Resumo do capítulo
Depois de deixar a cidade, Heitor volta à luta com Páris, e os dois chegam aos troianos como o vento que um deus dá a marinheiros exaustos de remar. Páris mata Menésio, Heitor mata Eioneu, e Glauco, chefe dos lícios, mata Ifínoo. Atena, que viu os argivos morrerem, desce do Olimpo a Ílion, e Apolo, que quer a vitória dos troianos, a encontra junto a um carvalho. Pergunta se ela veio dar de novo a vitória aos dânaos, sem pena dos troianos que morrem, e propõe parar a guerra hoje, deixando-a retomar mais tarde até que se ache o termo de Ílion, já que é isso o que os imortais querem. Atena concorda, pois veio com as mesmas ideias, e pergunta como acabar com a luta; Apolo propõe despertar a força de Heitor para desafiar sozinho um dos dânaos, para que os aqueus, tomados de admiração, ponham um campeão contra ele.
Heleno, filho de Príamo, percebe no ânimo o plano que agrada aos deuses, vai a Heitor e o aconselha: que sente troianos e aqueus e desafie o melhor dos aqueus para um combate singular, pois ainda não é a sorte dele morrer, como ouviu dos deuses. Heitor, feliz com a notícia, avança ao meio segurando a lança pelo centro e faz sentar as fileiras troianas; Agamêmnon faz o mesmo com os aqueus. Atena e Apolo pousam, em forma de abutres, no alto carvalho de Zeus para ver os homens. Heitor diz que Zeus não cumpriu os juramentos e prepara o mal para os dois lados, até que os aqueus tomem Troia ou sejam vencidos junto às naus. Oferece-se para combater o campeão que o ânimo mandar, com Zeus por testemunha: se for morto, o vencedor leva as armas, mas devolve o corpo, para que os troianos e as esposas dos troianos lhe deem o fogo; se ele vencer, levará as armas ao templo de Apolo e devolverá o cadáver, para que os aqueus o enterrem num túmulo junto ao Helesponto, e um dia alguém, passando de navio, dirá que ali jaz o homem que Heitor matou: assim a fama dele jamais perecerá.
Todos se calam, com vergonha de recusar e medo de aceitar. Por fim Menelau se levanta, gemendo, e censura os aqueus: bravateiras aqueias, não mais aqueus, será vergonha se ninguém enfrentar Heitor, e que todos virem água e terra sentados e sem glória; ele mesmo se arma, pois a vitória está nas mãos dos deuses. Agamêmnon o segura pela mão direita e o contém: Heitor é melhor do que ele, e até Aquiles estremeceu de enfrentá-lo; que sente e deixe aos aqueus achar outro campeão. Menelau cede, e os servos tiram-lhe as armas dos ombros. Então Nestor se levanta e envergonha os aqueus: que dor para a terra aquea, e como gemeria o velho Peleu, que gostava de lhe perguntar pela família de cada argivo, se os ouvisse encolhidos diante de Heitor: rezaria para morrer. Conta como, jovem, matou Ereutálion, o mais alto e forte dos homens, que usava as armas de Areítoo e desafiava todos, enquanto ninguém se atrevia; o ânimo o empurrou, sendo o mais novo, e Atena lhe deu a glória. Quem lhe dera ter agora aquela força, e logo Heitor encontraria combate. Nove se levantam: Agamêmnon, Diomedes, os dois Ájax, Idomeneu e Meríones, Eurípilo, Toas e Odisseu.
Nestor manda sortear: cada um marca a sua ficha e a joga no elmo de Agamêmnon, e o povo reza para que saia Ájax, Diomedes ou o próprio Agamêmnon. Nestor agita o elmo, e salta a ficha de Ájax, a que todos queriam; o arauto a leva da direita em volta, mostrando-a aos chefes, e ninguém a reconhece até chegar ao dono, o filho de Telamão, que a reconhece e se alegra. Ele diz aos outros que rezem a Zeus, em silêncio ou às claras, enquanto veste as armas, porque não teme: ninguém o vencerá pela força ou pela arte, e ele não nasceu nem se criou em Salamina como ignorante. Os aqueus pedem a Zeus vitória para Ájax e, se ele ama também Heitor, igual força e glória para os dois.
Ájax avança como Ares, sorrindo com o rosto terrível, com o escudo de sete peles de boi e uma oitava lâmina de bronze, que Tíquio lhe fez, como uma torre. Os aqueus se alegram, os troianos tremem, e o coração de Heitor bate no peito, mas ele já não pode recuar, porque desafiou. Ájax lhe diz que verá agora que também entre os dânaos há campeões depois de Aquiles, que jaz junto às naus, irado com Agamêmnon; eles são muitos para enfrentá-lo. Heitor responde que não o ponha à prova como a um menino fraco ou a uma mulher: ele sabe o ofício da guerra, mas não quer feri-lo às escondidas, só às claras. Lança primeiro; a ponta atravessa seis peles e para na sétima. Ájax lança em seguida, atravessa o escudo e a couraça e rasga a túnica no flanco, e Heitor se inclina e escapa à morte negra. Arrancam as lanças e se lançam como leões ou javalis; Heitor fere o meio do escudo, mas o bronze entorta; Ájax investe, perfura o escudo, faz Heitor cambalear e roça-lhe o pescoço, de onde jorra sangue escuro. Heitor recua e apanha uma pedra negra e áspera; Ájax levanta uma maior, gira-a e arremessa-a com força, quebra o escudo e fere-lhe os joelhos; Heitor cai de costas, preso ao escudo, mas Apolo o ergue de imediato. Lutariam de espada se os arautos Taltíbio e Ideu, mensageiros de Zeus e dos homens, não pusessem os cetros entre os dois. Ideu diz que a noite já vem, que ambos são amados por Zeus e que é bom obedecer à noite. Ájax responde que Heitor deve ser o primeiro a parar, pois foi ele quem desafiou; ele obedecerá. Heitor concorda, louva-lhe a grandeza, a força e a sensatez, e propõe presentes: dá uma espada de pregos de prata com bainha e talabarte, e Ájax lhe dá um cinto de púrpura. Separam-se: os troianos, que já não esperavam, alegram-se de vê-lo vivo e o levam à cidade; os aqueus levam Ájax a Agamêmnon, que sacrifica um boi de cinco anos a Zeus e, depois do banquete, honra Ájax com as costelas inteiras do lombo.
