Clavis Libri

Símbolo

A sala decorada

O que é

A casa que Ivan Ilitch Golovin monta sozinho na cidade nova, no capítulo III, e sobretudo a sala de visitas: papel de parede, móveis antigos comprados barato que dão a tudo um ar nobre, bronzes, pratos japoneses nas paredes, o cretone cor-de-rosa sobre o qual ele consultou um colega, os álbuns arrumados com amor. É o orgulho da vida dele, o lugar onde cai da escada, o biombo que tapa a ideia da morte e, no velório, o cenário em que os vivos cumprem o decoro.

Onde aparece

No capítulo I, Prascóvia Fiódorovna Golovina leva Piotr Ivánovitch à sala forrada de cretone cor-de-rosa; ele se senta num pufe baixo de molas estragadas, que se rebela debaixo dele cada vez que se levanta para soltar da mesa a renda da mantilha da viúva, e lembra que Ivan Ilitch o consultara sobre aquele mesmo cretone. Na sala de jantar ao lado, o relógio que o morto comprara num bricabraque e de que tanto gostava.

No capítulo III Ivan Ilitch acha o apartamento, cuida ele mesmo de cada detalhe, cai da escadinha ao pendurar as cortinas (A queda e a cortina), e todos acham a casa encantadora. O narrador diz o que ela era:

В сущности же, было то самое, что бывает у всех не совсем богатых людей, но таких, которые хотят быть похожими на богатых и потому только похожи друг на друга, Na verdade, era aquilo mesmo que há na casa de todas as pessoas não muito ricas, mas que querem parecer-se com os ricos e por isso só se parecem umas com as outras.
Capítulos I a III: O velório e a vida

Depois de pronta, a casa o irrita por qualquer mancha na toalha ou cordão de cortina rompido, porque pôs nela muito trabalho; e a família, sem combinar, afasta os parentes pobres que vinham à sala de pratos japoneses.

No capítulo VI, procurando biombos contra a morte, ele entra na sala, nota um risco na mesa laqueada, acha a causa no ornamento de bronze dobrado de um álbum, irrita-se com o desleixo da filha, Lisa, e dos amigos dela, e resolve mudar os álbuns de lugar. Enquanto discute com a mulher e a filha não pensa na morte, até que a mulher fala em se machucar de novo:

И правда, что здесь, на этой гардине, я, как на штурме, потерял жизнь. Неужели? Как ужасно и как глупо!, E é verdade que aqui, nesta cortina, eu perdi a vida como num assalto. Será possível? Que horror, e que estupidez!
Capítulos IV a VII: A doença e a mentira

No capítulo VII a mentira em volta dele rebaixa a morte ao nível das visitas, das cortinas e do esturjão do jantar, e no capítulo VIII o quarto do doente é sempre o mesmo, com os mesmos quadros, cortinas, papel de parede e frascos.

O que significa

A sala é a Aparência e realidade feita objeto: Ivan Ilitch a acha única, e ela é igual à de toda a gente que quer parecer rica. Serve de cenário ao decoro dos vivos no capítulo I, onde o pufe rebelde é a única coisa na sala que não obedece, e de biombo no capítulo VI, onde arrumar um álbum faz esquecer a morte por alguns minutos.

O livro mostra a sala duas vezes do mesmo ponto: o objeto que Ivan Ilitch escolheu com cuidado. O cretone sobre o qual ele consultou Piotr Ivánovitch no capítulo I e o álbum que ele mesmo compôs com amor no capítulo VI são as provas de um gosto que o narrador do capítulo III já disse não ser dele, e sim da classe que ele imita. Duas leituras do cuidado cabem no texto. Numa, é vaidade, a das alegrias sociais que o capítulo III chama de alegrias da vaidade. Noutra, é o único lugar em que ele põe trabalho e afeto fora do serviço, e por isso o riscado na mesa o fere tanto. As duas terminam na mesma frase do capítulo VI: perder a vida numa cortina é horrível e estúpido.

Relações