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Símbolo

O escudo de Enéias

O que é

O escudo de Enéias é a peça central das armas que Vulcano forja a pedido de Vênus para o filho, no Livro VIII, quando a guerra no Lácio se aproxima. É um escudo enorme, de sete círculos sobre círculos, pensado como defesa contra todos os dardos latinos, e nele o deus gravou a história futura de Roma, de Rômulo à batalha de Ácio e ao triunfo de Augusto. É o poema olhando adiante dentro do próprio poema, e o único objeto que mostra a Enéias o que ele não sabe.

Onde aparece

No Livro II, o escudo do herói importa pela primeira vez porque é o de outro. Na noite da queda de Troia, Enéias e os companheiros vestem as armas dos gregos mortos para passar por inimigos, e acabam atingidos pelos próprios troianos, que os tomam por gregos. É o contrário do escudo do Livro VIII: uma insígnia que mente sobre quem a leva.

No Livro VIII, Vênus, assustada com os latinos, pede armas ao marido Vulcano. Ele cede e manda os ciclopes largarem o raio de Júpiter, quase pronto:

Ingentem clypeum informant, unum omnia contra / Tela Latinorum, septenosque orbibus orbes / Impediunt, dão forma a um enorme escudo, um só contra todos os dardos dos latinos, e entrelaçam sete círculos sobre círculos.
Livro VIII: O escudo

Horas antes, Evandro lhe mostrara a futura Roma em mato e pedra, e o escudo mostrará a mesma cidade em outra época. Perto de Cere, Vênus deixa as armas sob um carvalho, e Enéias admira o elmo, a espada, a couraça e o escudo. O poeta diz o que o artífice sabia:

Illic res Italas Romanorumque triumphos, / Haud vatum ignarus, venturique inscius aevi, / Fecerat Ignipotens; illic genus omne futurae / Stirpis ab Ascanio, pugnataque in ordine bella, ali o Senhor do fogo, que não ignorava os vates nem desconhecia o tempo por vir, fizera as coisas da Itália e os triunfos dos romanos; ali toda a descendência da futura estirpe desde Ascânio, e as guerras travadas em ordem.
Livro VIII: O escudo

A primeira cena gravada é a origem de Roma:

Fecerat et viridi fetam Mavortis in antro / Procubuisse lupam; geminos huic ubera circum / Ludere pendentes pueros et lambere matrem / Impavidos; illam tereti cervice reflexam / Mulcere alternos et corpora fingere lingua, fizera também a loba parida de Marte deitada na verde gruta; em volta dela os dois meninos brincam pendurados nas tetas e lambem a mãe, sem medo; ela, com o pescoço liso voltado para trás, afaga os dois alternadamente e lhes molda o corpo com a língua.
Livro VIII: O escudo

No Tártaro do escudo está Catilina, e à parte os justos, a quem dá leis Catão:

Tartareas etiam sedes, alta ostia Ditis, / Et scelerum poenas; et te, Catilina, minaci / Pendentem scopulo Furiarumque ora trementem; / Secretosque pios, his dantem jura Catonem, acrescenta também as moradas do Tártaro, as altas portas de Dite, e os castigos dos crimes; e a ti, Catilina, pendente de um rochedo ameaçador, tremendo ante o rosto das Fúrias; e à parte os piedosos, a quem dá leis Catão.
Livro VIII: O escudo

No centro está a batalha de Ácio, com Augusto na popa:

Hinc Augustus agens Italos in praelia Caesar, / Cum patribus populoque, Penatibus et magnis diis, / Stans celsa in puppi; geminas cui tempora flammas / Laeta vomunt, patriumque aperitur vertice sidus, de um lado Augusto César, levando os italianos à batalha, com os senadores e o povo, os Penates e os grandes deuses, de pé na alta popa; suas têmporas, alegres, lançam duas chamas, e sobre a cabeça abre-se o astro paterno.
Livro VIII: O escudo

E o livro fecha com Enéias diante da imagem que não sabe ler:

Talia per clypeum Vulcani, dona parentis, / Miratur, rerumque ignarus, imagine gaudet, / Attollens humero famamque et fata nepotum, tais coisas, pelo escudo de Vulcano, presente da mãe, ele admira e, sem saber das coisas, alegra-se com a imagem, erguendo ao ombro a fama e os destinos dos descendentes.
Livro VIII: O escudo

No Livro X, ao amanhecer, depois de as ninfas que foram naus o avisarem do cerco ao acampamento, Enéias ergue o escudo em chamas, o que anima os sitiados e inquieta os rútulos. No Livro XI, Diomedes, na resposta que Vênulo traz ao conselho latino, aconselha entregar os presentes a Enéias porque já enfrentou o escudo e a lança dele, e Turno, acusado de medo por Drances, aceita o duelo dizendo que irá contra ele ainda que vista armas feitas por Vulcano:

Ibo animis contra; vel magnum praestet Achillem, / Factaque Vulcani manibus paria induat arma / Ille licet. [...] Solum Aeneas vocat? et vocet, oro., irei contra ele com ânimo; ainda que se mostre um grande Aquiles e vista armas iguais, feitas pelas mãos de Vulcano. [...] Só Enéias me chama? Que chame, eu peço.
Livro XI: Camila

No Livro XII, a espada de Turno se parte contra as armas feitas por Vulcano. Na pressa de subir ao carro, ele pegara a de Metisco, e não a do pai, e a lâmina mortal serviu enquanto os troianos fugiam e se despedaçou como gelo quando tocou as armas do deus.

O que significa

A leitura mais óbvia é a propaganda de Augusto: o deus grava até a batalha de Ácio e o triunfo de César, e quem ouve o poema em Roma reconhece cada cena. A objeção é forte, porque o escudo não decide nenhum combate por si, e Enéias o carrega sem entender. O poema não escolhe entre as duas.

O escudo difere do de Aquiles na Ilíada, que mostra cenas de vida e de guerra sem nome. O de Enéias nomeia pessoas e fatos, de Rômulo a Ácio, escritos para quem reconhecesse cada cena, e o episódio gira em torno da distância entre o que a imagem diz e o que o herói entende. Quando a rainha egípcia convoca as tropas no centro do escudo sem ver as serpentes atrás de si, a cena mostra em miniatura essa mesma distância, a que vai separar Enéias da armadura que ergue.

A ignorância de Enéias admite duas leituras: obediência humilde, a de quem leva o que lhe foi dado, ou solidão, porque o único que não decifra o que carrega é quem o carrega. O fundador da linhagem leva sem saber o que a linhagem será, e o poema deixa em aberto se isso é humildade ou apenas o limite de quem não vê o futuro.

O escudo reúne no mesmo objeto o que o poema separa em outros lugares: a defesa material, pensada contra os dardos latinos, e a história, que Enéias só carrega. Os Penates que ele trouxe de Troia reaparecem gravados na popa de Augusto, e é nessa lembrança que as duas pontas do poema, o refúgio de Troia e o império de Roma, se tocam no ombro de um homem que não as vê tocar.

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