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Um, Nenhum e Cem Mil · Livro V

O ponto vital

Resumo do livro

Depois de ouvir a multidão gritar que é louco, Vitangelo Moscarda descobre o preço prático do seu experimento: o banco quer interditá-lo, a mulher ri dele, e a única testemunha que lhe sobra é uma cadela. O livro corre em dois tempos. Nos sete primeiros capítulos, todos curtos, o eu de Vitangelo se esvazia: ele se esconde para não ser olhado, percebe que os próprios olhos só sabem o que veem porque os outros veem junto, e entra na sala de casa para achar dois que o olham e, para si mesmo, nenhum. No oitavo, o maior do romance, a mesma descoberta deixa de ser só horror e vira vontade. O riso de Dida o fere num ponto vital, e Vitangelo manda fechar o banco para não ser, nem para os outros, o usurário que eles sempre viram nele. A pergunta que o livro deixa é se essa vontade nasce de dentro ou é só o primeiro "eu" sólido que lhe aparece depois de tanto vazio.

Capítulo I: Firbo quer interditá-lo

Resumo do capítulo

Logo depois do despejo, Vitangelo fica sabendo o que o banco pensa do seu gesto. Firbo sustenta a todo custo que é preciso trancá-lo num manicômio, ou ao menos interditá-lo, se se quiser salvar o crédito do banco, comprometido pelo ato insensato. Quantorzo responde que o pai de Moscarda também teve os seus "luxos de bondade" e que a ninguém ocorreu interditá-lo. Vitangelo vê logo o furo da defesa: o pai provou nos negócios que tinha a cabeça no lugar, e ele, que se declarou insipiente e se desinteressou de tudo, parece só um louco de amarrar, capaz de destruir o que o pai edificou com cautela. Mas a lógica de Quantorzo tem outra face, que Vitangelo presume sem ter ouvido: sendo ele o dono ausente, os donos de fato são os dois, e a insipiência dele é o que lhes serve; convém calar até que cometa nova loucura. Vitangelo fica de rabo entre as pernas, esmagado pela prova que acaba de fazer, sem saber se vai prevalecer o desejo de Firbo de se vingar da afronta que sofreu diante dos empregados ou a indulgência interessada de Quantorzo.

Análise

Vitangelo pesa as duas razões com a mesma frieza:

Ah, non c’è che dire, stava tutta dalla parte di Firbo la logica. Ma non stava meno, se vogliamo, dalla parte di Quantorzo, ah, não há o que dizer, a lógica estava toda do lado de Firbo. Mas não estava menos, se quisermos, do lado de Quantorzo.

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Capítulo II: O riso de Dida e o abraço

Resumo do capítulo

Em casa, Vitangelo se encolhe no papel que lhe dá mais chance de escapar: o de Gengè, o marido tolo e teimoso de Dida, para que o ato passe por capricho de bobo inofensivo e não por loucura dele. Enquanto Dida repreende o seu Gengè, por dentro ele alterna o abatimento e uma vontade de rir que não sabe como segurar, e teme que a angústia secreta estoure num grito pela boca ou pelos olhos do marido que ela vê. Dida manda que ele se sente, o chama de Gengè, pede que a olhe bem nos olhos, agarra-lhe os cabelos com uma das mãos e se acomoda no colo dele; ele sente o peso do corpo dela e tem horror dos olhos que o olham risonhos e seguros, certos de que ele é o que eles veem. Para Vitangelo, o abraço de dois é o abraço de dois estranhos, não só um para o outro, mas cada um para si mesmo, dentro do corpo que o outro aperta. Dida, por sua vez, ri do "passatempo brutal" que o Gengè se permitiu, convencida de que foi uma troça, e o recrimina pelo despejo de Marco di Dio debaixo de chuva e por ter assistido a ele; concorda com Firbo que a brincadeira, de tão ruim, merece manicômio, e o manda levar Bibi para passear. Vitangelo fica como um insensato, sai e se encosta ao muro do patamar com vontade de sentar no primeiro degrau para nunca mais se levantar.

