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Símbolo

O cavalo de Troia

O que é

O cavalo de Troia é a máquina de guerra com que os gregos derrubam Troia depois de dez anos de cerco: um cavalo de abeto do tamanho de um monte, que os chefes gregos fingem oferecer em voto pelo regresso, com guerreiros escolhidos fechados no ventre, enquanto a frota se esconde atrás da ilha de Tenedos. Dentro do poema ele é também um objeto de leitura: ninguém na cidade sabe o que ele é, e a discussão sobre o que fazer com ele ocupa os troianos antes do primeiro golpe. Quem o conta é Enéias, a pedido de Dido, no banquete de Cartago, e por isso o cavalo chega ao leitor como lembrança de um sobrevivente que se inclui entre os enganados.

Onde aparece

Todo o episódio está no Livro II, que Enéias abre dizendo que a rainha manda renovar uma dor sem nome:

Infandum, regina, jubes renovare dolorem, / Trojanas ut opes et lamentabile regnum / Eruerint Danai; quaeque ipse miserrima vidi / Et quorum pars magna fui, mandas, rainha, que eu renove uma dor indizível: como os dânaos destruíram as riquezas troianas e o reino digno de lágrimas, e as misérias que eu mesmo vi e de que fui grande parte.
Livro II: A queda de Troia

Os troianos saem para ver o acampamento deserto e se dividem diante do cavalo: Timetes quer levá-lo para dentro dos muros, e Capis e os mais prudentes querem jogá-lo ao mar, queimá-lo ou furar-lhe o ventre. Laocoonte, sacerdote de Netuno, desce correndo da cidadela, adverte a multidão e crava a lança no flanco do animal, que ressoa oco:

Aut aliquis latet error: equo ne credite, Teucri. / Quidquid id est, timeo Danaos et dona ferentes., ou algum outro engano se esconde: não confieis no cavalo, troianos. Seja o que for, temo os dânaos, mesmo quando trazem presentes.
Livro II: A queda de Troia

Pastores trazem então um jovem grego de mãos atadas, Sinon, que se deixou capturar de propósito. Ele chora, diz que os gregos queriam sacrificá-lo e jura que o cavalo é uma oferenda a Minerva, feito imenso para não passar pelas portas: se os troianos o ferissem, a ruína cairia sobre Príamo, e se o levassem para a cidade, a Ásia levaria a guerra à Grécia. Príamo, comovido, manda soltá-lo:

Talibus insidiis, perjurique arte Sinonis, / Credita res; captique dolis, lacrymisque coacti, / Quos neque Tydides, nec Larissaeus Achilles, / Non anni domuere decem, non mille carinae., com tais insídias e com a arte do perjuro Sinon a coisa foi crida; fomos tomados por ardil e forçados por lágrimas, nós a quem nem o Tidida, nem Aquiles de Larissa, nem dez anos, nem mil navios dominaram.
Livro II: A queda de Troia

Duas serpentes marinhas saem de Tenedos e matam Laocoonte e os dois filhos, e o povo conclui que ele foi castigado por ferir a madeira sagrada. Os troianos abrem a muralha e puxam o cavalo, que tropeça no limiar com ruído de armas, e Enéias interrompe a narração:

O patria, o divum domus Ilium, et inclyta bello / Moenia Dardanidum! quater ipso in limine portae / Substitit, atque utero sonitum quater arma dedere. / Instamus tamen immemores, caecique furore, ó pátria, ó Ílio, morada dos deuses, e muralhas famosas na guerra dos dardânidas! Quatro vezes parou no próprio limiar da porta, e quatro vezes as armas soaram no ventre. Mesmo assim insistimos, esquecidos e cegos de furor.
Livro II: A queda de Troia

No meio da festa, Cassandra fala, e o poema lhe dá só dois versos:

Tunc etiam fatis aperit Cassandra futuris / Ora, dei jussu non unquam credita Teucris., então também Cassandra abre a boca para os fados futuros, ela que, por ordem do deus, nunca foi crida pelos teucros.
Livro II: A queda de Troia

À noite a frota volta de Tenedos, Sinon abre o ventre do cavalo e os chefes saem, matam as sentinelas e abrem os portões. Da queda saem os exílios do poema: Enéias perde Troia, perde Creúsa na fuga e carrega consigo os Penates.

No Livro VI, na descida ao mundo dos mortos, o cavalo reaparece por uma boca inesperada. Deífobo, filho de Príamo, desfigurado, conta a Enéias a última noite pelo lado de dentro do palácio: começa pelo cavalo fatal que saltou sobre as altas muralhas e trouxe no ventre pesado a infantaria armada, e depois descreve Helena, que, fingindo um coro báquico, chamou os gregos do alto da cidadela com uma tocha e lhe tirou a espada da cabeceira.

Illa, chorum simulans, Evantes orgia circum / Ducebat Phrygias: flammam media ipsa tenebat / Ingentem, et summa Danaos ex arce vocabat [...] Egregia interea conjux arma omnia tectis / Emovet, et fidum capiti subduxerat ensem, ela, fingindo um coro, conduzia as frígias em orgia báquica em volta; ela mesma, no meio, segurava uma enorme chama e chamava os dânaos do alto da cidadela [...] a ilustre esposa, entretanto, leva embora todas as armas da casa e tinha tirado da minha cabeceira a espada fiel
Livro VI: A descida ao mundo dos mortos

O que significa

O cavalo é um presente que mente sobre a própria natureza. A cidade que resistiu dez anos cede ao choro de um só homem, e o texto sustenta duas leituras: ingenuidade, ou cansaço de um cerco que ninguém aguentava mais, e a história de Sinon oferece justamente o fim da guerra que a cidade queria ouvir. Enéias, que já sabe o fim, atribui a queda à compaixão, e não à força dos gregos.

Em torno do cavalo, a religião vira instrumento. Sinon usa Minerva para convencer, a morte de Laocoonte é lida como castigo por ferir a madeira sagrada, e Cassandra, que acerta, por ordem do deus nunca é crida. Laocoonte, que acerta só por conhecer o inimigo e não tem sinal divino, é calado por um prodígio que a cidade interpreta contra ele. O poema mostra uma cidade que só escuta o que lhe agrada.

Os troianos recebem avisos e não os ouvem: a lança que ressoa oca, os quatro tropeços no limiar, as armas que soam no ventre. O narrador diz que só os fados e a mente desviada dos troianos impediram o esconderijo de ser descoberto, e Enéias não se isenta, porque diz "insistimos", no plural. Quem narra a Dido aceita contar a queda como erro também seu.

O cavalo é o oposto do que a Eneida pede aos seus heróis: um sinal que mente. O poema vai de um lado ao outro entre sinais falsos e sinais verdadeiros mal lidos, e o Livro III mostra Enéias aprendendo a ler sinais e errando ainda uma vez, com Creta, antes de os Penates corrigirem. A queda de Troia é o primeiro erro de leitura da história, e o destino de Roma vem dessa lição cara.

Relações

  • Temas-padrão: Guerra, Destino e livre-arbítrio, Lar, exílio e retorno.
  • Personagens: Enéias, Dido, Creúsa.
  • Símbolos vizinhos: os Penates, o que se salva da noite do cavalo.