Quem é
Dido, também chamada Elissa, é a rainha fundadora de Cartago, cidade que ergue na costa do norte da África. Nasceu princesa em Tiro, cidade fenícia, e fugiu do irmão Pigmalião, que matou o marido dela, Siqueu, diante do altar para ficar com o ouro. Levou consigo o tesouro do tirano e os que o odiavam ou temiam, e fundou uma cidade nova. É uma governante que decide, organiza e acolhe, e que jurou fidelidade ao marido morto. No poema, é quem recebe os troianos náufragos e a quem Enéias conta a queda de Troia e a viagem. Dois deuses, Vênus e Juno, fazem-na amar Enéias por interesses opostos, e ela se mata quando ele parte para a Itália por ordem de Júpiter. É a vítima mais humana da fundação de Roma: fora o próprio Enéias, que narra os Livros II e III, é a figura a quem o poema dá mais voz na primeira metade da obra.
Trajetória
No Livro I, Dido aparece pela história que Vênus conta a Enéias: viúva de Siqueu, traída pelo próprio irmão, fugiu e fundou Cartago. O poema faz questão de mostrá-la primeiro no comando, e só depois apaixonada.
ille Sichaeum / Impius ante aras, atque auri caecus amore, / Clam ferro incautum superat, ele, ímpio e cego pelo amor do ouro, mata Siqueu desprevenido, às escondidas, a ferro, diante dos altares.
dux femina facti, uma mulher comanda a empresa.
Quando os companheiros de Enéias, que ele julgava mortos na tempestade, pedem abrigo, ela os acolhe sem hesitar, e, desfeita a névoa, diz a Enéias que também ela foi lançada de terra em terra. A hospitalidade é dela, e ao mesmo tempo estava preparada por Mercúrio a mando de Júpiter. Vênus, com medo de que Juno use Cartago contra o filho, manda Cupido tomar a forma de Ascânio e acender a paixão no colo da rainha: a paixão de Dido nasce como arma de uma deusa.
Non ignara mali, miseris succurrere disco., não ignorando o mal, aprendo a socorrer os infelizes.
Nec non et vario noctem sermone trahebat / Infelix Dido, longumque bibebat amorem, e a infeliz Dido prolongava a noite em conversa variada, e bebia um longo amor.
Nos livros II e III, Dido quase não aparece: é a ouvinte a quem Enéias dirige a narração da última noite de Troia e dos sete anos de errância.
No Livro IV, a paixão, o abandono e a morte. A rainha não dorme depois do banquete e confessa à irmã Ana que reconhece nele os vestígios da antiga chama, a única coisa que abalou o juramento a Siqueu. Ana desfaz o juramento com argumentos práticos, e Dido cede. Na gruta, durante a tempestade que Juno armou, ela passa a chamar de casamento o que viveu, e o narrador diz que com esse nome ela encobre a culpa.
Anna (fatebor enim), miseri post fata Sichaei / Conjugis, et sparsos fraterna caede Penates, / Solus hic inflexit sensus, animusque labantem / Impulit: agnosco veteris vestigia flammae, Ana (vou confessar), depois da sorte do infeliz Siqueu, meu marido, e dos Penates espalhados pelo crime do irmão, só este homem abalou os meus sentimentos e empurrou o meu ânimo que vacilava: reconheço os vestígios da antiga chama.
Ille dies primus leti primusque malorum / Causa fuit: neque enim specie famave movetur, / Nec jam furtivum Dido meditatur amorem; / Conjugium vocat, hoc praetexit nomine culpam, aquele dia foi o primeiro da morte e a primeira causa dos males: pois ela já não se move pela aparência nem pela fama, nem pensa mais num amor furtivo; chama de casamento, e com esse nome encobre a culpa.
Quando Mercúrio obriga Enéias a partir, Dido descobre o preparo da frota antes de ele falar e o enfrenta. Cobra o amor, a mão dada e a morte que a espera, e diz que "hóspede" é o único nome que lhe resta de esposo. Enéias responde que os oráculos o mandam à Itália e que não segue por vontade própria. Ela o olha de lado, calada, e então o injuria: ele não tem deusa por mãe, foi nutrido por tigres. Dido lê a imobilidade dele como falta de sentimento, e o narrador mostra o contrário, um Enéias que geme por dentro, mas ela não vê isso.
cui me moribundam deseris, hospes? / Hoc solum nomen quoniam de conjuge restat, a quem me deixas, moribunda, hóspede? Já que só este nome me resta de esposo.
