O que é
Os Penates são os deuses domésticos de Troia, as imagens sagradas da casa e da cidade que Enéias arranca do incêndio e leva pelo mar até a Itália. Na religião romana, o Penate guarda a continuidade de uma família e, em escala maior, a de uma cidade (Penates). Na Eneida eles são o que Troia tem de transportável: não sobrevive exército, muralha nem tesouro, só o culto, e por isso o poema apresenta a fundação de Roma como a mudança de um culto para outro lugar, e não como um começo do zero. Quase nunca falam: o poema os faz falar uma só vez, em sonho, e nas outras cenas eles viajam nas mãos de Anquises, nos navios e nas falas de outros personagens.
Onde aparece
O Livro I anuncia o assunto na primeira frase, e logo Juno descreve os troianos como um povo que leva Ílio à Itália junto com os Penates vencidos. A palavra "vencidos" volta no Livro VIII, quando os emissários latinos pedem ajuda a Diomedes dizendo que os troianos trazem os deuses vencidos para o Lácio.
No Livro II, na última noite de Troia, Heitor aparece em sonho a Enéias e lhe entrega uma tarefa no lugar da defesa da cidade: levar os objetos sagrados e os Penates e buscar para eles as muralhas que fundará depois de atravessar o mar.
Sacra suosque tibi commendat Troja Penates. / Hos cape fatorum comites: his moenia quaere, / Magna pererrato statues quae denique ponto., Troia te confia os seus objetos sagrados e os seus Penates. Toma-os como companheiros dos fados: busca para eles as muralhas que, depois de percorrido o mar, enfim fundarás.
Na fuga, Enéias carrega Anquises nos ombros, Ascânio vai pela mão e Creúsa vem atrás. Quem leva os Penates é o pai, porque Enéias, sujo do sangue da luta, não pode tocá-los antes de se lavar.
No Livro III, os troianos partem de Antandro com os Penates a bordo, e é com eles que o poema corrige o primeiro erro de rota. O oráculo de Apolo em Delos manda buscar a "antiga mãe", Anquises conclui que é Creta, os troianos fundam uma cidade ali e uma peste cai sobre ela. Então os Penates aparecem a Enéias em sonho, à luz da lua, e mandam mudar de sede:
Mutandae sedes: non haec tibi littora suasit / Delius, aut Cretae jussit considere Apollo., é preciso mudar de sede: não foram estas praias que o Délio te aconselhou, nem Apolo mandou que te fixasses em Creta.
No Livro IV, quando Dido confessa à irmã Ana que Enéias foi o primeiro a abalá-la desde a morte de Siqueu, ela fala também dos próprios Penates, espalhados pelo crime do irmão Pigmalião: a rainha fundadora de Cartago é, como Enéias, uma exilada que perdeu a casa.
Anna (fatebor enim), miseri post fata Sichaei / Conjugis, et sparsos fraterna caede Penates, / Solus hic inflexit sensus, animusque labantem / Impulit: agnosco veteris vestigia flammae, Ana (vou confessar), depois da sorte do infeliz Siqueu, meu marido, e dos Penates espalhados pelo crime do irmão, só este homem abalou os meus sentimentos e empurrou o meu ânimo que vacilava: reconheço os vestígios da antiga chama.
No Livro VII, depois de sete anos de errância, Enéias chega à terra prometida e a saúda, e em seguida dirige a saudação aos Penates, que desta vez têm onde ficar:
Salve, fatis mihi debita tellus; / Vosque, ait, o fidi Trojae, salvete, Penates. / Hic domus, haec patria est, salve, terra devida a mim pelos fados; e vós, disse ele, ó fiéis Penates de Troia, salve! Aqui está a casa, esta é a pátria.
No Livro VIII, o deus do Tibre fala a Enéias dormindo e lhe diz que os Penates dele agora são certos e que a ira dos deuses cedeu:
Hic tibi certa domus, certi, ne absiste, Penates; / Neu belli terrere minis: tumor omnis et irae / Concessere deum, aqui tens casa certa e Penates certos, não desistas; não te assustes com as ameaças da guerra: todo o inchaço da ira dos deuses cedeu.
No mesmo livro, o escudo forjado por Vulcano mostra Augusto na popa em Ácio, com os senadores, o povo, os Penates e os grandes deuses, de modo que a herança que Enéias trouxe de Troia reaparece, séculos depois, como a herança de Roma inteira.
Hinc Augustus agens Italos in praelia Caesar, / Cum patribus populoque, Penatibus et magnis diis, / Stans celsa in puppi; geminas cui tempora flammas / Laeta vomunt, patriumque aperitur vertice sidus, de um lado Augusto César, levando os italianos à batalha, com os senadores e o povo, os Penates e os grandes deuses, de pé na alta popa; suas têmporas, alegres, lançam duas chamas, e sobre a cabeça abre-se o astro paterno.
O Livro XII fecha o percurso dos deuses. Ao jurar o tratado do duelo, Enéias oferece aos latinos os ritos e os deuses dele, e deixa a Latino as armas e o comando. No céu, Juno pede que os latinos conservem nome, língua e roupa e que Troia caia com o seu nome, e Júpiter concede que os ausônios guardem a fala e os costumes e acrescenta que dará o costume e os ritos sagrados:
Sermonem Ausonii patrium moresque tenebunt; / Utque est, nomen erit: commixti corpore tanto / Subsident Teucri: morem ritusque sacrorum / Adjiciam, faciamque omnes uno ore Latinos, os ausônios manterão a fala dos pais e os costumes; o nome será como é: os teucros, misturados num corpo tão grande, se assentarão; acrescentarei o costume e os ritos sagrados, e farei todos latinos de uma só boca.
O que significa
O objeto que o poema escolhe salvar diz o que ele entende por cidade. Heitor não entrega a Enéias armas nem tesouro, entrega o culto, e a conclusão é que Roma nasce como continuidade religiosa: o que atravessa o mar é o que faz de um grupo de refugiados uma casa.
A autoridade dos Penates vem da fidelidade, e não da grandeza. No Livro III eles corrigem o oráculo de Apolo sem negá-lo, dizem que é o próprio Apolo quem os manda à porta de Enéias e se apoiam em terem seguido o herói desde Troia incendiada. Enéias acredita porque vê os rostos, e o suor frio que o cobre diz que não era sono. O poema separa assim a fonte divina, que não erra, da interpretação humana, que erra: o engano de Anquises custa uma cidade e uma peste antes de ser desfeito.
No fim do poema, os deuses são a parte de Troia que continua em Roma, e o nome troiano é a parte que some. O texto sustenta duas leituras: a reconciliação de vencedor e vencido num povo misto e piedoso, ou o apagamento de Troia, que só sobrevive como memória de Roma.
A cena da fuga monta uma cadeia: o filho carrega o pai, e o pai carrega os deuses. A Pietas aparece aí como trajeto, e não como sentimento: cada elo leva o anterior, e quem perde um elo, como Creúsa, fica para trás. O poema mostra os Penates mais como carga do que como poder, e é a carga que dá a Enéias o direito de dizer "aqui está a casa".
Relações
- Temas-padrão: Lar, exílio e retorno, Dever, Destino e livre-arbítrio, Império e colonialismo.
- Personagens: Enéias, Anquises, Ascânio, Creúsa, Dido, Juno.
- Símbolos vizinhos: o cavalo de Troia, a ruína de que os Penates são salvos, e o escudo de Enéias, onde eles reaparecem na popa de Augusto.