orelha em pé e a outra caída, convencida de que a uma cachorrinha tão bonita não podia ser negado entrar numa igreja onde não havia ninguém. Ele lhe explica que lá há "o mais respeitável dos sentimentos humanos" e que os homens precisam construir uma casa também para os seus sentimentos. A ele sempre bastou ter dentro, ao seu modo, o sentimento de Deus; por respeito ao que os outros têm, nunca deixou Bibi entrar numa igreja, e ele mesmo não entra. Daí tira uma conclusão: o ponto vital que se sentiu ferido quando a mulher riu era Deus, sem dúvida: Deus que se sentira ferido nele, que nele já não podia tolerar ser tido por usurário em Richieri. Mas ir dizer isso a Quantorzo, a Firbo e aos sócios do banco lhe daria mais uma prova de loucura. O Deus de dentro, que a todos pareceria agora louco, deveria então visitar, o mais contritamente possível, e pedir ajuda e proteção ao sapientíssimo Deus de fora, o que tem a casa, os servidores zelosos e todos os poderes constituídos no mundo. A esse, não há perigo de que Firbo ou Quantorzo ousem chamar de louco.

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Capítulo VI: O bispo a pé

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Vitangelo vai ao Palácio Episcopal falar com Monsenhor Partanna. Dizia-se em Richieri que ele fora eleito bispo por instâncias e maus ofícios de poderosos prelados em Roma; o fato é que, havia alguns anos à frente da diocese, ainda não conquistara a simpatia nem a confiança de ninguém. A cidade estava acostumada ao fausto e à generosa munificência do antecessor, o falecido Monsenhor Vivaldi, e todos sentiram o coração apertar quando viram descer a pé do palácio o esqueleto embuçado do novo bispo, entre dois secretários. Um bispo a pé? Desde que o palácio se erguia como uma fortaleza sombria no alto da cidade, todos os bispos haviam descido numa bela carruagem de parelha, com galões vermelhos e plumas. Monsenhor Partanna, ao tomar posse, disse que bispado é nome de obra e não de honra; despediu criados, cozinheiro, cocheiro e familiares, aposentou a carruagem e inaugurou a mais estrita economia, apesar de a diocese de Richieri ser das mais ricas da Itália; faz as visitas pastorais com carruagens de aluguel, burros e mulas. As freiras dos cinco mosteiros da cidade, menos as decrépitas da Abadia Grande, o odeiam pelas ordens cruéis: não mais fazer ou vender doces e licores, não mais bordar, só meia, e não mais ter confessor particular. Mais graves ainda foram as ordens para cônegos e beneficiados: a mais rígida observância de todos os deveres. Um bispo assim é incômodo para os que quiseram pôr fora de si o sentimento de Deus, construindo-lhe uma casa. Para Vitangelo, é o melhor que podia desejar, porque o antecessor, benquisto e acomodatício, teria achado o modo de arranjar tudo, salvando o banco e a consciência, para contentá-lo e também a Firbo, a Quantorzo e aos outros.

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Capítulo VII: O louco no terraço e Sclepis