Nec tibi diva parens, generis nec Dardanus auctor, / Perfide; sed duris genuit te cautibus horrens / Caucasus, Hyrcanaeque admorunt ubera tigres, nem uma deusa é tua mãe, nem Dárdano o fundador da tua raça, pérfido; o Cáucaso hirto te gerou entre duros rochedos, e tigres da Hircânia te deram o peito.
Já decidida a morrer, mas sem querer deixar nada por tentar, Dido manda Ana pedir a Enéias só mais tempo, um mar mais fácil, descanso para a dor. Ele não cede, e o narrador atribui a recusa aos fados e a um deus que lhe tapa os ouvidos. Então ela engana a irmã: diz que uma sacerdotisa lhe ensinou um rito para trazê-lo de volta ou livrá-la do amor, e manda erguer no pátio uma pira com as armas, as roupas e o leito dele. Ao amanhecer, vendo o porto vazio, lança a maldição: se Enéias tem de chegar à Itália, que chegue em guerra, exilado, longe de Iulo, e morra sem sepultura. Depois ordena aos tírios ódio eterno à estirpe dele e invoca um vingador que nasça dos seus ossos.
Tum vos, o Tyrii, stirpem et genus omne futurum / Exercete odiis, cinerique haec mittite nostro / Munera: nullus amor populis nec foedera sunto. / Exoriare aliquis nostris ex ossibus ultor, / Qui face Dardanios ferroque sequare colonos. / Nunc, olim, quocumque dabunt se tempore vires, / Littora littoribus contraria, fluctibus undas / Imprecor, arma armis: pugnent ipsique nepotes, e vós, ó tírios, atormentai com ódios a sua estirpe e toda a raça futura, e enviai isto às minhas cinzas como oferta: que não haja amor nem tratados entre os povos. Que surja de meus ossos algum vingador, que persiga com tocha e ferro os colonos dardânios, agora, depois, em qualquer tempo em que as forças se ofereçam: peço em praga praias contrárias às praias, ondas contra ondas, armas contra armas: que lutem também os netos.
Na pira, diante das roupas e do leito, Dido faz o balanço da vida antes de se ferir com a espada troiana: fundou a cidade, vingou o marido, e teria sido feliz demais se as naus troianas nunca tivessem tocado a costa. Pede que Enéias, do mar, veja o fogo e leve o presságio da morte dela. O narrador explica que ela não morria por destino nem por morte merecida, e sim antes do tempo, num ímpeto; por isso Juno manda Íris cortar a mecha que faltava para soltar a vida.
Dulces exuviae, dum fata deusque sinebant, / Accipite hanc animam, meque his exsolvite curis. / Vixi, et quem dederat cursum fortuna peregi: / Et nunc magna mei sub terras ibit imago. / Urbem praeclaram statui; mea moenia vidi; / Ulta virum, poenas inimico a fratre recepi; / Felix, heu! nimium felix, si littora tantum / Nunquam Dardaniae tetigissent nostra carinae!, doces despojos, enquanto os fados e o deus permitiam, recebei esta alma e livrai-me destas angústias. Vivi e cumpri o curso que a fortuna me deu: e agora a minha grande sombra irá sob a terra. Fundei uma cidade ilustre; vi as minhas muralhas; vinguei o marido e cobrei a pena do irmão inimigo; feliz, ai, demasiado feliz, se as naus dardânias nunca tivessem tocado a nossa costa!
Nam, quia nec fato, merita nec morte peribat, / Sed misera ante diem, subitoque accensa furore, / Nondum illi flavum Proserpina vertice crinem / Abstulerat, Stygioque caput damnaverat Orco, pois ela não morria nem por destino nem por morte merecida, mas miserável, antes do tempo, abrasada por súbito furor; Prosérpina ainda não lhe tirara da cabeça o cabelo louro, nem condenara a sua vida ao Orco estígio.
No Livro V, Enéias já está em alto-mar quando vê as muralhas de Cartago iluminadas por um fogo cuja causa os troianos não sabem; o leitor do Livro IV sabe que é a pira, e os troianos pressentem o que uma mulher ferida de amor pode fazer.
