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Um, Nenhum e Cem Mil · Livro III

O pai e os cem mil

Resumo do livro

No Livro III o que os outros veem em Vitangelo Moscarda deixa de ser o nariz e passa a ser tudo o que ele não escolheu: o sobrenome, que ele ouve como zumbido de mosca, o corpo herdado, a família, o ócio que julgava seu e que era dinheiro do pai. A cena central é a visão do pai: o homem que sorria com ternura vira, visto de fora, um estranho de ouro demais nos dedos e de um esgar frio, e o título que o filho dava ao pai no colégio, banqueiro, é na cidade o de usurário. Dida ri quando ele pergunta qual é a sua profissão, e o riso desfaz o horror sem lhe devolver nada: para ela ele é o Gengè. No meio do Livro vem um longo parêntese sobre fatos, formas e atos como prisões, onde Moscarda pede ao leitor que dê a cinco pessoas a mesma casa e o mesmo homem para ver sair cinco imbecis diferentes. O último capítulo vira o espelho para o leitor: ao receber uma segunda visita, ele manda embora o velho amigo e, sem perceber, a si mesmo.

Capítulo I: As loucuras necessárias

Resumo do capítulo

Moscarda avisa que, antes de seguir, quer contar em resumo as loucuras que começou a fazer para descobrir os outros Moscarda que viviam nos conhecidos mais próximos e destruí-los um a um. Eram loucuras por força: sem nunca ter construído para si um Moscarda próprio, não podia agir com coerência lógica, e tinha de se mostrar, a cada vez, o contrário do que era ou supunha ser para este e aquele conhecido. Mas algum aspecto, sentido e valor ele devia ter para os outros, além das feições que não via. Pensar nisso e sentir um ímpeto de feroz rebelião foi uma coisa só.

Análise

Pensarci e sentire un impeto di feroce ribellione fu tutt’uno., pensar nisso e sentir um ímpeto de feroz rebelião foi uma coisa só.

A frase fecha o capítulo no ponto em que a descoberta vira ação. O que move Moscarda não é curiosidade: é rebelião diante de aspectos dele que ele nunca escolheu e que os outros veem. "Ímpeto" sugere que a decisão não passa por raciocínio. Duas leituras: coragem de quem recusa a imagem recebida, ou raiva de quem não suporta ser avaliado.

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Capítulo II: O nome, o corpo, as condições

Resumo do capítulo

O nome vem primeiro: feio até a crueldade, Moscarda, de mosca, com o despeito do seu zumbido áspero. O espírito dele não tinha nome nem estado civil, tinha dentro um mundo, e ele não carimbava com o nome as coisas que via; mas para os outros, fora, no mundo deles, ele era um pedaço determinado de realidade, não sua, chamado Moscarda. Falando com um amigo, nada de estranho; só que o tom que a voz do amigo tinha para ele não era o que o amigo conhecia, e o aspecto do amigo era o que ele lhe dava, olhando-o de fora. Do mesmo modo, para o amigo, Moscarda era um corpo impenetrável, representado com traços que para ele nada significavam, e Moscarda era também a sua sombra, se o viam comer, fumar, passear, assoar o nariz. O nome, por odioso que fosse, podia deixar de lado, acostumado a ele desde o nascimento; havia em Richieri um sardo chamado Porcu, que respondia limpo e sorridente a quem o chamava de senhor Porcu. Deixa de lado também as feições. Mas as condições, que não dependiam dele? O nascimento, a família: nunca as pusera diante de si para avaliá-las como os outros, cada um com a sua balança, a peso de inveja, de ódio ou de desdém. Julgara-se um homem na vida, e basta, como se tivesse feito a si mesmo; mas o corpo, o nome e a vida lhe foram dados por outros, e muitas outras coisas, nas quais nunca pensara, lhe vinham agora com uma imagem estranha, inimiga. A história da família, da qual era o último, estava nele e no seu corpo, e os outros reconheciam isso no jeito dele de andar, de rir, de cumprimentar. Até o ócio que julgava seu não era seu para os outros: dependia da riqueza do pai, e era um ócio feroz, porque o pai... Ah, que descoberta, o pai!