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Capítulo III: Falando com Bibi no terreno vazio

Resumo do capítulo

Com a cadela Bibi puxando a coleira vermelha, como quem também não quer ir, Vitangelo caminha rente aos muros sem saber onde pôr os olhos e vai se esconder a poucos passos de casa, no cercado de um terreno vendido para uma casa que ainda não subiu: valas para os alicerces, montes de terra, pedras de obra espalhadas no mato como caídas e velhas antes de usadas. Senta numa delas, diante de um muro branco e cego de sol, e fala com Bibi como se fosse gente. Diz que veio se esconder porque as pessoas o olham, que não suporta mais ser olhado, nem por ela, que perdeu para sempre nos olhos dos outros a sua realidade e a de todas as coisas, e que não sabe quem diz as palavras que lhe diz. Bibi se assusta e foge atrás de um gato branco, tropeça na coleira, rola, espirra; Vitangelo ri, volta a acariciá-la, propõe fecharem os olhos, e a cadela se deita aos pés dele e suspira de tédio. Ele se esconde de uma plateia universal e só consegue confidenciar a quem não responde; o animal não fala, mas nem ele o poupa: até do olhar da cadela Vitangelo tem medo.

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Capítulo IV: A visão dos outros e o chute

Resumo do capítulo

Depois de mais de uma hora afundado na meditação, no cercado, sobre se aquele não seria o momento de acabar com tudo, não tanto para se livrar do tormento quanto para surpreender a inveja que muitos lhe tinham e provar a imbecilidade que outros lhe atribuíam, Vitangelo se faz uma pergunta que traz o tormento de volta à tona: por que quem pensa em se matar se imagina morto não mais para si, mas para os outros? Ao tentar responder, imaginando a consternação da mulher, de Quantorzo e de Firbo, vê que nos olhos dele não há uma vista própria para dizer como ele se vê sem a vista dos outros, e que os seus olhos, sozinhos, não saberiam mais o que veem. Lembra de um susto da infância, quando se viu perdido no campo, longe de qualquer rastro, e entende que o espanto de então era o horror de que algo se revelasse a ele sozinho, fora da vista dos outros. Levanta-se em pânico, vê o próprio horror nos olhos de Bibi, que também se pôs de pé, e, para tirá-lo da frente, dá-lhe um pontapé; ao ouvir os ganidos, agarra a cabeça e grita que está enlouquecendo. Nesse gesto de desespero volta a se ver, e o pranto vira riso: chama a cadela meio manca, manca também de brincadeira, diz que estava só brincando e quer continuar, e responde com espirros aos espirros dela, que parecem dizer "recuso".

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Capítulo V: O jogo das ilusões alheias

Resumo do capítulo

Vitangelo responde ao remorso do chute negando-o. "Um pontapé? Eu?" Foi um moleque perdido no campo, diz ele, tomado por um espanto de nada, de um nada que podia de repente virar alguma coisa e que só ele veria. Ali na cidade, na rua, esse perigo não existe: cada um vive dentro da ilusão do outro, e pode ter certeza de que os outros se enganam se disserem que não, isto é, que cada um não é como o outro o vê. Vitangelo sente vontade de gritar a todos "Vamos jogar!", de acenar para quem espia pela janela, até abrindo a janela para se jogar. Imagina a graça que haveria em voltar um instante, depois de morto, para ver nas ilusões dos que seguem vivos o mundo em que se supôs viver. O problema é que ele ainda está vivo e vê esse jogo entre os outros vivos sem poder penetrá-lo, e essa impossibilidade de entrar no jogo que sabe estar nos olhos de todos o leva a uma alegria feroz, a de querer disparar em todos o chute que deu na cadela.