No Livro VI, nos Campos do Pranto, onde moram os que o amor consumiu, Enéias reencontra a sombra de Dido, jura que partiu contra a vontade e é recebido com silêncio: ela mantém os olhos no chão, foge para o bosque e volta a Siqueu, que iguala o amor dela. O poema não diz se o silêncio é recusa da desculpa ou fim de uma conversa que já não a interessa.
Funeris heu tibi causa fui! Per sidera juro, / Per Superos, et si qua fides tellure sub ima est, / Invitus, regina, tuo de littore cessi, ai, fui a causa da tua morte! Juro pelos astros, pelos deuses de cima e por qualquer fé que haja sob a terra profunda: contra a vontade, rainha, deixei a tua costa
Illa solo fixos oculos aversa tenebat; / Nec magis incepto vultum sermone movetur, / Quam si dura silex aut stet Marpesia cautes. / Tandem proripuit sese, atque inimica refugit / In nemus umbriferum, conjux ubi pristinus illi / Respondet curis, aequatque Sichaeus amorem, ela, desviada, mantinha os olhos fixos no chão, e não move o rosto com a conversa começada mais do que se fosse dura pedra ou rocha de Márpeso. Por fim arranca-se e, hostil, foge ao bosque sombrio, onde Siqueu, seu marido de antes, responde às suas penas e iguala o seu amor
Temas que encarna
Dido encarna a Paixão, mas não como fraqueza dela: o fogo que a consome é armado por Vênus e Juno, e o poema pergunta quanto da escolha foi dela. Por isso também encarna Destino e livre-arbítrio: o oráculo e Mercúrio levam Enéias à Itália, e ela é esmagada pela engrenagem de um destino que não é o dela. Encarna o Dever, de dois lados que não cabem juntos: a fidelidade dela a Siqueu, que rompe quando cede, e a obrigação de Enéias para com os fados, que ele cumpre sem desistir da Itália. Encarna o Império e colonialismo pelo preço que a fundação de Roma cobra de uma cidade estrangeira, e Lar, exílio e retorno porque Dido é, como os troianos, uma exilada que fundou uma pátria nova e acolhe quem passa pelo mesmo. A maldição que ela lança liga o drama pessoal à Guerra entre Roma e Cartago: a tradição lê no vingador que nascerá dos ossos dela o futuro Aníbal, e as Guerras Púnicas como o cumprimento da praga.
Que Virgílio se demore em Dido, e lhe dê mais voz do que a Enéias na cena da ruptura, é a razão pela qual a Eneida não funciona como propaganda simples do império: o poema mostra o custo da fundação em vez de escondê-lo. Há ao menos quatro maneiras de ler a rainha e o poema autoriza todas. A leitura simpática sente a dor dela e condena a partida. A leitura funcional vê a Pietas de Enéias, o dever para com os deuses e com o povo, vencer a hospitalidade de Dido. A leitura histórica, voltada para Cartago, vê uma cidade feminizada e destruída por Roma. A leitura contemporânea a Augusto vê em Enéias o que evita a rainha estrangeira de que Marco Antônio não soube se afastar.
Relações
- Enéias: o hóspede que ela acolhe e ama, e que a abandona por ordem dos deuses, sem prometer casamento e sem desistir da Itália.
- Ana: a irmã e confidente que a convence a ceder ao amor e depois ergue, sem saber, a própria pira da irmã.
- Vênus: a deusa que, por medo da hostilidade de Cartago, manda inflamar Dido.
- Juno: a deusa que arma a gruta para reter Enéias fora da Itália e, no fim, manda Íris libertar a alma de Dido.
- Ascânio: o menino cuja forma Cupido toma para acender a paixão no colo da rainha.
- Turno: o outro grande sacrificado do poema, em lugar simétrico na segunda metade.
Na arte e em Dante
Dido é uma das figuras da Eneida mais retratadas depois da Antiguidade. Na pintura, Sir Nathaniel Dance-Holland fez O Encontro de Dido e Enéias. Em Dante, no Canto V do Inferno, ela está no segundo círculo, o dos luxuriosos, designada como "colei che s'ancise amorosa", aquela que se matou por amor, entre Cleópatra, Helena e Páris, arrastada pela tempestade eterna: Virgílio é o guia de Dante e, nesse canto, a Dido que o poeta conheceu é relida pela moral cristã.