À mesa, Nestor, cujo conselho já se mostrara o melhor, propõe, por causa dos muitos aqueus mortos em torno do Escamandro: parar a guerra ao amanhecer, recolher os corpos com bois e mulas, queimá-los perto das naus para que cada um leve os ossos aos filhos quando voltar, erguer um único túmulo na planície e, junto dele, torres altas com portões e um fosso fundo para proteger naus e homens. Os reis aprovam. Na cidadela de Troia, junto à porta de Príamo, os troianos se reúnem em assembleia tumultuada. Antenor propõe devolver Helena, a argiva, e os bens aos Atridas, pois combatem depois de falsear os juramentos, e nada de melhor lhe parece que se cumpra. Páris, marido de Helena, responde que isso não lhe agrada, pergunta se os deuses lhe tiraram o juízo e declara que não devolverá a mulher: os bens que trouxe de Argos, todos, e outros da sua casa, ele dá. Príamo, que fala depois, manda que se jante, que se vigie, e que Ideu vá ao amanhecer às naus levar aos Atridas a oferta de Páris e a proposta de trégua para queimar os mortos.
No amanhecer, Ideu entrega o recado aos reunidos junto à popa de Agamêmnon. Todos se calam; por fim Diomedes diz que ninguém aceite os bens de Páris nem Helena, pois até o mais tolo vê que o termo da ruína já pesa sobre os troianos, e os aqueus aprovam aos gritos. Agamêmnon diz a Ideu que a resposta dos aqueus é essa e que, quanto à trégua para queimar os mortos, não se opõe, pois não há por que poupar os cadáveres; ergue o cetro aos deuses e invoca Zeus como testemunha dos juramentos. Os dois lados recolhem os mortos na planície, lavam o sangue e os carregam; Príamo proíbe o pranto, e os troianos queimam os corpos em silêncio, e os aqueus fazem o mesmo. Antes da aurora, os aqueus erguem um túmulo comum, um muro com torres altas e portões firmes, e um fosso largo com estacas.
Os deuses, sentados junto a Zeus, olham a obra dos aqueus. Poseidon reclama: ainda há algum mortal que vá contar aos imortais o que pensa? Os aqueus ergueram um muro diante das naus e cavaram um fosso sem oferecer hecatombes; a fama desse muro vai chegar até onde se espalha a aurora, e o muro que ele e Febo construíram para o herói Laomedonte será esquecido. Zeus, irritado, responde que outro deus, mais fraco, poderia temer isso, e que a fama dele, Poseidon, chegará até onde se espalha a aurora; quando os aqueus partirem com as naus, que ele destrua o muro e o jogue ao mar, e cubra de novo a praia de areia. Ao pôr do sol a obra está feita, matam bois e jantam. Chegam naus de Lemnos com vinho, mandadas por Euneu, filho de Jasão e de Hipsípile, que dá aos Atridas mil medidas. Os aqueus compram vinho com bronze, ferro, couros, bois e escravos e banqueteiam a noite toda, assim como os troianos e seus aliados. Mas Zeus, a noite inteira, trama o mal contra eles, trovejando terrivelmente, e o pálido pavor os toma: despejam o vinho dos copos no chão, e ninguém ousa beber antes de libar ao Crônida poderoso. Deitam-se, e recebem o dom do sono.
Análise
Nenhuma das duas pausas deste canto decide a guerra. O duelo, que Apolo e Atena armaram, termina empatado e em presentes; a trégua dos mortos serve para que os aqueus ergam o muro que Poseidon logo contesta. Em ambos os casos o poema mostra os homens aceitando limites que lhes vêm de fora, a noite no duelo, o cetro de Agamêmnon na trégua, sem que o rumo da guerra mude neste canto.
Em cada cena alguém fala do que os outros dirão. Heitor imagina o viajante que um dia verá o túmulo do vencido, e o desafio vira promessa de fama; Menelau e Nestor movem os aqueus pela vergonha; Páris põe todos os bens na mesa e guarda Helena; Poseidon teme que a fama do seu muro seja esquecida diante da do muro dos aqueus. O que empurra homens e deuses neste canto é o juízo dos que virão.
Assinatura
A análise completa de cada canto de Ilíada está na assinatura, com a explicação de cada citação, o quiz, o guia em PDF e o caderno de estudos.