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A pira de Dido

O que é

A pira de Dido é a fogueira que a rainha de Cartago manda erguer no pátio do palácio depois que Enéias decide partir, e sobre a qual ela morre. Dido a apresenta à irmã Ana como o rito de uma sacerdotisa para trazê-lo de volta ou livrá-la do amor, e manda pôr nela as armas, as roupas e o leito dele. Ana, que pensa só em luto, obedece. A pira é ao mesmo tempo um ardil, um altar, um leito e uma sepultura, e é o objeto que une o amor, a maldição e a morte da rainha.

Onde aparece

O fogo vem antes da pira. No Livro I, Vênus decide prender a rainha por astúcia e cercá-la de fogo para proteger o filho:

Quocirca capere ante dolis et cingere flamma / Reginam meditor, por isso penso em tomar antes a rainha com astúcia e cercá-la de fogo.
Livro I: A tempestade e Cartago

O Livro IV abre com Dido já consumida por ele:

At regina, gravi jamdudum saucia cura, / Vulnus alit venis, et caeco carpitur igni, mas a rainha, ferida havia muito por pesada angústia, alimenta nas veias a ferida e é consumida por um fogo cego.
Livro IV: Dido

Quando a frota se prepara para partir, Dido pede a Ana que obtenha de Enéias um último adiamento, e a recusa vem atribuída aos fados e a um deus. Ela pede a morte, vê o vinho das libações virar sangue e, decidida, manda erguer a pira com a história que contou a Ana. Na manhã em que o porto aparece vazio, invoca o Sol, Juno, Hécate e as Fúrias e lança a maldição que nasce desse fogo:

Tum vos, o Tyrii, stirpem et genus omne futurum / Exercete odiis, cinerique haec mittite nostro / Munera: nullus amor populis nec foedera sunto. / Exoriare aliquis nostris ex ossibus ultor, / Qui face Dardanios ferroque sequare colonos. / Nunc, olim, quocumque dabunt se tempore vires, / Littora littoribus contraria, fluctibus undas / Imprecor, arma armis: pugnent ipsique nepotes, e vós, ó tírios, atormentai com ódios a sua estirpe e toda a raça futura, e enviai isto às minhas cinzas como oferta: que não haja amor nem tratados entre os povos. Que surja de meus ossos algum vingador, que persiga com tocha e ferro os colonos dardânios, agora, depois, em qualquer tempo em que as forças se ofereçam: peço em praga praias contrárias às praias, ondas contra ondas, armas contra armas: que lutem também os netos.
Livro IV: Dido

Depois sobe à pira e saca a espada troiana. Diante das roupas e do leito, detém-se, chora, deita-se e faz o balanço da vida:

Dulces exuviae, dum fata deusque sinebant, / Accipite hanc animam, meque his exsolvite curis. / Vixi, et quem dederat cursum fortuna peregi: / Et nunc magna mei sub terras ibit imago. / Urbem praeclaram statui; mea moenia vidi; / Ulta virum, poenas inimico a fratre recepi; / Felix, heu! nimium felix, si littora tantum / Nunquam Dardaniae tetigissent nostra carinae!, doces despojos, enquanto os fados e o deus permitiam, recebei esta alma e livrai-me destas angústias. Vivi e cumpri o curso que a fortuna me deu: e agora a minha grande sombra irá sob a terra. Fundei uma cidade ilustre; vi as minhas muralhas; vinguei o marido e cobrei a pena do irmão inimigo; feliz, ai, demasiado feliz, se as naus dardânias nunca tivessem tocado a nossa costa!
Livro IV: Dido

Antes de se ferir, pede que o troiano veja o fogo do mar e leve o presságio da morte dela:

Moriemur inultae! / Sed moriamur, ait: sic, sic juvat ire sub umbras. / Hauriat hunc oculis ignem crudelis ab alto / Dardanus, et nostrae secum ferat omina mortis, morreremos sem vingança! Mas morramos, diz ela: assim, assim me apraz ir para as sombras. Que o cruel dardânio, do alto mar, sorva este fogo com os olhos e leve consigo os presságios da nossa morte.
Livro IV: Dido

Ana chega, rasga o rosto e acusa a irmã de a ter enganado, porque queria morrer com ela e porque ergueu a pira com as próprias mãos sem saber:

eadem me ad fata vocasses: / Idem ambas ferro dolor atque eadem hora tulisset. / His etiam struxi manibus, patriosque vocavi / Voce deos, sic te ut posita, crudelis, abessem? / Exstinxti te meque, soror, populumque, patresque / Sidonios, urbemque tuam, terias-me chamado ao mesmo destino: a mesma dor e a mesma hora nos teriam levado ambas pelo ferro. Com estas mãos ergui a pira e invoquei os deuses da pátria, para que, posta tu assim, cruel, eu estivesse ausente? Mataste a ti e a mim, irmã, e ao povo, aos senadores sidônios e à tua cidade.
Livro IV: Dido

Juno, com pena da longa agonia, manda Íris cortar o cabelo que Prosérpina ainda não cortara, e a vida de Dido se dissolve nos ventos.