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Capítulo VI: Oito pessoas num salão de três

Resumo do capítulo

Ao voltar para casa, Vitangelo encontra Quantorzo em séria confabulação com Dida no salãozinho claro e na penumbra: ele gordo e escuro, afundado no sofá verde; ela esguia e branca, numa poltrona, com uma flecha de sol na nuca. Falavam certamente dele, porque, ao vê-lo entrar, exclamam juntos "Ah, aí está ele!". Como são dois a vê-lo entrar, vem-lhe a tentação de virar-se para procurar o outro que entra com ele, pois sabe que o "caro Vitangelo" de Quantorzo está nele como o Gengè de Dida e que ele inteiro, para cada um, não é senão aquela figura. Dois, portanto, só para ele, que se sabe um e um para eles; e isso, em vez de um a mais, é um a menos, porque quer dizer que, aos olhos deles, ele como ele não é ninguém. Quando Dida repara no gesto e pergunta quem ele procura, ele responde sorrindo "ninguém, querida", e eles, sem entender, supõem que o "aqui estamos" inclui os dois, convencidos de que no salão são agora três. Vitangelo faz a conta: Dida como é para si, Dida como é para ele, Dida como é para Quantorzo, Quantorzo como é para si, para Dida e para ele, mais o Gengè de Dida e o caro Vitangelo de Quantorzo: nove, ou oito, já que ele, para si mesmo, já não conta. Prepara-se uma bela conversa entre oito que se creem três.

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Capítulo VII: O olhar que não sabe o que vê

Resumo do capítulo

Antes de a conversa começar, Vitangelo pensa, entre parênteses, no efeito que o seu olhar pode ter sobre os dois: os dois não vão sentir faltar de repente a sua bela segurança, vendo-se olhados por olhos que não sabem o que veem? Basta olhar alguém que faz a coisa mais comum da vida e deixar nascer nele a dúvida de que não sabemos o que ele está fazendo, e que talvez nem ele saiba, para que a segurança dele se turve e vacile. Nada desconcerta mais do que dois olhos vazios que mostram não nos ver, ou não ver o que nós vemos. Quem recebe esse olhar pergunta "por que olhas assim?", e ninguém pensa que todos deveríamos olhar sempre assim, cada um com os olhos cheios do horror da própria solidão sem escapatória.

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Capítulo VIII: O riso que fere o ponto vital

Resumo do capítulo

Quantorzo se perturba assim que os olhos dele encontram os de Vitangelo, e Vitangelo logo descobre a razão: Quantorzo leu nos olhos do patrão que este adivinhou o motivo da visita, que é amarrá-lo de pés e mãos, de acordo com Firbo, ameaçando deixar a direção do banco se ele praticar mais atos arbitrários. Vitangelo decide desconcertá-lo, desta vez devagar, pelo gosto de mostrar que uma palavra e um tom bastam para derrubar a firmeza e a realidade que o outro sente como sólidas. Provoca com um "Ainda?" e desafia Quantorzo a perguntar o que ele achou na prateleira de papéis que revirou: um palmo de pó. "Eu observo tudo", diz, sem precisar de espiões, e pergunta quem responde pelos atos do banco perante a cidade. É ele, que assina; os dois querem a assinatura dele em tudo e negam a deles no único ato que ele pratica. Quantorzo diz que o ato foi de louco; Vitangelo se levanta, aponta-lhe o indicador no peito e pergunta se o julga louco. Quantorzo nega e logo se arrepende, e Dida, vendo os dois, passa a duvidar também dele. Vitangelo ri, pergunta se Quantorzo já pesou na consciência o que os atos "normais" do banco pesam para os outros e se queixa de ser ele quem ouve, lá fora, que o chamam de usurário. Quantorzo faz uma mímica furiosa de espanto e aponta a mulher, que ri até se desmanchar. O riso de Dida fere Vitangelo num ponto vital, e ele perde a luz dos olhos: manda-a parar e exige o banco fechado naquela mesma noite. Quantorzo protesta que o nome é do pai, o dinheiro está investido, a mulher e o sogro seriam arruinados; Vitangelo só repete "quero". Quantorzo pergunta por quê, e ele vê que não poderia dizer: o primeiro motivo, o de que nunca se vira como o viam, usurário tranquilo, já fora recebido como ingenuidade inverossímil. Dida o repreende, quase de mãos ao rosto; ele a agarra pelos pulsos, a empurra na poltrona, grita contra o Gengè, pergunta a Quantorzo se entendeu e sai da sala.

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