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Tema em A Morte de Ivan Ilitch

Morte

A morte e a mortalidade: o morrer, a consciência do próprio fim, o além, a morte violenta como acontecimento da obra.

O tema na obra

A novela dá a morte do protagonista na primeira página e passa o resto do livro mostrando como ela é recebida: pelos colegas, que a leem no jornal pensando nas promoções; pela família, que a trata como doença enquanto pode; e pelo próprio Ivan Ilitch Golovin, que a reconhece numa noite, luta contra ela por semanas e, no fim, não a encontra. O que o livro conta não é o fato, é a distância entre o saber que todos morrem e o saber que eu vou morrer, e o percurso de um homem do primeiro saber ao segundo.

No capítulo I, os colegas do gabinete leem o aviso fúnebre, e o narrador diz o que sentem, sem exceção:

самый факт смерти близкого знакомого вызвал во всех, узнавших про нее, как всегда, чувство радости о том, что умер он, а не я, o próprio fato da morte de um conhecido próximo despertou em todos os que souberam dela, como sempre, o sentimento de alegria por ter morrido ele, e não eu.
Capítulos I a III: O velório e a vida

No mesmo capítulo, Piotr Ivánovitch sente medo por si ao ouvir que o morto gritou três dias, e o medo passa com a ideia de costume (aquilo aconteceu com Ivan Ilitch, e não com ele). Só Gerássim, na antessala, fala da morte como coisa de todos.

No capítulo V, depois do olhar do cunhado e da noite com o apêndice, Ivan Ilitch apaga a vela e entende:

Не в слепой кишке, не в почке дело, а в жизни и… смерти. Да, жизнь была и вот уходит, уходит, и я не могу удержать ее., Não é o apêndice, não é o rim, o caso é a vida e... a morte. Sim, a vida existia, e eis que vai embora, vai embora, e eu não posso detê-la.
Capítulos IV a VII: A doença e a mentira

No capítulo VI, a lógica que ele aprendeu na escola lhe dá a conclusão, e ele não consegue aplicá-la a si:

Тот пример силлогизма, которому он учился в логике Кизеветера: Кай — человек, люди смертны, потому Кай смертен, казался ему во всю его жизнь правильным только по отношению к Каю, но никак не к нему, Aquele exemplo de silogismo que estudara na lógica de Kiesewetter, Caio é homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal, parecera-lhe a vida inteira correto somente em relação a Caio, mas de modo nenhum em relação a ele.
Capítulos IV a VII: A doença e a mentira

No capítulo VII, Gerássim diz o que a casa inteira evita, e o diz no plural:

Все умирать будем. Отчего же не потрудиться?, Todos vamos morrer. Por que não me esforçar?
Capítulos IV a VII: A doença e a mentira

No capítulo IX, a vida inteira lhe aparece como uma ladeira que ele descia imaginando subir, e a frase termina na ordem seca de morrer:

Точно равномерно я шел под гору, воображая, что иду на гору. Так и было. В общественном мнении я шел на гору, и ровно настолько из-под меня уходила жизнь… И вот готово, умирай!, Era como se eu descesse a montanha num passo regular, imaginando que subia. Foi assim mesmo. Na opinião pública eu subia a montanha, e na mesma medida a vida fugia debaixo de mim... E pronto, agora morre!
Capítulos VIII a XII: A morte

No capítulo XII, depois de três dias de grito no saco preto, ele procura o medo de sempre e não o acha:

Он искал своего прежнего привычного страха смерти и не находил его. Где она? Какая смерть? Страха никакого не было, потому что и смерти не было. Вместо смерти был свет., Ele procurou o seu medo habitual da morte, o de antes, e não o encontrou. Onde ela está? Que morte? Não havia medo nenhum, porque também não havia morte. Em lugar da morte havia luz.
Capítulos VIII a XII: A morte

O livro mede a morte pela distância entre o ele e o eu. Os colegas do capítulo I ficam contentes porque morreu ele, e não eu; Ivan Ilitch, no capítulo VI, aceita que Caio morra e não ele; a família do capítulo VIII se cala de medo de que a mentira se rompa e fique claro o que é. Só no capítulo XII, quando a atenção dele passa de si para o filho e a mulher, a morte deixa de ser o que ele esperava, e o texto diz que não havia medo porque não havia morte.

Quem o encarna

Ivan Ilitch é a morte vista de dentro, do primeiro gosto estranho na boca do capítulo IV ao último suspiro do capítulo XII. Piotr Ivánovitch é a morte vista de fora, pelo vivo que se benze, consola a viúva e vai jogar vint no mesmo dia (capítulo I). Gerássim é quem a aceita como coisa comum, sem precisar esconder nem dramatizar, e é por isso o único com quem o moribundo se sente bem (capítulo VII).

ему на помощь пришла обычная мысль, что это случилось с Иваном Ильичом, а не с ним и что с ним этого случиться не должно и не может, veio em seu socorro a ideia de costume: aquilo tinha acontecido com Ivan Ilitch, e não com ele, e com ele não devia nem podia acontecer.
Capítulos I a III: O velório e a vida

Onde aparece

  • Capítulo I: Os colegas leem o aviso fúnebre e sentem alegria por ter morrido ele, e não eu; Piotr Ivánovitch vê o morto, sente medo por si e se acalma; Gerássim diz que todos vão parar lá.
  • Capítulo V: Depois do olhar do cunhado e do espelho, Ivan Ilitch entende, sozinho à noite, que não se trata de rim nem de apêndice, mas de vida e de morte.
  • Capítulo VI: O silogismo de Caio vale para Caio e não para Ivan Ilitch, e a morte o olha de trás dos biombos que deviam escondê-la.
  • Capítulo VII: No terceiro mês, todos esperam que Ivan Ilitch libere o lugar, e Gerássim lhe diz que todos vão morrer.
  • Capítulo IX: A vida aparece a Ivan Ilitch como uma descida que ele tomava por subida, e ele chora pela crueldade e pela ausência de Deus.
  • Capítulo X: De rosto para a parede, Ivan Ilitch vive a solidão mais completa e compara a vida a uma pedra que cai cada vez mais depressa.
  • Capítulo XII: Ivan Ilitch passa três dias gritando no saco preto, cai no buraco, sente pena do filho e da mulher e vê a luz no lugar da morte.

Onde as leituras divergem

A morte do capítulo XII se lê de dois modos, e o texto sustenta os dois. Como experiência religiosa, prepara-se na confissão e na comunhão do capítulo XI e se cumpre na luz. Como descoberta moral, depende só do que Ivan Ilitch faz nos minutos finais: largar a justificação da vida boa e ter pena dos outros. A ordem do texto favorece a segunda (a esperança da comunhão se desfaz no mesmo capítulo), mas a luz não se explica só por ela.

Também diverge o que acaba no fim: a morte, como Ivan Ilitch repete na alma, ou o medo dela. Para os presentes, a agonia dura ainda duas horas; para ele, tudo acontece num instante. O livro conta a mesma morte dos dois lados e deixa ao leitor decidir qual dos dois relatos é o verdadeiro.