Resumo do livro
Em «Uno, nessuno e centomila» (1926), Vitangelo Moscarda, herdeiro de um banco na cidade de província de Richieri, conta em primeira pessoa, depois de passada a crise, como o comentário distraído da mulher sobre o seu nariz lhe desfez a ideia que fazia de si. Se os outros veem nele alguém que ele nunca viu, ele não é um: é um para cada pessoa que o olha, cem mil ao todo, e, olhado de dentro, talvez ninguém. O romance tem oito Livros e sessenta e três capítulos curtos, cada um com título do autor, e fala o tempo todo ao leitor, tratado por «senhores», a quem pede que se examine com o mesmo olhar. O Livro I mostra a descoberta nascendo e já traz o desenho de tudo: a vaidade ferida vira dúvida sobre o corpo, a dúvida vira desejo de se ver como os outros o veem, o desejo vira experimento diante dos espelhos, e o experimento termina numa lista de conclusões que o resto do livro vai pôr à prova.
Capítulo I: O nariz que pende para a direita
Resumo do capítulo
O narrador, Vitangelo Moscarda, tem vinte e oito anos e se demora diante do espelho, apertando uma narina. A mulher, Dida, pergunta o que ele faz, e ele fala de uma dorzinha que sente ao apertar a narina; ela responde, sorrindo, que achava que ele estava vendo para que lado o nariz pende. Segue a lista que o vira do avesso: o nariz pende para a direita, as sobrancelhas parecem dois acentos circunflexos, uma orelha sai mais que a outra, o mindinho e a perna direita tampouco são o que ele supunha. Ele confere e reconhece tudo. Quando ela o consola dizendo que, mesmo assim, continua um belo homem, ele se irrita com razão própria: recebe como concessão generosa o que antes lhe fora negado como direito. A mágoa maior não é o defeito, é ter vivido tantos anos com o mesmo nariz sem saber, e precisar de uma esposa para ficar sabendo.
Antes de seguir, ele explica quem era naquele tempo. Rico e com o pai morto, deixava os negócios com dois amigos de confiança, Quantorzo e Firbo; o pai nunca o fez concluir coisa nenhuma, exceto casar cedo, na esperança de um filho que não se parecesse com ele, e nem isso conseguiu. Moscarda não recusava nenhuma estrada que o pai indicava, mas parava a cada passo e girava em volta de cada pedrinha, que para ele virava montanha ou mundo, espantado de os outros passarem sem notá-la. Os que passaram à frente acabaram atrelados cada um à sua carroça; ele, sem carroça, via mais longe e não sabia aonde ir. É esse homem parado, que vive por dentro, que a frase da mulher derruba numa dúvida: se não conhece nem o nariz, nem as orelhas, nem as mãos, o que conhece do corpo que é mais seu? Volta a se examinar, e fecha o capítulo dizendo que ali começou o seu mal.
Análise
Mi pende? A me? Il naso? - E mia moglie, placidamente: - Ma sì, caro. Guàrdatelo bene: ti pende verso destra.
, Pende? Em mim? O nariz? E a minha mulher, placidamente: Mas sim, querido. Olhe bem para ele: pende para a direita.
Moscarda reage como quem foi pisado, não como quem foi informado: o susto é de corpo, e a pergunta repete a palavra dela como se fosse um insulto. Dida diz a frase com calma e com um "querido", sem intenção de ferir, e é essa calma que torna o fato irrefutável. O que o fere é menos o nariz do que a descoberta de uma coisa que estava ali o tempo todo e que ele nunca olhou.
Assinatura
A análise completa de cada livro de Um, Nenhum e Cem Mil está na assinatura, com a explicação de cada citação, o quiz, o guia em PDF e o caderno de estudos.
Capítulo II: A cidade inteira se olha nas vitrines
Resumo do capítulo
No mesmo dia, Vitangelo Moscarda imagina que, descoberto o defeito pela mulher, todos já o conhecem e não veem nele outra coisa. Pergunta de repente a um amigo, que viera tratar de um negócio, se está olhando o seu nariz, e impõe a ele uma inspeção como se o defeito fosse um desarranjo da máquina do universo. O amigo julga que Moscarda despreza o negócio que ele trouxe e se afasta; é retido pelo braço e responde com um "ah, é mesmo?", os olhos rindo de uma incredulidade que é também deboche. Moscarda conclui que ele já sabia, e com isso entende duas coisas: que acreditava ser para todos um Moscarda de nariz reto, quando era para todos um Moscarda de nariz torto, e que muitas vezes riram dele enquanto ele apontava os narizes alheios. A consolação de que todos veem os defeitos dos outros e não os próprios não o consola, porque a ideia já pegou raiz.