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Capítulo III: O pai aparece nas raízes

Resumo do capítulo

O pai lhe aparece, evocado: alto, gordo, calvo, e nos olhos azulados e quase vítreos o sorriso de sempre, de uma ternura estranha, em parte compaixão, em parte zombaria, mas afetuosa, como se lhe agradasse que o filho a merecesse, tratando-o como um luxo de bondade que podia permitir-se impunemente. Só que esse sorriso, na barba ruiva e espessa, é agora um esgar mudo e frio, escondido, a que Moscarda nunca atentara, e a ternura é horrivelmente maliciosa. O olhar o prende, fascinado, para impedi-lo de pensar nessas coisas. O pai fala: o filho era e continua sendo um tolo, um pobre ingênuo que vai atrás dos pensamentos sem fixar nenhum, e por isso ele lhe quis bem. E as mãos? Os pelos ruivos, os anéis (muitos?), o alfinete grosso da gravata, a corrente do relógio, ouro demais? A angústia do filho se desvia dos olhos para as veias azuladas na testa pálida e o crânio luzidio entre os cabelos ruivos, "ruivos como os meus", e o crânio vai sumindo como engolido pelo vazio. No vazio fica um silêncio aterrorizado, e nele Moscarda sente o pavor das necessidades cegas: a prisão do tempo, o nascer agora e não antes nem depois, o nome e o corpo que nos são dados, a cadeia das causas, o sêmen lançado por aquele homem sem querer, ele mesmo fruto involuntário, preso a esse ramo, expresso por essas raízes.

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Capítulo IV: O filho vê o pai de fora

Resumo do capítulo

Moscarda vê o pai como nunca o vira: de fora, na sua vida, não como o pai era para si, que ele nunca poderia saber, mas como um estranho, na realidade que os outros podiam lhe dar. Passa então do "eu" ao "nós" e descreve o que deve acontecer a todos os filhos: notar algo de obsceno que mortifica onde o pai deveria ser respeitado, perceber que os outros não dão a esse pai a realidade que nós damos, descobrir que ele vive como homem fora de nós, nas suas relações, quando por um momento esquecem que estamos presentes e deixam entrever o homem que conhecem, um outro. Logo o pai faz um gesto, com a mão ou com os olhos, de que estamos ali, e esse pequeno gesto furtivo cava em nós um abismo: o que estava tão perto salta longe, entrevisto como um estranho. A vida parece rasgada por inteiro, exceto num ponto pelo qual continua presa àquele homem, e esse ponto é vergonhoso: o nascimento, caso comum, talvez previsto, mas involuntário na vida daquele estranho, prova de um gesto, fruto de um ato. Também nos olhos do pai, que se cruzaram com os nossos, nota-se um despeito agudo: somos para ele o que ele, no desafogo de uma necessidade ou de um prazer passageiro, não esperava, o sêmen lançado, agora de pé, com dois olhos de lesma que olham às apalpadelas, julgam e o impedem de ser ainda livre, outro mesmo para nós.

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Capítulo V: Banqueiro em casa, usurário na rua

Resumo do capítulo

Moscarda nunca separara o pai de si assim. Sempre o pensara como pai, e pouco, pois a mãe morreu cedo e ele foi posto em um colégio longe de Richieri, depois em outro, depois em um terceiro, onde ficou até os dezoito anos, e passou seis anos na universidade de um curso a outro sem proveito; por isso foi chamado de volta a Richieri e logo, não sabe se em prêmio ou castigo, casado. Dois anos depois o pai morreu sem lhe deixar nada mais vivo do que aquele sorriso de ternura, em parte compaixão, em parte zombaria. O que fora o pai para si mesmo? Morria agora de vez. E o que fora para os outros? Tão pouco para ele. O sorriso, entende agora, lhe vinha também da realidade que os outros davam ao pai e que o pai suspeitava. No colégio, quando os colegas perguntavam o que era o pai, respondia: banqueiro, porque para ele o pai era banqueiro. Pergunta ao leitor o que aconteceria se o seu pai fosse carrasco, e imagina o amor de um pai assim por um filho, a delicadeza trêmula das mãos grossas abotoando-lhe a camisinha, e no dia seguinte, ao alvorecer, as mesmas mãos no cadafalso. Também um banqueiro passa de dez a vinte e de vinte a quarenta por cento, à medida que cresce na cidade, com a desestima dos outros, a fama de usura, que pesará amanhã como vergonha sobre o filho que ainda não sabe e se distrai com estranhos pensamentos, pobre luxo de bondade, que bem merecia aquele sorriso.

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Capítulo VI: Dida ri: qual é a profissão dele?

