O que é
O ramo de ouro é o galho dourado que brilha entre as folhas de uma azinheira escura e que a Sibila de Cumas (Sibila) exige de Enéias como passaporte para descer ao mundo dos mortos e rever o pai, Anquises. É consagrado a Prosérpina, que o quer como tributo, e a regra que o governa não admite meio-termo: se os fados chamam quem o procura, o ramo vem de boa vontade e sem custo, e a quem não é chamado nenhuma força o arranca, nem o ferro duro. Arrancado o primeiro, não falta outro, e a haste se cobre de folhas do mesmo metal.
Onde aparece
Tudo acontece no Livro VI. Enéias chega a Cumas e pede à Sibila, primeiro, um assento no Lácio para os deuses errantes de Troia (Os Penates), e depois o que lhe importa, ver o pai morto, lembrando que o tirou das chamas de Troia nos próprios ombros:
Ire ad conspectum cari genitoris et ora / Contingat; doceas iter, et sacra ostia pandas. / Illum ego per flammas et mille sequentia tela / Eripui his humeris, medioque ex hoste recepi, que me seja dado ir ver o rosto do meu querido pai; ensina o caminho e abre as portas sagradas. Eu o tirei de lá, nestes ombros, por entre chamas e mil dardos que vinham atrás, e o recolhi do meio do inimigo
A Sibila não o dissuade. Avisa que descer é fácil e que voltar é a obra, e em seguida diz o que ele precisa fazer:
facilis descensus Averni; / Noctes atque dies patet atri janua Ditis: / Sed revocare gradum, superasque evadere ad auras, / Hoc opus, hic labor est, fácil é a descida ao Averno; noite e dia está aberta a porta do negro Dite; mas voltar atrás e escapar para as auras do alto, esta é a obra, este é o trabalho
Ergo alte vestiga oculis, et rite repertum / Carpe manu: namque ipse volens facilisque sequetur, / Si te fata vocant; aliter, non viribus ullis / Vincere, nec duro poteris convellere ferro, procura-o, pois, com os olhos no alto e, achado como deve, colhe-o com a mão: ele mesmo virá de boa vontade e sem custo, se os fados te chamam; de outro modo, por força nenhuma o vencerás, nem o arrancarás com duro ferro
Antes do ramo há um dever: um amigo de Enéias, Miseno, trombeteiro de Heitor e depois de Enéias, jaz insepulto e contamina a frota, e Enéias é o primeiro a cortar lenha para a pira. Na floresta, ele pede que o ramo se mostre, e duas pombas da mãe dele, Vênus, o guiam até a árvore. O ouro brilha entre os galhos como o visco que reverdece em pleno inverno sobre uma árvore que não o semeou. Enéias o agarra, e o ramo hesita:
Corripit extemplo Aeneas, avidusque refringit / Cunctantem, et vatis portat sub tecta Sibyllae, Enéias o agarra de imediato e, ávido, quebra o ramo que hesita, e o leva para a casa da Sibila vidente
O ramo cumpre a função no caminho. No rio, Caronte recusa levar um vivo e lembra Hércules, Teseu e Pirítoo, até a Sibila mostrar o ramo. Mais adiante, Enéias o fixa na porta de Prosérpina e só então entra no Elísio. Por esse caminho ele encontra Palinuro, que pede passagem como insepulto, Dido, que não lhe responde, e Anquises, que escapa três vezes ao abraço dele.
O gesto de arrancar um galho já tinha custado caro a Enéias no Livro III. Na Trácia, ao arrancar ramos para cobrir um altar, ele ouve a voz do arbusto que sangra:
Quid miserum, Aenea, laceras? jam parce sepulto; / Parce pias scelerare manus: non me tibi Troja / Externum tulit, haud cruor hic de stipite manat. / Heu! fuge crudeles terras, fuge littus avarum., por que dilaceras um infeliz, Enéias? Poupa já o sepultado, poupa tuas mãos piedosas de se manchar: Troia não me gerou estrangeiro a ti, e este sangue não escorre de um tronco. Ai! Foge das terras cruéis, foge da praia avarenta.
O que significa
O ramo é a marca da eleição: ele cede a quem os fados chamam e a nenhum outro. As pombas de Vênus levam Enéias até ele, o que indica que é chamado, mas o ramo hesita e ele o quebra ávido. O texto sustenta duas leituras: Enéias é o escolhido e o ramo cede devagar, ou a pressa dele força o que a Sibila dizia não se forçar. O livro desconfia, de resto, das próprias regras, e no fim o herói sai do mundo dos mortos pela porta de marfim, a dos sonhos falsos.
O ramo é chave, e não garantia. A Sibila diz que descer é fácil, que voltar é a obra e que poucos a fizeram. O ouro abre a porta, e o custo do caminho está em outro lugar: no enterro de Miseno que precede o ramo, nos insepultos que Caronte recusa e entre os quais está Palinuro, no pai que escapa três vezes ao abraço.
O ramo não se esgota: arrancado um, nasce outro igual, e a descida fica possível a quem for chamado, e não como um feito único de Enéias. O objeto vale por quem o apresenta: Caronte, que recusava um vivo, cede quando a Sibila mostra o ramo, e na porta de Prosérpina, onde Enéias o fixa, o ouro volta à deusa que o exigia.
Os dois galhos de Enéias se leem em par. Na Trácia o arbusto sangra e fala, e o poema o resolve com a fuga de uma terra manchada pela violação da hospitalidade. Em Cumas o galho de ouro cede, ainda que hesitando, e abre o caminho. Nos dois casos, arrancar é um ato que pede licença de um poder acima de Enéias: de um morto que reclama respeito, de uma deusa que cobra tributo.
Relações
- Temas-padrão: Destino e livre-arbítrio, Dever, Lar, exílio e retorno.
- Personagens: Enéias, Anquises, Vênus, Dido.
- Símbolos vizinhos: a pira de Dido, cuja sombra Enéias reencontra graças ao ramo, e os Penates, os deuses de Troia por quem Enéias pede à Sibila um assento no Lácio.