Para se vingar, pergunta ao amigo se ele sabe que tem no queixo uma covinha que o divide em duas partes desiguais. O amigo nega, é levado a um barbeiro, vê que é verdade e diz que é uma ninharia; mas Moscarda o segue de longe e o vê parar em três vitrines para olhar o queixo. O contágio se espalha: por dias, em Richieri, ele vê conterrâneos passando de vitrine em vitrine a examinar uma maçã do rosto, o canto do olho, um lóbulo, e uma semana depois um homem lhe pergunta, aflito, se é verdade que pisca a pálpebra esquerda quando fala. Moscarda responde numa torrente que ele mesmo sabe de todos os seus defeitos e não precisa que ninguém os diga. O homem o chama de volta e, calmo, lhe aponta na nuca um tufo que em Richieri se chama "codiniccio" e que as mulheres do povo tomam por sinal de que o próximo filho da mãe será menino. Moscarda diz que o manda cortar, e ouve que a marca fica; desta vez quem o deixa plantado é o outro.
Análise
Capítulo III: Gengè nunca fica sozinho
Resumo do capítulo
Desde aquele dia Vitangelo Moscarda quer, ardentemente, ficar sozinho ao menos uma hora, e já não é desejo, é necessidade, que a presença da mulher exaspera até a raiva. Dida o chama de "Gengè" a cada minuto, com o que a casa lhe traz: que Quantorzo precisa falar com ele com urgência, que a pêndula parou, que a cachorrinha não sai desde a véspera, que Anna Rosa pode estar doente, que Firbo esteve lá e volta mais tarde; ou então canta uma cançoneta pela casa. Moscarda adianta ao leitor a objeção óbvia (por que não se tranca no quarto, com dois tampões nos ouvidos?) e responde que ela mostra que o leitor não entendeu como ele queria estar só.
Trancar-se, na verdade, é só possível no escritório, e sem trinco, para não despertar suspeita na mulher, que é desconfiadíssima. Seria inútil de qualquer modo: no escritório não há espelho, e ele precisa de um; além disso, só saber que a mulher está em casa basta para mantê-lo presente a si mesmo, e é isso que ele quer evitar. Pergunta então ao leitor o que significa estar só, e dá a resposta que o leitor daria: ficar em companhia de si mesmo, sem estranhos em volta. Para mostrar o que isso vale, conduz o leitor por uma sequência de lembranças que se abrem como janelinhas na memória, umas dentro das outras (uma moça de crochê, um velho importuno, uma sala de bilhar, um bêbado cantando uma canção de Nápoles, uma antiga paixão), e conclui, irônico, que é mesmo um belo modo de estar só.
Análise
Capítulo IV: Sozinho com o estranho que é ele
Resumo do capítulo
Moscarda queria estar só de um jeito insólito: sem si mesmo e com um estranho em volta, o contrário do que o leitor imagina, e adianta que isso talvez já fosse sinal de loucura. A solidão verdadeira, argumenta, está num lugar ou numa pessoa que o ignoram por completo e que ele ignora, de modo que sua vontade e seu sentimento ficam suspensos e a intimidade da consciência cessa. O que ele queria era ficar sem o "eu" que conhecia, a sós com um estranho inseparável de si, que sentia obscuramente que não conseguiria tirar da frente: ele mesmo. Esse único estranho, e a necessidade de se pôr diante dele, já o perturbava com um misto de repulsa e de pavor, e a pergunta que o assombra é uma só: se para os outros não era o que acreditava ser para si, quem era?
Argumenta em seguida que os outros, que o veem de fora, ligam as ideias e os sentimentos dele ao nariz que ele nunca olhou, e que se as ideias fossem sérias e o nariz cômico eles ririam. Percebe que não consegue se representar a si mesmo vivendo, e que diante do espelho a espontaneidade acaba. A prova vem dias depois, quando, caminhando e conversando com Firbo, ele se surpreende de repente num espelho da rua, não se reconhece e vê um estranho passar conversando; para, empalidece, diz a Firbo que não é nada. Decide então perseguir o estranho que traz dentro e que, parado diante do espelho, vira de imediato o "eu" que ele conhece. Ainda o supunha um só, o mesmo para todos, mas o drama se complica: ele descobre que é, para os outros e também para si, cem mil Moscarda, todos com esse nome feio dentro de um corpo que é um e nenhum. Quando o drama se complica, começam as loucuras incríveis.
Análise
Capítulo V: As caretas diante dos espelhos
Resumo do capítulo
Vitangelo Moscarda conta as loucuras pequenas do começo, feitas em forma de pantomima diante de todos os espelhos da casa, olhando para a frente e para trás para que Dida não o surpreenda, à espera de que ela saia para uma visita ou uma compra e o deixe só. Não queria estudar os gestos como um comediante, e sim se apanhar na naturalidade: levantar as sobrancelhas até a raiz dos cabelos numa espantada, franzir a testa imaginando a morte da mulher, ranger os dentes pensando num tapa. Descobre três falhas. A espantada, a dor e a raiva eram fingidas, porque se fossem verdadeiras ele não poderia vê-las, já que cessariam no instante em que as visse; as espantadas possíveis são muitas, e imprevisíveis as feições; e, mesmo que uma só e determinada tivesse sido sentida, ela seria como ele a via, e não como os outros a veriam, o que muda conforme quem teme a raiva, quem a desculpa, quem ri dela.