Nam, quia nec fato, merita nec morte peribat, / Sed misera ante diem, subitoque accensa furore, / Nondum illi flavum Proserpina vertice crinem / Abstulerat, Stygioque caput damnaverat Orco, pois ela não morria nem por destino nem por morte merecida, mas miserável, antes do tempo, abrasada por súbito furor; Prosérpina ainda não lhe tirara da cabeça o cabelo louro, nem condenara a sua vida ao Orco estígio.
Livro IV: Dido

No Livro V, a pira é vista de longe. Enéias navega olhando para trás as muralhas de Cartago, que já reluzem com as chamas de Dido, e os troianos, que não sabem a causa do incêndio, leem nele um mau presságio:

Certus iter, fluctusque atros Aquilone secabat, / Moenia respiciens, quae jam infelicis Elisae / Collucent flammis. Quae tantum accenderit ignem, / Causa latet; duri magno sed amore dolores / Polluto, notumque furens quid femina possit, / Triste per augurium Teucrorum pectora ducunt., decidido quanto ao rumo, cortava as ondas escuras com o Aquilão, olhando para trás as muralhas que já reluzem com as chamas da infeliz Elisa. Que causa acendeu tamanho fogo fica oculto; mas as duras dores de um grande amor profanado, e o que pode uma mulher enlouquecida, que se conhece, levam o peito dos teucros a um triste presságio.
Livro V: Os jogos

No Livro VI, na descida ao mundo dos mortos, que o ramo de ouro torna possível, Enéias encontra Dido nos Campos do Pranto e tenta se explicar. Ela não responde, e foge ao bosque onde Siqueu, o marido de antes, iguala o amor dela:

Illa solo fixos oculos aversa tenebat; / Nec magis incepto vultum sermone movetur, / Quam si dura silex aut stet Marpesia cautes. / Tandem proripuit sese, atque inimica refugit / In nemus umbriferum, conjux ubi pristinus illi / Respondet curis, aequatque Sichaeus amorem, ela, desviada, mantinha os olhos fixos no chão, e não move o rosto com a conversa começada mais do que se fosse dura pedra ou rocha de Márpeso. Por fim arranca-se e, hostil, foge ao bosque sombrio, onde Siqueu, seu marido de antes, responde às suas penas e iguala o seu amor
Livro VI: A descida ao mundo dos mortos

O que significa

A pira é o ponto em que a imagem do fogo muda de natureza. No Livro IV, o amor de Dido é um fogo escondido que a consome, aceso por dois deuses, e na pira o fogo deixa de ser metáfora e passa a ser matéria: queima as coisas dele e o corpo dela. A paixão que Vênus acendeu por medo, e que Juno aproveitou para reter Enéias, termina onde ninguém a planejou.

O poema usa a pira também como lugar de contas. Dido conta o que fez como quem fecha a vida: fundou a cidade, viu as muralhas, vingou o marido. Só a última frase sai do rol e nomeia o que ela desfaria, a chegada das naus. Ela não pede perdão: pede que Enéias veja o fogo. Morre sem se reconciliar com nada e quer ser vista, e o Livro V confirma que foi.

A pira tem ainda sentido político. Da mesma fogueira sai a imprecação em que Dido passa da vingança pessoal à de um povo, pedindo ódio eterno entre tírios e troianos e um vingador que nasça dos seus ossos. É a origem poética da inimizade entre Roma e Cartago, e a tradição lê o vingador sem nome como Aníbal (Guerras Púnicas).

A morte, segundo o narrador, está fora da regra: ela não morria nem por destino nem por morte merecida, mas antes do tempo, num ímpeto, e por isso a mecha ainda não fora cortada. Quem a corta é a mensageira de Juno, a deusa que armou a gruta, e o gesto pode ser compaixão ou reparação.

Quase nada do amor de Dido e Enéias é encenado: o único diálogo direto do livro é o da ruptura. A pira, feita com as roupas, as armas e o leito dele, ocupa o lugar da cena que o poema não escreveu, o casamento que ela diz ter vivido, e Enéias a vê arder de longe sem saber o que olha, porque a causa do fogo, diz o narrador, fica oculta.

Relações

  • Temas-padrão: Paixão, Destino e livre-arbítrio, Dever, Império e colonialismo.
  • Personagens: Dido, Enéias, Ana, Juno, Vênus.
  • Símbolos vizinhos: o ramo de ouro, que leva Enéias ao reencontro com Dido, e os Penates, os deuses da casa que Dido também perdeu.