Clavis Libri

Personagem

Creúsa

Quem é

Creúsa é a primeira esposa de Enéias e a mãe de Ascânio. Aparece em um único livro, o II, na noite em que Troia cai, e o que ela quer ali é simples: que o marido não deixe a família sozinha diante dos gregos. O poema a retira da cena na mesma noite. Ela se perde do grupo durante a fuga, e o que volta no lugar dela é a sombra, maior que em vida, que explica a Enéias por que ele não pode levá-la e anuncia o destino que o espera, um longo exílio, uma terra chamada Hespéria, um reino novo e uma esposa real. Para quem não leu o livro, Creúsa é a medida do preço humano da fundação de Roma: o poema dá a ela poucas falas, e cada uma pesa.

Trajetória

No Livro II ela entra em cena na soleira da casa. Enéias, decidido a morrer lutando depois de ouvir que Anquises se recusa a fugir, volta a pegar nas armas, e Creúsa se agarra aos pés dele e lhe estende o menino. Dá a ele duas saídas: se parte para morrer, que os leve junto para tudo, e se ainda tem esperança nas armas, que proteja primeiro a casa. Ela não discute a causa de Troia, discute quem fica sozinho, e mostra com isso o que a decisão dele deixa para trás: mulher e filho entregues ao primeiro grego que chegar.

Si periturus abis, et nos rape in omnia tecum; / Sin aliquam expertus sumptis spem ponis in armis, / Hanc primum tutare domum, se partes para morrer, leva-nos também contigo para tudo; mas se, depois de provar as armas, ainda pões alguma esperança nelas, protege primeiro esta casa.
Livro II: A queda de Troia

O que detém Enéias é o prodígio que vem logo em seguida, a chama sobre a cabeça de Ascânio, e a família sai da cidade em ordem: o pai nos ombros, o filho pela mão, Creúsa atrás. Perto das portas ouvem passos, Enéias se perturba e desvia por ruas desconhecidas, e é aí que ela some, sem que o texto diga se errou o caminho ou se sentou de cansaço. Ele só nota a falta quando todos já estão no ponto de encontro, deixa o pai, o filho e os Penates num vale e volta sozinho, pelas ruas em chamas, a chamá-la.

O que ele encontra é a sombra dela, que o consola e lhe dá a explicação que o texto sustenta: o que aconteceu não acontece sem a vontade dos deuses, e levá-la como companheira não lhe é lícito. Ela anuncia o que vem, o exílio pelo mar, a Hespéria e uma nova esposa, e diz que, dardânia e nora de Vênus, não irá servir a mulheres gregas, porque a Mãe dos deuses a retém ali. Ao tirar de Enéias a obrigação de salvá-la, ela o libera para o dever, e termina pedindo que ele guarde o amor pelo filho comum.

Quid tantum insano juvat indulgere labori, / O dulcis conjux? non haec sine numine divum / Eveniunt; nec te comitem asportare Creusam / Fas, aut ille sinit superi regnator Olympi. / Longa tibi exilia, et vastum maris aequor arandum., por que te agrada tanto entregar-te a esta dor insana, doce esposo? Isto não acontece sem a vontade dos deuses; não te é lícito levar Creúsa por companheira, nem o permite o senhor do alto Olimpo. Longos exílios te esperam, e um vasto mar a arar.
Livro II: A queda de Troia

Enéias tenta três vezes abraçá-la, e três vezes a imagem escapa das mãos, igual aos ventos leves e ao sono que voa. Ela o deixa quando ele ainda queria dizer muita coisa, e ele volta ao grupo, ergue o pai e vai para o monte.

Ter conatus ibi collo dare brachia circum; / Ter frustra comprensa manus effugit imago, / Par levibus ventis, volucrique simillima somno., três vezes tentei lançar-lhe os braços ao pescoço; três vezes a imagem, em vão apertada, escapou das mãos, semelhante aos ventos leves e muito parecida com o sono alado.
Livro II: A queda de Troia

No Livro VI ela não aparece, mas o abraço falho com a sombra de Anquises repete, quase nas mesmas palavras, o que aconteceu com ela, e o poema usa a repetição para dizer que nem o pai amado escapa da regra do além.

Ter conatus ibi collo dare brachia circum; / Ter frustra comprensa manus effugit imago, / Par levibus ventis, volucrique simillima somno, três vezes tentou ali lançar os braços ao pescoço dele; três vezes a imagem, em vão apertada, escapou das mãos, igual aos ventos leves, muito parecida com o sono que voa
Livro VI: A descida ao mundo dos mortos

Temas que encarna

Creúsa carrega o Lar, exílio e retorno no sentido mais estreito: é a casa de Enéias, e o poema a perde antes de o exílio começar. Nela o Destino e livre-arbítrio chega como explicação dada pela própria vítima, que aceita o que os deuses dispuseram, e o Dever aparece pelo preço que ele cobra, porque Enéias só pode seguir adiante depois de abrir mão de procurá-la. A Guerra é a causa visível da perda: ela morre, ou desaparece, no meio da queda da cidade, sem uma só fala sobre a guerra em si.

Creúsa é a primeira das mulheres que o poema retira do caminho de Enéias para que a missão siga, e Dido é a segunda. A diferença é a voz: Dido protesta, acusa e amaldiçoa, e Creúsa explica e consente. As duas despedidas mostram o mesmo mecanismo, a fundação cobrando o que o herói ama, com custos desiguais na boca de quem os paga.

Relações

  • Enéias: o marido, que a deixa para trás sem saber e volta para procurá-la.
  • Ascânio: o filho, que ela estende ao pai na soleira da casa.
  • Anquises: o sogro, que se recusa a fugir e cede ao sinal, enquanto ela e a família imploram.
  • Dido: a outra mulher que o poema tira de Enéias, com mais voz e mais violência.