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Um, Nenhum e Cem Mil · Livro II

O leitor e a casa

Resumo do livro

O Livro II tira a descoberta do quarto do espelho e a entrega ao leitor, a quem Vitangelo Moscarda fala o tempo todo, pedindo licença para sentar na sua poltrona, levando-o a passear. Em doze capítulos ele argumenta que a consciência de cada um não basta, porque há a dos outros; que a realidade que cada um vê é uma presunção que se desfaz quando outra pessoa entra na mesma sala; que as palavras estão vazias e cada um as enche com o seu sentido; e que o homem se constrói como se constrói uma casa, tirando pedras da montanha e fazendo da árvore uma cadeira. O último capítulo vira o argumento em cena de casamento: Dida ama um marido chamado Gengè que ela mesma fez; o ciúme que Moscarda sente é de um homem que não é ele e, quando ele tenta desfazê-lo, ela vai embora.

Capítulo I: A consciência não basta

Resumo do capítulo

Um leitor imaginário objeta: por que Moscarda não pensou que os outros também não se veem viver, e que, se ele não era para os outros o que supunha, também eles podiam não ser o que ele via? Ele responde que pensou, mas duvida de que tenha ocorrido ao leitor, e que, se ocorresse e criasse raiz, o leitor cometeria as mesmas loucuras. O leitor vive sem querer se ver viver; se alguém lhe diz que o nariz pende, que ontem mentiu, ele no máximo acha que o julgaram mal e, se lhe importa, explica, e se não lhe importa dá de ombros: tenho a minha consciência, e basta. Moscarda replica que a consciência do leitor não tem nada a ver com o caso, porque há também a dos outros, tão diferente da sua; se estivéssemos sós, não haveria consciência. Quem então lhe dá a segurança de que agiu bem? Ele mesmo, imaginando que os outros no seu lugar teriam feito o mesmo, com base em princípios abstratos com que todos concordam e que ninguém reconhece no caso concreto. A solidão o assusta, e então imagina tantas cabeças como a sua, que dizem sim e não conforme ele puxa o fio.

Análise

siete nella beata illusione che gli altri, da fuori, vi debbano rappresentare in sè come voi a voi stessi vi rappresentate., os senhores estão na feliz ilusão de que os outros, de fora, devem representá-los dentro de si como os senhores se representam a si mesmos.

Moscarda põe o leitor no lugar de quem nunca pensou nisso, e a ilusão é "feliz" porque funciona sem esforço: a pessoa se importa muito com o juízo alheio e supõe, ao mesmo tempo, que ele coincide com a imagem que ela tem de si. A ironia é afetuosa: ele não zomba da ilusão, só avisa que ela depende de que ninguém lhe faça notar o nariz.

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Capítulo II: O vizinho que o achava imbecil

Resumo do capítulo

Para provar que a realidade de cada um não tem para os outros mais consistência do que a fumaça de um charuto, Moscarda conta a casa em que mora com a mulher, que o pai mandou construir depois da morte da mãe, para sair da casa cheia de lembranças, e deixou sem terminar, com um portão de arco sem porta. Depois da morte do pai, as comadres da vizinhança passam a usar o pátio como seu, lavando e estendendo roupa, e Moscarda, que nunca deu a ver nem incômodo nem prazer, deixa estar; Quantorzo, encarregado dos negócios, fecha com um tabique os cômodos do pai e faz deles um pequeno apartamento, que aluga a um velho aposentado, silencioso e bem-vestido, a quem Moscarda nunca prestou atenção e que sempre lhe diz bom dia e boa noite, o que o faz pensar que o vizinho é muito educado. Um dia o homem se queixa dos mosquitos que vêm das cocheiras de aluguel, e Moscarda responde com um "ah, claro" que na verdade lamenta as cocheiras, que viu construir quando menino, e não o incômodo dele; quando o vizinho diz que não suporta mosquiteiro, Moscarda sorri com espanto e compaixão, já que adora o seu. O narrador garante então ao leitor que o vizinho, ao mesmo tempo que o cumprimentava com educação, o fazia viver dentro de si como um perfeito imbecil, por tolerar as comadres, o cheiro de lavanderia e os mosquitos; e que ele, sem saber, continuava a pensar como era educado o vizinho.

