Resumo do capítulo
Enquanto Pátroclo cuida de Eurípilo ferido na tenda, gregos e troianos seguem lutando em massa, e o narrador interrompe a ação para dizer que o fosso e a muralha dos gregos não vão durar. Os gregos os ergueram para guardar as naus e o butim, mas sem oferecer hecatombes aos deuses, e por isso a obra nasceu contra a vontade dos imortais. Ela se mantém firme só enquanto Heitor vive, Aquiles guarda a sua ira e a cidade de Príamo não é saqueada. Quando Troia cair, no décimo ano, e os gregos tiverem partido para a pátria, Poseidon e Apolo decidem arrasá-la: Apolo vira contra o muro a boca de todos os rios do Ida e Zeus faz chover sem parar durante nove dias, enquanto Poseidon, com o tridente, leva as fundações para o mar e cobre a praia de areia. Isso só vai acontecer depois. Por ora a muralha ressoa sob os golpes, e os gregos, dominados pelo açoite de Zeus, ficam encurralados junto às naus, com medo de Heitor, que luta como uma tempestade.
Heitor quer levar os troianos por cima do fosso, mas os cavalos relincham à beira e não se atrevem: o fosso é largo, tem barrancos íngremes dos dois lados e, no alto, estacas cravadas pelos gregos para deter o inimigo, e nenhum carro entra ali com facilidade. Polidamante, que se põe ao lado de Heitor, propõe deixar os cavalos com os cocheiros junto ao fosso e seguir todos a pé, armados. Ele explica o que teme: se Zeus de fato quer a ruína dos gregos, que isso aconteça já, mas, se os gregos reagirem e os troianos ficarem presos contra o fosso, nem um mensageiro voltará à cidade. Heitor gosta do conselho, salta do carro com as armas, e os outros troianos o imitam ao vê-lo. Cada chefe manda o cocheiro segurar os cavalos em ordem à beira do fosso, e o exército se divide em cinco colunas: Heitor e Polidamante levam a primeira; Páris, Alcátoo e Agenor, a segunda; Heleno e Deífobo, com Ásio, a terceira; Eneias, a quarta; e Sarpédon, com Glauco e Asteropeu, os aliados, a quinta.
Só Ásio, filho de Hírtaco, não deixa para trás os cavalos nem o cocheiro: leva o carro até as naus, pelo lado esquerdo, por onde os gregos em fuga costumam entrar, e acha o portão aberto, sem trancas, deixado assim para recolher quem escape da guerra. O narrador o chama de tolo, porque ele não voltaria a Ílion exultando com o carro: antes disso a má sorte o cobriria, pela lança de Idomeneu. Diante do portão estão dois lápitas, Polipetes e Leonteu, firmes como carvalhos de raízes fundas, confiantes nas mãos e na força. Quando os troianos chegam, os dois saem e lutam como javalis que esperam cães e caçadores, enquanto do alto os gregos jogam pedras para defender a si mesmos, as tendas e as naus. Ásio bate nas coxas e acusa Zeus de mentiroso, porque não imaginava que os gregos resistissem. O narrador responde que a queixa não move Zeus, cujo coração quer dar glória a Heitor. Os dois lápitas matam um homem atrás do outro, em volta dos demais portões a luta é igual, e os deuses que ajudam os dânaos sofrem ao ver o combate.
No fosso, ainda a pé e indecisos, Heitor e Polidamante com sua coluna veem um presságio: uma águia de voo alto, pela esquerda, barra o exército levando nas garras uma serpente enorme, cor de sangue, ainda viva e debatendo-se, que não esqueceu a luta. A serpente morde a águia no peito, junto ao pescoço, e a águia, com a dor, a larga no meio da multidão e foge gritando ao vento. Os troianos estremecem ao ver a serpente caída entre eles, sinal de Zeus. Polidamante lê o presságio como aviso e pede a Heitor que não ataque as naus: se romperem portas e muralha e os gregos cederem, os troianos não voltarão em ordem, e deixarão muitos mortos, como a águia que largou a presa antes de chegar ao ninho. Diz que um adivinho que soubesse ler os sinais e fosse obedecido pelo povo falaria do mesmo modo, e antes se desculpa: Heitor o repreende na assembleia sempre que ele fala o que é bom, embora a um homem do povo não caiba falar contra o chefe, nem no conselho nem na guerra. Heitor o olha de baixo e responde que isso não lhe agrada. Se Polidamante fala sério, os deuses lhe tiraram o juízo, porque o manda esquecer o desígnio de Zeus, que prometeu a Heitor e confirmou com um aceno, e obedecer a aves de asas abertas, que ele nem leva em conta, venham pela direita, rumo à aurora, ou pela esquerda, rumo à treva. Que todos obedeçam ao grande Zeus: o melhor presságio é defender a pátria. Acrescenta que Polidamante teme a guerra porque, mesmo que todos os outros morram junto às naus, ele não corre perigo, já que seu coração não é firme nem guerreiro; e que, se se afastar do combate ou dissuadir alguém com palavras, morrerá na hora, traspassado pela lança de Heitor.
