O que é
O tombo de Ivan Ilitch Golovin da escadinha, no capítulo III, quando sobe para mostrar ao estofador como queria o drapeado das cortinas da casa nova, e a cortina a que ele mesmo atribui, no capítulo VI, a perda da vida. A queda é banal, contada numa frase no meio da enumeração dos móveis; o golpe de lado no puxador do caixilho dói e passa. O livro volta a ela três vezes, e no fim troca a queda que ele segura por outra, que ele não segura, para dentro do buraco do capítulo XII.
Onde aparece
No capítulo III, no meio da decoração, ele pisa em falso e se segura, como homem forte e ágil que é:
Раз он влез на лесенку, чтобы показать непонимающему обойщику, как он хочет драпировать, оступился и упал, но, как сильный и ловкий человек, удержался, только боком стукнулся об ручку рамы., Uma vez subiu numa escadinha para mostrar ao estofador, que não entendia, como queria o drapeado, pisou em falso e caiu, mas, como homem forte e ágil, segurou-se, e só bateu de lado no puxador do caixilho.
À noite ri do susto do estofador, diz que outro teria morrido e que ele só ganhou um roxo, e escreve à família que se sente quinze anos mais moço.
No capítulo V, na noite da descoberta, ele refaz a história da doença desde o começo, e o começo é o tombo: bateu o flanco, continuou o mesmo, e depois veio a dor.
No capítulo VI, ao arrumar o álbum na sala de visitas (A sala decorada), Prascóvia Fiódorovna Golovina lhe diz que deixe os criados fazerem, que ele vai se machucar de novo, e ela, a morte, o olha de trás das flores. Ele liga a doença à cortina:
И правда, что здесь, на этой гардине, я, как на штурме, потерял жизнь. Неужели? Как ужасно и как глупо!, E é verdade que aqui, nesta cortina, eu perdi a vida como num assalto. Será possível? Que horror, e que estupidez!
No capítulo VII a mentira em volta dele rebaixa a morte ao nível das visitas, das cortinas e do esturjão no jantar. No capítulo VIII o lacaio abre uma das cortinas para fazer a manhã, e depois da visita do médico famoso o quarto é de novo o mesmo, com os mesmos quadros, cortinas, papel de parede e frascos.
No capítulo XII, depois de três dias no saco preto (O saco preto), uma força o empurra no peito e no flanco, e desta vez ele cai:
Пролезть же ему мешает признанье того, что жизнь его была хорошая., O que o impede de passar é o reconhecimento de que a sua vida foi boa.
O que significa
A queda faz duas coisas. É a causa que Ivan Ilitch dá à doença, e por isso a medida do ridículo que ele sente no capítulo VI: perder a vida como num assalto de guerra, mas numa cortina, por causa de uma sala que queria igual à das pessoas mais bem situadas. E é a primeira de duas quedas: no capítulo III ele se segura porque é forte e ágil, e no capítulo XII cai no buraco e lá no fundo algo brilha (A luz).
A cortina não é só o lugar do acidente, é o objeto que resume a vida inteira dele: decoração, forma, o drapeado que só ele sabe como deve ficar. O capítulo VII e o capítulo VIII a repetem como parte do cenário que a mentira protege. Duas leituras do tombo cabem no texto. Numa, ele é causa real, e o livro faz a morte nascer do gesto mais característico da vida que matou. Noutra, é a causa que Ivan Ilitch escolhe, porque é ainda uma explicação de órgão e de acidente, do mesmo tipo do rim e do apêndice que ele abandona no capítulo V; o texto nunca diz o que ele tem. Nas duas, a queda que salva é a segunda, a que ele não segura.
Relações
- Temas-padrão: Morte, Aparência e realidade.
- Temas da obra: Morte, Aparência e realidade.
- Personagens: Ivan Ilitch Golovin, Prascóvia Fiódorovna Golovina.
- Símbolos vizinhos: a sala decorada, porque a cortina é parte da sala; o saco preto e a luz, porque a última queda é para dentro do saco e termina na luz.