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Capítulo III: A poltrona e os ciprestes do leitor

Resumo do capítulo

Moscarda bate à porta do quarto do leitor, pede licença e senta numa poltrona. É a poltrona em que morreu a mãe do leitor: para Moscarda não valeria um tostão, para o leitor não tem preço, e quem a vê no quarto bem mobiliado se pergunta por que a guarda, velha, desbotada e rasgada. Descreve em seguida as cadeiras, a mesinha, a janela para o jardim e os pinheiros e ciprestes, horas deliciosas que o leitor passou ali; mas por causa do quarto o leitor se indispôs com o amigo que o visitava quase todo dia e que agora espalha que ele é louco por morar numa casa com mais de vinte ciprestes em fila, como num cemitério. O leitor fecha os olhos, dá de ombros e diz "gostos!", porque acha que é questão de gosto ou de hábito e não duvida da realidade das coisas queridas, tal como as vê e toca agora. Moscarda propõe que ele saia da casa e volte em três ou quatro anos, com outro ânimo, para ver o que sobra dela, e deseja só que não tenha morrido outro parente próximo, para que não veja também como cemitério aqueles ciprestes queridos. Pergunta então por que, se todos sabem que o ânimo muda, o leitor faz como se não soubesse e se admira, se irrita, grita que o amigo está errado.

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Capítulo IV: As palavras vazias entre nós

Resumo do capítulo

Moscarda pede para dizer mais uma coisa e diz não querer ofender: reconhece que, por dentro, o leitor não é como ele o vê de fora, que o leitor se conhece e se quer de um modo seu e julga justo o seu e errado o dele, e pergunta se o modo do leitor pode ser o dele e vice-versa. Oferece uma cadeira para se porem de acordo e, depois de uma hora, se entendem perfeitamente; no dia seguinte, o leitor chega de mãos no rosto, gritando que não era assim que tinham ficado. Era, exatamente, mas Moscarda explica que o leitor nunca saberá, nem ele poderá lhe comunicar, como se traduz nele o que o leitor diz. Usaram a mesma língua e as mesmas palavras, que por si são vazias, e cada um as enche com o seu sentido: acreditaram se entender e não se entenderam. Para ser para ele o que é para si mesmo, e ele para o leitor o que é para si, seria preciso que cada um desse ao outro dentro de si a realidade que o outro se dá, e isso é impossível; por mais que faça, o leitor lhe dará sempre uma realidade a seu modo, mesmo crendo de boa-fé que é ao dele. Não existe fora deles uma senhora realidade dele e uma senhora realidade do leitor, em si e imutáveis: há a que cada um se dá, e elas nunca serão as mesmas. Só resta consolar-se com que a de um não é mais verdadeira que a do outro e que ambas duram um instante.

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Capítulo V: Tudo são fixações

Resumo do capítulo

Moscarda diz que queria chegar a isto: o leitor não deve mais dizer que tem a sua consciência e que ela basta. Pergunta quando o leitor agiu assim, ontem, hoje, um minuto atrás, e depois, de repente, se agora ele mesmo não está disposto a admitir que talvez agisse de outro modo. O leitor empalidece, e Moscarda lhe pergunta se não reconhece que, um minuto atrás, era outro. Não só um outro, mas cem, cem mil, e disso ninguém precisa se admirar; mais vale ver se ele pode ter certeza de que, daqui a amanhã, será o que assume ser hoje. A verdade, diz, é que são tudo fixações: hoje a pessoa se fixa de um modo, amanhã de outro. Promete explicar depois como e por quê.

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Capítulo VI: A montanha que virou casa

Resumo do capítulo

Moscarda diz que vai explicar já e pergunta ao leitor se viu construir uma casa; ele mesmo viu muitas em Richieri, e pensa no que o homem é capaz de fazer: mutila a montanha, tira as pedras, as esquadreja, as põe umas sobre as outras, e o que era um pedaço de montanha vira casa. Faz a montanha responder que é montanha e não se move, e a desmente: os carros de boi já a levam, e metade dela está duas milhas adiante, na planície, nas casas amarelas, vermelhas e brancas. As faias, as nogueiras e os abetos estão na casa dele, transformados em cadeiras, armários, estantes. A montanha e a árvore são muito maiores que o homem, mas o homem é um bichinho que tem em si algo que elas não têm. Conta então uma história de poucas linhas: o bicho em pé se cansava, deitado no chão como os outros se machucava, depois que perdeu o pelo; viu a árvore e pensou em tirar dela um lugar para sentar; achou o lenho nu desconfortável e o estofou, esfolando animais, tosando outros, e com couro e lã se deitou, satisfeito. Fecha com o pintassilgo que canta na gaiola entre as cortinas, e com a cadeira de nogueira que range ao canto dele.

