O tempo da história
A Ilíada não conta a guerra de Troia inteira. Quando o Canto I começa, a guerra já dura nove anos, e o presságio de Áulide que Odisseu lembra no Canto II marcara o ano da queda: uma serpente devorou oito filhotes de pardal e a mãe, a nona, e o adivinho Calcas leu que os gregos combateriam tantos anos quanto as aves devoradas e, no décimo, tomariam a cidade. O poema cobre um trecho desse décimo ano, do castigo de Apolo no acampamento ao funeral de Heitor, e deixa de fora o desfecho: a morte de Aquiles junto às Portas Ceias, que Heitor anuncia no Canto XXII, e a queda de Troia, que Andrômaca e Príamo preveem no Canto XXIV, ficam anunciadas e não são narradas.
Por que há guerra
O motivo declarado é Helena. Páris a levou de Esparta, e no Canto III Menelau pede a Zeus que o deixe punir o homem que fez mal ao anfitrião que lhe oferecia amizade, para que os homens futuros tremam de repetir o gesto. No Canto II, Nestor diz que ninguém deve voltar antes de vingar os esforços e os gemidos de Helena. Aquiles, no Canto I, não conta a guerra como sua: não veio a Troia por culpa dos troianos, veio para dar honra a Menelau e a Agamêmnon, e no Canto IX pergunta se não é por causa de Helena que se luta. Os deuses têm motivos próprios: no Canto XXIV, Hera, Poseidon e Atena continuam a odiar Troia desde que Páris ofendeu as deusas e preferiu a que lhe ofereceu o desejo, e no Canto XXI Poseidon lembra que serviu ao rei Laomedonte construindo a muralha da cidade, enquanto Apolo guardava bois, e que o rei lhes recusou o salário. Já no Canto V, Tlepólemo conta que Héracles tomou Ílion com seis naus por causa dos cavalos de Laomedonte.
Os deuses e a guerra
Os deuses não ficam acima da guerra: tomam partido, brigam e se ferem. No Canto I, Zeus assente ao pedido de Tétis de honrar Aquiles, e esse aceno, que ele nunca revoga, move o resto do poema; no Canto VIII, Zeus proíbe os outros deuses de ajudar qualquer lado, e no Canto XX deixa que cada um escolha. Hera, Atena, Poseidon, Hermes e Hefesto ficam com os aqueus; Ares, Apolo, Ártemis, Leto, o rio Xanto e Afrodite, com os troianos. Os deuses falam dos mortais com distância, como folhas que ardem e murcham, no Canto XXI, e correm a proteger os que amam. O poema trata os três irmãos, Zeus, Poseidon e Hades, como sócios de uma partilha: no Canto XV, Poseidon lembra que cada um recebeu a sua porção de honra e que o céu, o mar e as trevas foram sorteados.
Honra, prêmio e hospitalidade
O prêmio de guerra é o sinal público do valor de um homem. Criseida e Briseida são dois desses prêmios, e é por um deles que a briga do Canto I começa. O rei tem o cetro, e o poema lembra, no Canto IX, que o cetro dá honra, e não coragem. A hospitalidade é um laço que passa de pai a filho e pode parar uma luta: no Canto VI, Diomedes e Glauco descobrem que seus avós se hospedaram e trocam de armas. A súplica é o gesto do desamparado, que abraça os joelhos ou toca o queixo de quem pode atendê-lo, e o resgate é o preço que se oferece pela vida ou pelo corpo; as duas coisas voltam do Canto I, com Crises, ao Canto XXIV, com Príamo. O funeral completa o quadro: o fogo e o pranto fazem de um corpo um morto, e deixar o cadáver aos cães e às aves é a pior sorte que se pode dar, como mostram o Canto XXII e o Canto XXIII, onde os jogos honram Pátroclo.
Os que vieram antes
Os heróis falam dos antepassados antes de lutar, e o poema trata esse passado como conhecimento comum. Agamêmnon lembra a Diomedes a missão de Tideu a Tebas, no Canto IV, e Atena a lembra de novo no Canto V. No Canto VI, Glauco recita a genealogia que vai de Sísifo a Belerofonte, e no Canto XX Eneias faz o mesmo desde Dárdano. O cetro de Agamêmnon tem a sua própria linhagem, de Hefesto a Zeus, a Hermes, a Pélope, a Atreu, a Tiestes, no Canto II, e as armas de Aquiles vieram dos deuses a Peleu, no dia do casamento com Tétis. O narrador compara o passado ao presente: Diomedes lança uma pedra que dois homens de hoje não carregariam, no Canto V, e Heitor levanta outra que dois dos melhores do povo não ergueriam, no Canto XII.
A voz do poema
O poema se abre pela ira e chama uma deusa para cantá-la, no Canto I. Antes do Catálogo das Naus, no Canto II, o poeta invoca as Musas, que estão presentes e sabem tudo, enquanto os homens só ouvem a fama e nada sabem. O narrador usa epítetos que acompanham os nomes, como o domador de cavalos que fecha o último verso, no Canto XXIV, e sabe mais do que os personagens: avisa que o chamado de Aquiles a Pátroclo é o começo do mal dele, no Canto XI, e que o pedido das armas é um pedido da própria morte, no Canto XVI. Fala também aos personagens, como a Apolo, no Canto XV, quando o deus desfaz a muralha dos gregos como uma criança desfaz os brinquedos de areia.