Resumo do capítulo

Monsenhor Partanna o recebe na vasta sala da antiga chancelaria, de teto afrescado coberto de pó, paredes cheias de retratos de prelados sujos de pó e mofo, com dois janelões sacudidos pelo vento furioso de Richieri. Durante a conversa, Vitangelo vê, no terraço de uma velha casa em frente, um homem que fugira da cama com a louca ideia de provar a volúpia do voo: exposto ao vento, faz a coberta vermelha de lã voar em volta do corpo magro, com os braços em cruz, e ri, ri, com um brilho de lágrimas nos olhos, enquanto os cabelos ruivos voam como chamas. Interrompe o discurso do bispo sobre os escrúpulos de consciência e aponta o homem; Monsenhor diz, com um sorriso que faz as vezes de suspiro: "Ah, sim: é um pobre louco que está ali". Vitangelo tem a tentação de responder que o louco que quer voar é ele; contém-se, e pergunta se não há perigo de que se jogue. "Não, é assim há tantos anos. Inofensivo, inofensivo." Escapa-lhe então, sem querer: "Como eu." Monsenhor sobressalta-se, e Vitangelo, com uma cara plácida, explica que quer dizer inofensivo na opinião de Firbo, Quantorzo, do sogro e da mulher e de todos os que o querem interditar. O bispo retoma os escrúpulos de consciência, que lhe parecem a ideia mais própria ao caso e a única a opor com a autoridade espiritual às manobras dos inimigos. Vitangelo não pode explicar que o seu não é caso de consciência: o Deus que nele quer reaver o dinheiro para que não o chamem de usurário é inimigo de todas as construções, e o Deus a quem foi pedir ajuda é o que constrói, e só o ajudará se o dinheiro servir à construção de uma casa para outro sentimento respeitável, a caridade. No fim, Monsenhor pergunta com ar solene se ele não quer isso, e ele tem de responder que quer. O bispo toca um velho sininho de prata, chama um jovem clérigo e manda que venha o cônego Dom Antonio Sclepis, diretor do Colégio dos Oblatos. Esse, alto, magro, quase diáfano, de mãos trêmulas e voz descorada, entra com pressa e confiança, bate no ombro de Vitangelo, trata-o por tu: o sofrimento o salva, que seja seu cilício o pensamento do pai, que fez tanto mal; deixe com ele o combate com Firbo e Quantorzo. Vitangelo sai certo de que vencerá a interdição, mas lançado num mar de incertezas sobre o que será dele, despojado de tudo.

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Capítulo VIII: Esperando

Resumo do capítulo

Para Vitangelo, por ora, só resta Anna Rosa e a companhia que ela quer que ele lhe faça durante a enfermidade. Deitada, com o pé enfaixado, ela diz que não se levantará mais se ficar manca; a palidez lhe deu uma graça nova, e o cheiro dos cabelos a sufoca: pede a ele que os corte, ri do embaraço dele e cobre o rosto com o lençol. Ele percebe nela a impaciência com tudo o que dura, e que só do corpo ela se compraz, mirando-se no espelho e provando atitudes como atriz, num jogo de coqueteria ou provocação. Uma manhã, quando ela estuda no espelhinho um sorriso piedoso e terno e depois o refaz para ele, Vitangelo reage: diz que não é o espelho dela. Ela mostra uma gaveta de fotografias; ele diz que são todas mortas, e explica: para se ver, a vida precisa se deter, posar, virar estátua; a vida que se move nunca pode ver a si mesma. Ela só pode se conhecer posando, e conhecer-se é morrer; fica tanto tempo diante dos espelhos porque não vive. Ela pensa longo tempo, e para os dois se abre a visão da solidão irremediável. A pedido dela, ele continua falando e descreve a moça numa janela alta, pequena aos olhos de quem passa por baixo, e ela se vê e ri. Vitangelo percebe que a incerteza dele a atrai e a diverte: está certa de que ele chegará às últimas consequências como um perfeito louco e orgulhosa de ter intuído nele um homem fora do comum, chamou-o para dar a Dida essa prova. Quando da diversão passa a uma grande piedade, em resposta ao que lê nos olhos dele, ele lhe diz palavras de que já não se lembra, nas quais ela sente a ânsia de doar toda a vida que há nele para ser um como ela quisesse e, para si, de fato ninguém. Ela estende os braços, atrai-o. Pouco depois ele rola da cama, cego, ferido no peito pelo pequeno revólver que ela guardava sob o travesseiro. As razões que ela dará em defesa devem ser verdadeiras: foi levada a atirar pelo horror instintivo e súbito do ato a que se sentia arrastada pelo fascínio do que ele lhe dissera naqueles dias.

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