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Capítulo VII: O que a casa tem a ver

Resumo do capítulo

O leitor acha que esse discurso da casa não vem ao caso, porque agora vê a sua, entre as outras que formam a cidade, com os móveis que quis, segundo o gosto e as posses, para o seu conforto. Moscarda descreve esse conforto: os móveis, animados por todas as lembranças, já não são coisas, mas quase partes íntimas do leitor, nas quais ele toca e sente o que lhe parece a realidade segura da sua existência. Sejam de faia, nogueira ou abeto, os móveis têm o hálito particular de cada casa, que só se nota quando falta, ao entrar noutra. Percebe que incomodou o leitor ao lhe lembrar as faias, as nogueiras e os abetos da montanha; como se o leitor começasse a participar um pouco da sua loucura, a cada coisa que ele diz se perturba e pergunta o que isso tem a ver.

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Capítulo VIII: Ao ar livre, a falsa paz

Resumo do capítulo

Moscarda tranquiliza o leitor: não vai lhe estragar os móveis, a paz nem o amor da casa. Convida-o a sair da cidade, pela estrada de brita onde a rua das casas desemboca no campo, e conduz o passeio nomeando o que veem: os montes azuis ao longe (diz "azuis" e o leitor também, "e vê como nos entendemos?"), o castanheiro da família das cupulíferas, a planície verde, e nos prados um ardor de papoulas vermelhas, que o leitor corrige, e ele aceita, para casaquinhos de lã de crianças. Elogia a frescura, nota o chapéu de feltro cinzento do leitor, o suor, o xadrez das calças. Depois pergunta onde está a paz do campo, que o leitor sente como relaxamento. Vê ali, diz, só o que sente em si, uma imensa estupidez que faz o rosto dos dois de beatos idiotas e que eles atribuem à terra e às plantas, que vivem por viver. A paz está então em nós: vem de termos acabado de sair da cidade, de um mundo construído não só de casas, ruas, igrejas e praças, mas porque nele não se vive apenas por viver, e sim por algo que não existe e que nós pomos, um sentido e um valor para a vida. Aqui o leitor o perde em parte, ou reconhece a vaidade aflitiva dele; surgem languidez, melancolia, vontade de se abandonar.

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Capítulo IX: Nuvens e vento

Resumo do capítulo

Deitado na erva, com as mãos entrelaçadas na nuca, olhando as nuvens brancas e ouvindo o vento nos castanheiros, o leitor deseja, pela boca de Moscarda, não ter mais consciência de ser, como uma pedra ou uma planta, e não se lembrar nem do próprio nome. Diz-se "nuvens e vento", e Moscarda reage: nuvens? vento? Já não é tudo perceber e reconhecer que aquilo que navega na vacuidade azul são nuvens? A nuvem sabe que é nuvem? Nem a árvore nem a pedra sabem dela, nem de si mesmas, e estão sós. Ao reconhecer a nuvem, o leitor pode pensar no ciclo da água, que um professorzinho de física explica; mas explicar o porquê do porquê?

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Capítulo X: O pássaro e o voo mecânico

Resumo do capítulo

No bosque de castanheiros soam machadadas, na pedreira picaretadas: o homem mutila a montanha e derruba árvores para construir casas, e tanto esforço serve para chegar a uma chaminé de onde sai um pouco de fumaça, logo dispersa no vazio, como todo pensamento e toda memória dos homens. No campo, com a languidez, ilusões e desenganos parecem vãos diante das coisas que ficam e sobram, impassíveis, e o leitor, deitado, atira o chapéu para cima e exclama: "Oh, ambições dos homens!". Moscarda lhe cita, por exemplo, os gritos de vitória por o homem voar, fazer de passarinho: aqui está um passarinho de verdade, e o voo dele é a facilidade mais franca, com um trinado de alegria; compare-se o aparelho desajeitado e roncante, o susto e a angústia mortal do homem que quer imitá-lo, o motor que falha e para: adeus, passarinho! O leitor, na erva, manda o homem deixar de voar; Moscarda aprova, mas só aqui. Quando entrar na cidade, entenderá logo por que o homem quer voar: aqui viu o passarinho verdadeiro e perdeu o sentido das asas falsas, que recuperará lá, onde tudo é falso e mecânico, um mundo manufaturado, de artifício, de vaidade, que só tem sentido e valor para o homem que o faz. Ajuda o leitor a se levantar (é gordo; tem fios de erva nas costas) e vão embora.

