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O cinturão de Palante

O que é

O cinturão de Palante é o talim, a correia que sustenta a espada, que Palante leva ao ombro quando morre no Livro X. É de ouro trabalhado pelo artesão Clono e traz gravado o massacre dos maridos pelas filhas de Dânao, numa só noite de núpcias. Turno o arranca do cadáver e passa a usá-lo como troféu, e o poema o devolve no último momento do Livro XII, no ombro do vencido: é a visão dele que decide o golpe final de Enéias.

Onde aparece

No Livro VIII, Evandro entrega o filho a Enéias para que ele aprenda a guerra, e na despedida lamenta já não ter a força que teve, o que o obriga a dar a quem a tem o filho que mais ama:

Non ego nunc dulci amplexu divellerer usquam, / Nate, tuo; neque finitimo Mezentius unquam / Huic capiti insultans, tot ferro saeva dedisset / Funera, tam multis viduasset civibus urbem, eu agora não seria arrancado do teu doce abraço, filho; e Mezêncio, insultando esta cabeça tão vizinha, não teria feito tantas mortes a ferro nem deixado viúva de tantos cidadãos a cidade.
Livro VIII: O escudo

No Livro X, Palante, que sabe não ter a força de Turno, reza a Hércules, e Turno o atravessa com a lança. Depois de dizer aos árcades que devolve o corpo a Evandro, Turno arranca o talim:

rapiens immania pondera baltei, / Impressumque nefas: una sub nocte jugali / Caesa manus juvenum foede thalamique cruenti, arrancando o enorme peso do talim e o crime nele gravado: um grupo de jovens degolado, de modo atroz, numa só noite de núpcias, e os leitos cheios de sangue.
Livro X: A batalha

Nesse ponto o narrador interrompe a cena e fala de Turno, anunciando que ele odiará este despojo:

Nescia mens hominum fati sortisque futurae, / Et servare modum, rebus sublata secundis! / Turno tempus erit, magno cum optaverit emptum / Intactum Pallanta, et cum spolia ista diemque / Oderit, ó espírito humano, ignorante do destino e da sorte que virá, e incapaz de guardar a medida quando a prosperidade o exalta! Chegará o tempo em que Turno desejará ter pago caro para ver Palante intacto, e odiará estes despojos e aquele dia.
Livro X: A batalha

Quando a notícia chega a Enéias, ele avança sem pausa e recusa o resgate de Mago, dizendo que Turno aboliu as trocas de guerra ao matar Palante:

Argenti atque auri memoras quae multa talenta, / Gnatis parce tuis: belli commercia Turnus / Sustulit ista prior, jam tum Pallante perempto. / Hoc patris Anchisae Manes, hoc sentit Iulus, a prata e o ouro de que falas em tantos talentos, guarda-os para teus filhos: Turno foi o primeiro a abolir esses negócios de guerra, quando matou Palante. Isto sentem as sombras de meu pai Anquises e Iulo.
Livro X: A batalha

No Livro XI, diante do corpo, Enéias se acusa de não ter cumprido a palavra dada ao pai, e Evandro, em Palanteu, lhe manda dizer que a única razão que lhe resta de viver é que a mão dele cobre a morte de Turno. O talim não aparece nesse livro, mas a dívida que ele vai cobrar fica contraída ali:

Hi nostri reditus, exspectatique triumphi? / Haec mea magna fides!, é este o nosso regresso, são estes os triunfos esperados? Esta é a minha grande fé!
Livro XI: Camila
Quod vitam moror invisam, Pallante perempto, / Dextera causa tua est, Turnum gnatoque patrique / Quam debere vides: meritis vacat hic tibi solus / Fortunaeque locus, se ainda me demoro numa vida odiosa, morto Palante, a causa é a tua mão: vês que ela deve Turno ao filho e ao pai; só este lugar resta para os teus méritos e a tua fortuna.
Livro XI: Camila

No Livro XII, Turno, caído, pede a Enéias a vida ou o corpo, apela ao pai Anquises e lhe dá Lavínia diante dos ausônios:

Equidem merui, nec deprecor, inquit; / Utere sorte tua. Miseri te si qua parentis / Tangere cura potest, oro (fuit et tibi talis / Anchises genitor), Dauni miserere senectae; / Et me, seu corpus spoliatum lumine mavis, / Redde meis. Vicisti, et victum tendere palmas / Ausonii videre: tua est Lavinia conjux; / Ulterius ne tende odiis, mereci, e não peço que me poupem; usa a tua sorte. Se algum cuidado de um pai infeliz pode te tocar, peço (também tu tiveste um pai assim, Anquises), tem pena da velhice de Dauno; e a mim, se preferes o corpo despojado de luz, devolve aos meus. Venceste, e os ausônios viram o vencido estender as palmas: Lavínia é tua esposa; não leves mais longe o ódio.
Livro XII: Turno

Enéias ia ceder, quando o talim aparece. O poema o chama de infeliz e diz que Enéias, ao ver nos ombros do vencido aquela insígnia hostil, bebe com os olhos o monumento da dor cruel e o despojo, e se inflama de furor. Ele nomeia Palante duas vezes e atribui o golpe a ele:

Tune hinc spoliis indute meorum / Eripiare mihi? Pallas te hoc vulnere, Pallas / Immolat et poenam scelerato ex sanguine sumit, tu, vestido com os despojos dos meus, escaparás de mim daqui? Palante, Palante te imola com este golpe e cobra a pena do teu sangue criminoso.
Livro XII: Turno

O que significa

O talim é um troféu que vira prova. Turno o quer porque é rico, de ouro trabalhado, e exulta com a posse, e o narrador diz que chegará o tempo em que ele desejará ter pago caro para ver Palante intacto e odiará o despojo. Turno age como quem se acha dentro da regra: devolve o corpo e concede o túmulo. O que guarda para si é o que o narrador diz que ele vai odiar.

O talim liga as três pontas de uma palavra dada. Evandro confia o filho a Enéias no Livro VIII, Palante morre no Livro X com o talim ao ombro, e no Livro XII Enéias, que no Livro XI chamou de "minha grande fé" a palavra dada ao pai, cumpre a cobrança de Evandro. Ele não invoca o tratado, Latino nem Roma: nomeia Palante.

O desfecho admite duas leituras que se apoiam nos mesmos versos. Pela primeira, há justiça: Turno matou Palante, usa o talim como troféu, e Enéias cumpre o que Evandro lhe cobrou. Pela segunda, o golpe é o preço do império: o vencedor mata um rendido, que pediu a vida em nome de um pai velho, movido por raiva e não por lei. O poema acaba no golpe, sem dizer mais nada.

A cena gravada no talim é uma noite de núpcias que acaba em massacre, e o poema termina num duelo em que o vencedor fica com uma noiva, Lavínia, e o vencido a entrega antes de morrer. O texto não comenta a coincidência, e não é preciso forçá-la: basta notar que o objeto que decide o fim tem, desenhado, o avesso do que o fim devia ser, um casamento que sela a paz.

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