Moscarda ainda tinha juízo para entender tudo isso e não tirou a conclusão natural, que seria renunciar à empresa e viver para si, sem se ver e sem se importar com os outros. A ideia de que os outros viam nele alguém que ele não conhecia, alguém que só eles podiam conhecer, olhando-o de fora com olhos que não eram os seus, e que lhe dava um aspecto destinado a ficar-lhe estranho mesmo estando nele, e mesmo sendo o seu aspecto para eles (um "seu" que, portanto, não era para ele!), não lhe dava mais descanso.
Análise
Capítulo VI: Dida sai e ele fica só
Resumo do capítulo
Dida diz que, passados mais quatro dias sem notícia, Anna Rosa só pode estar doente, e que irá vê-la. Vitangelo Moscarda, que há dias não deseja outra coisa senão uma hora sozinho, reage como se fosse contra: manda que ela envie os criados Diego e Nina, invoca o mau tempo e diz que não quer de jeito nenhum. Sabe o que a mulher faz quando alguém não quer, e a manobra funciona: Dida põe o chapéu e lhe estende a pele para segurar. Ela vê no espelho o sorriso dele e pergunta se ri; ele se desculpa dizendo que se vê assim obedecido, pede que ela não se demore mais de um quarto de hora e garante, com isso, que ela só volte à noite. Quando ela sai, gira de alegria sobre o calcanhar, esfregando as mãos: "Finalmente!"
Análise
Capítulo VII: O espelho, o corpo sem nome, o espirro
Resumo do capítulo
Sozinho, Vitangelo Moscarda espera que o rosto perca todo traço de ansiedade e de alegria e que por dentro cesse qualquer movimento de sentimento e de pensamento, para levar ao espelho o próprio corpo como se fosse de um estranho. Vai de olhos fechados, mãos adiante, até tocar o vidro do armário, e ali raciocina: o estranho está do outro lado, também de olhos fechados, e não pode vê-lo, só ser visto; abrindo os olhos, o veria como a um outro? Lembra que ninguém pode se ver e ver ao mesmo tempo quem o olha no mesmo espelho. Decide, então, que o esforço supremo é ser visto por si mesmo como se fosse outro. Abre os olhos e só se vê, carrancudo, com o rosto cheio do próprio pensamento. Dá-lhe raiva, e ele sente vontade de cuspir na própria cara, mas se contém; suaviza o olhar e a imagem esmaece, e ele quase cai de sono. Percebe então que sente aqueles olhos de dentro: pode vê-los diante de si, mas sente-os também em si, como seus, e quando consegue não senti-los deixa de vê-los.
O rosto no espelho tenta um sorriso mísero, e ele grita ao reflexo que fique sério, chamando-o de imbecil. A expressão muda de imediato e a apatia que a segue lhe permite ver o corpo separado do seu espírito autoritário. Pergunta quem é aquele e responde que ninguém. Chama baixinho o sobrenome, Moscarda, e nada se move; podia chamar-se de outro modo, como um cachorro perdido que um chama de Flik e outro de Flok. Examina-lhe o cabelo arruivado, a testa dura, as sobrancelhas, os olhos esverdeados, o nariz que pende mas tem belo corte aquilino, e conclui que o corpo foi feito assim sem depender dele. Isso podia ser de qualquer um, e ele próprio, que não faz de si imagem nenhuma enquanto vive, poderia nunca ter se reconhecido assim. Para todos, no entanto, ele é aqueles cabelos e aquele nariz, e cada um pode tomar esse corpo e fazer dele o Moscarda que quiser. De repente o corpo se contorce, revira os olhos para trás, quase chora e solta dois espirros por um fio de ar que entrou sabe-se lá de onde. Moscarda lhe deseja saúde e vê no espelho o seu primeiro riso de louco.
Análise
Capítulo VIII: As sete reflexões e as duas conclusões
Resumo do capítulo
O capítulo é um balanço. Vitangelo Moscarda apresenta a primeira lista das "reflexões ruinosas" e das "conclusões terríveis" tiradas do inocente prazer momentâneo que Dida quis se dar ao lhe fazer notar que o nariz pendia para a direita. As sete reflexões se encadeiam: que ele não era para os outros o que acreditava ser para si; que não podia se ver viver; que, não podendo, ficava estranho a si mesmo, alguém que os outros podiam ver e conhecer, cada um a seu modo, e ele não; que era impossível pôr diante de si esse estranho, porque podia se ver mas não vê-lo; que o corpo, visto de fora, era uma aparição de sonho, uma coisa que não sabia que vivia e esperava que alguém a tomasse; que, assim como ele o tomava para ser o que queria e sentia, qualquer outro podia tomá-lo para lhe dar uma realidade a seu modo; e que o corpo era tão nada e tão ninguém que um fio de ar podia fazê-lo espirrar hoje e, amanhã, levá-lo embora. As duas conclusões, por ora, são estas: ele começou a entender por que a mulher o chamava Gengè (a explicação vem no Livro II) e se propôs descobrir quem era para os que lhe estavam mais perto, os conhecidos, e se divertir desmontando por despeito o "eu" que eles tinham dele.
Análise