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Capítulo XI: O homem constrói a si mesmo

Resumo do capítulo

Entrando na cidade, Moscarda mostra ao leitor as árvores do Corso di Porta Vecchia, aparadas e penteadas, de ar perdido, e imagina o que diriam se pudessem falar; talvez, para crescer, as árvores precisem de silêncio. Conta a praça da Olivella, fora das muralhas, onde todo ano a terra tenta aproveitar o silêncio e retomar a praça estendendo fios de erva entre o calçamento, e todo ano quatro ou cinco garis os arrancam com ferrinhos. No ano anterior ele viu dois passarinhos, assustados com o ruído, perguntarem com a cabeça o que faziam os homens, e lhes disse que faziam a barba daquele velho calçamento; fugiram horrorizados. Felizes os que têm asas; as outras bestas são presas, domesticadas e puxam o carro e o arado. Talvez as bestas, as plantas e as coisas tenham um sentido e um valor para si, que o homem não alcança, fechado nos que ele dá. A natureza muitas vezes destrói as construções (ciclones, terremotos) e ele reconstrói, bichinho pertinaz: tudo é material de construção para o homem, que toma a si próprio como material e se constrói como uma casa. Só conhecemos aquilo a que conseguimos dar forma, e essa forma não é a mesma para quem a dá e para quem a recebe, nem para cada um em dois momentos. Fora da forma momentânea que damos a nós, aos outros e às coisas, não há realidade: a que tenho para o leitor está na forma que ele me dá, mas é realidade para ele; a que ele tem para mim está na forma que eu lhe dou. A construção dura enquanto o material dos sentimentos não se esfarela e o cimento da vontade resiste; por isso se recomenda tanto firmeza de vontade e constância de sentimentos, pois, se uma vacila e os outros mudam, adeus realidade: percebemos que era ilusão.

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Capítulo XII: Dida e o Gengè que ela construiu

Resumo do capítulo

Dida costumava lhe dizer que não precisava falar, porque ela sabia do que ele gostava e do que não gostava, e Vitangelo Moscarda nunca dera atenção. Agora entende: ela conhecia aquele seu Gengè melhor do que ele, porque o construíra. Não era subjugação nem substituição, pois para subjugar alguém é preciso que esse alguém exista, e Moscarda, para ela, não existia: existia o Gengè, com pensamentos, sentimentos e gostos que não eram os dele e que ele não poderia alterar sem se tornar um estranho que ela já não compreenderia nem amaria. Ele nunca dera forma à própria vida, por falta de obstáculos, por uma cabeça que desmonta cada formação mental e por uma natureza que cede; assim os outros o conhecem, cada um a seu modo, e veem tantos Moscarda quantos eles são, todos mais reais do que ele para si. O Gengè, que ele acha tolo, tem defeitos que Dida compadece, e ela o ama de verdade: chora às vezes pelas amarguras que ele causa, e quando Moscarda pergunta o que fez, ouve que ele disse isto ou aquilo, e ele jura que não. Falava para si; ela falava com o Gengè, que respondia pela boca dele de um modo que Moscarda ignora. Teria vontade de esbofetear o Gengè, mas não pode tocá-lo.

A prova do amor é o penteado. De moça, Dida se penteava de um modo que agradava aos dois; depois de casada mudou, e ele calou. Uma manhã ela aparece de roupão com o antigo penteado e o rosto afogueado, grita "Gengè!", e ele, deslumbrado, exclama: "finalmente!". Dida desmancha o penteado: era uma brincadeira, ela sabe que ele não gosta; ele protesta; ela lhe tapa a boca e diz que ele fala para lhe agradar, mas que ela não precisa agradar a si mesma, e sim ao seu Gengè. Moscarda então, entendido tudo, fica terrivelmente ciumento, não de si mesmo, mas de um imbecil que se meteu entre ele e a mulher, e que lhe tomou o corpo para ser amado. Raciocina que a mulher que beija os lábios dele beija os de outro; seu caso é pior do que o de um marido traído por uma fantasia, pois ela tinha nos braços a realidade de um que não era ele. E essa realidade era tão forte que, quando ele, exasperado, quis destruí-la impondo uma sua, Dida, que nunca fora sua mulher mas a mulher daquele, se viu como nos braços de um estranho, declarou que não podia mais amá-lo nem viver com ele nem um minuto, e foi embora.

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