Resumo do capítulo

Com os olhos cheios do horror da descoberta, velado por um abatimento que lhe punha nos lábios um sorriso vão, Vitangelo Moscarda se apresenta a Dida, que numa sala luminosa arruma os vestidos de primavera no armário branco e dourado. Com esforço, pergunta se ela sabe qual é a profissão dele. Dida, com um cabide na mão, olha-o primeiro como se não o reconhecesse e repete, atordoada: a sua profissão? Ele insiste, o que faço eu?, e ela ri alto: o que está dizendo, Gengè? O riso destroça o horror dele. Entende então que é usurário para os outros e um tolo para Dida, Gengè na alma e diante dos olhos da mulher, e quem sabe quantos outros Gengè nos olhos da gente de Richieri. Se pode não reconhecer como sua essa realidade desprezível, tem de reconhecer que, mesmo se desse uma a si mesmo, ela não seria mais verdadeira do que a dos outros; e o corpo diante de Dida nem lhe parecia seu, pois o Gengè dela o tomara. Diz baixinho "luxo de bondade", e ela se aproxima, o toma pelos braços e sopra nos olhos dele como para apagar um olhar que já não era de Gengè, o qual sabia, como ela, que devia fingir não conhecer como na cidade se traduzia o ofício do pai. Moscarda se pergunta se não era pior do que o pai: o pai ao menos trabalhava, e ele falava do nariz e do outro lado da lua enquanto o banco, nas mãos dos dois amigos Firbo e Quantorzo, prosperava e ele só assinava. Não o tinham matado porque até ali vivia como cego nas condições em que fora posto, e era natural aos outros que fosse assim. Todos? De repente sente cravados na alma quatro punhais envenenados: os olhos de Marco di Dio e da mulher dele, Diamante, que encontrava todo dia no caminho de casa.

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Capítulo VII: Fatos, formas e atos são prisões

Resumo do capítulo

Marco di Dio e Diamante foram, se bem lembra Moscarda, as primeiras vítimas do experimento de destruir um Moscarda. Mas com que direito fala deles, dando-lhes aspecto e voz fora de si? Faz com eles o mesmo erro de que se queixa, com a pequena diferença das fixações: o modo como cada um se quer, construindo-se, e pelo qual paga. O leitor protesta: e os fatos? Existem, diz Moscarda: nascer é um fato, em tal tempo, de tal pai, em tal condição, homem ou mulher, bonito ou feio, com ou sem corcunda; perder um olho é um fato. Tempo, espaço, necessidade, sorte, acasos: armadilhas da vida. Querer ser é aceitar isto: em abstrato não se é, é preciso que o ser se prenda numa forma, e cada coisa, enquanto dura, traz consigo a pena da sua forma, a pena de ser assim e de não poder ser de outro modo. Como as formas, os atos: feito um ato, é aquele, e não muda; pesa como uma prisão, com as consequências, a responsabilidade assumida. Mas o leitor que conclua que atos e formas determinam a realidade dele ou de Moscarda não afirma nada contra ele, pois Moscarda diz justamente que são uma prisão, e a mais injusta que se possa imaginar. Fulano: ele o conhece e lhe dá uma realidade; o leitor também; cada um a seu modo; e fulano mesmo tem tantas realidades quantos os conhecidos, com a ilusão de ser um para todos. Praticamos um ato, acreditamos estar inteiros nele, e nos damos conta de que é só de um dos muitos que somos, e que julgar-nos por ele, mantendo-nos presos a ele no pelourinho por uma existência inteira, é uma injustiça atroz: "Mas eu sou também isto e aquilo!". Realidades passadas, que quando os fatos são leves chamamos enganos. Toda realidade é engano; o ser age por formas, que são as aparências que ele mesmo cria e a que damos valor de realidade, e nunca haverá uma realidade para todos nem para sempre. A faculdade de nos iludirmos de que a realidade de hoje é a verdadeira nos sustenta e, ao mesmo tempo, nos lança num vazio sem fim, pois a de hoje será ilusão amanhã.

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Capítulo VIII: Cinco imbecis num só Moscarda

Resumo do capítulo

Moscarda acha que subiu alto demais e propõe descer um pouco: a bola é elástica, mas para quicar precisa tocar o chão. De que fatos o leitor quer falar? Que ele nasceu em tal ano, mês e dia, em Richieri, filho de Fulano e Fulana; batizado aos seis dias, mandado à escola aos seis anos, casado aos vinte e três, com um metro e sessenta e oito, ruivo. São os sinais, dados de fato, diz o leitor, e quer extrair deles a realidade dele. Mas esses dados por si nada dizem; valem a mesma coisa para todos? E, mesmo que o representassem inteiro, onde o representariam? Na realidade do leitor, que não é a de outro. Convida então cinco pessoas a ir com ele até a casa onde nasceu: para quem mora num casebre ela parece um belo palácio, para quem tem gosto artístico, uma casa vulgar, para quem evita a rua por um episódio triste da vida, algo a olhar de través, e para quem a olha com afeto, porque ali defronte morou a mãe, amiga da dele. E ele, nascido ali: se nascesse um imbecil, seria o mesmo imbecil para os cinco? Um o terá por imbecil por deixar Quantorzo diretor do banco e Firbo consultor jurídico, razão pela qual outro o estima sagacíssimo, e este vê a imbecilidade clara em passear todo dia com a cadelinha da mulher. Cinco imbecis, um em cada um, em Moscarda, que é um e cinco como a casa, todos com o nome Moscarda, que por si não é nada. Cada ato dele é, para os cinco, o ato de um dos cinco: um dirá que fez isto; outro, que fez outra coisa; o terceiro, que fez muito bem; o quarto, que fez muito mal; o quinto, que não fez nada. E se atracarão por isso, sem entender que o Moscarda de um não é o Moscarda do outro; seis, se o pobre Moscarda também se vê e se toca um para si, um e nenhum, ai de mim.

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Capítulo IX: Fechado o parêntese

Resumo do capítulo

Moscarda promete se esforçar para dar ao leitor a realidade que ele crê ter, isto é, querê-lo em si como o leitor se quer. Não é possível, já se sabe, pois por mais que tente representá-lo à maneira dele, será sempre um modo seu só para Moscarda, não um modo seu para o leitor e para os outros. Se para o leitor Moscarda não tem outra realidade além da que ele lhe dá, e se ele está pronto a reconhecer que essa não é menos verdadeira do que a que poderia dar-se, antes é para o leitor a única verdadeira, poderá o leitor queixar-se da que ele lhe dará agora, com toda a boa vontade de representá-lo à maneira dele? Moscarda não presume que o leitor seja como ele o representa. Já afirmou que o leitor não é nem aquele um que se representa a si mesmo, mas muitos ao mesmo tempo, segundo as possibilidades de ser, os casos, as relações e as circunstâncias. Que mal lhe faz? O mal é do leitor, que crê que Moscarda não tenha outra realidade senão a que lhe dá, e que é só do leitor, uma ideia que ele fez, uma possibilidade de ser como ele a sente, pois do que Moscarda pode ser para si, não só o leitor nada pode saber, mas nem ele mesmo.

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Capítulo X: O amigo que o leitor manda embora

Resumo do capítulo

Moscarda se diz contente porque agora mesmo, enquanto o leitor lia este "livrinho" com o sorrisinho zombeteiro que o acompanha desde o início, duas visitas, uma dentro da outra, vieram mostrar como era tolo aquele sorriso. O leitor está ainda desconcertado, irritado, mortificado da péssima figura que fez com o velho amigo, mandado embora logo depois que chegou o novo, com uma desculpa mesquinha, porque não resistia mais a vê-lo e ouvi-lo falar e rir diante do outro. Mas como, mandá-lo embora assim, se antes de o outro chegar o leitor se comprazia em falar e rir com ele? Quem foi mandado embora? O amigo? O velho amigo, em si e por si, não tinha nenhuma razão para ser mandado embora; os dois, entre si, não se conheciam, foram apresentados pelo leitor e podiam conversar meia horinha na sala sem constrangimento para nenhum. O constrangimento foi do leitor, e tanto mais vivo e intolerável quanto mais via os dois irem se acomodando e fazendo acordo. Rompeu-o logo. Por quê? Porque, com a chegada do novo amigo, o leitor se descobriu dois, um tão diverso do outro que, a certa altura, teve de mandar embora um. Não o velho amigo: mandou embora a si mesmo, aquele que é para o velho amigo, porque o sentiu outro daquele que é ou quer ser para o novo. Incompatíveis não eram os dois, estranhos um ao outro e corteses, talvez feitos para se entender às mil maravilhas, mas os dois do leitor que ele descobriu em si. Não suportou que as coisas de um se misturassem às do outro, pois ele tem uma realidade para o velho e outra para o novo, tão diferentes que, dirigindo-se a um, o outro ficaria olhando-o, atônito, sem reconhecê-lo. No constrangimento insustentável de se encontrar dois ao mesmo tempo, buscou uma desculpa mesquinha para se livrar, não de um deles, mas de um dos dois que eles o obrigavam a ser. Moscarda o manda voltar à leitura sem sorrir, porque se a experiência lhe causou algum desgosto, isso não é nada, meu caro: ele não é só dois, mas sabe-se lá quantos, sem saber, crendo-se sempre um.

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