Heitor guia os troianos, que o seguem com um clamor enorme. Zeus, que gosta do raio, levanta dos montes do Ida uma tempestade de vento que leva a poeira direto contra as naus, enfeitiça o espírito dos aqueus e dá glória aos troianos e a Heitor. Confiando nos prodígios de Zeus e na própria força, os troianos tentam romper a muralha: arrancam os parapeitos das torres, derrubam as ameias e forçam com alavancas os pilares que os gregos fincaram primeiro no chão, como esteios das torres. Os gregos tapam as ameias com couros de boi e de lá atiram em quem se aproxima. O Ájax filho de Télamon e o Ájax filho de Oileu percorrem as torres, animando os homens, uns com palavras brandas, outros com duras, quando veem alguém afrouxar. Dizem que os homens não são todos iguais na guerra, mas agora há trabalho para todos, que ninguém volte às naus por ouvir quem o repreende e que cada um avance e incite o vizinho, para que Zeus lhes dê repelir o inimigo até a cidade. As pedras voam de lado a lado como flocos de neve, e a muralha inteira ressoa.
Mesmo assim, os troianos e Heitor não teriam arrombado as portas se Zeus não tivesse lançado seu filho Sarpédon contra os argivos, como um leão contra bois. Sarpédon avança com o escudo de bronze batido e duas lanças, como um leão da montanha, há muito sem carne, que o ânimo audaz leva ao curral e que, mesmo achando pastores armados de cães e lanças, não aceita ir embora sem tentar: ou arrebata a presa, ou cai ferido entre os primeiros. Assim o ânimo o impele a escalar o muro e a romper os parapeitos. Ele se volta a Glauco e pergunta por que na Lícia os dois são honrados acima de todos, com o assento de honra, as carnes e as taças cheias, olhados como deuses, e senhores de um grande domínio às margens do Xanto, com pomar e trigal. Por isso lhes cabe estar entre os primeiros lícios e enfrentar o combate ardente, para que digam que os reis da Lícia não são sem glória, que comem carne gorda e bebem vinho doce, mas têm também força valente, pois lutam na frente. Se fugir da guerra os tornasse imortais e sem velhice, ele próprio não lutaria na frente nem mandaria Glauco ao combate que dá glória; mas as Queres da morte estão sobre os dois, incontáveis, e nenhum mortal as evita: devem ir, e ou darão glória a alguém, ou a receberão. Glauco não se desvia nem desobedece, e os dois avançam levando o grande povo dos lícios.
Menesteu, filho de Peteu, vê os lícios marcharem para a torre que ele guarda e estremece, porque trazem a desgraça. Procura entre os chefes gregos alguém que afaste a ruína dos companheiros e vê os dois Ájaxes e Teucro, que acaba de chegar da tenda, mas o estrondo de escudos, elmos e portões golpeados é tão grande que gritar não adianta. Manda então o arauto Toote chamar Ájax, de preferência os dois, porque ali em breve haverá ruína; se o combate também lhes pesa onde estão, que ao menos o filho de Télamon venha, com Teucro, mestre do arco. Ájax obedece: encarrega o filho de Oileu e Licomedes de animar os dânaos e vai com Teucro e Pândion, que leva o arco. Chegam à torre quando os lícios, como uma tempestade escura, sobem aos parapeitos, e o combate começa.
Ájax abate primeiro Epicles, companheiro de Sarpédon, com um bloco de pedra que homem algum de hoje ergueria com as duas mãos; Epicles cai da torre como um mergulhador, com o crânio esmagado. Teucro atira em Glauco, que investia contra o muro, no ponto em que viu o braço descoberto, e o faz cessar o ardor. Glauco salta da muralha às escondidas, para que nenhum aqueu o veja ferido e se gabe. Sarpédon sofre ao ver Glauco partir, mas não esquece a luta: mata Alcmáon com a lança, agarra o parapeito com as duas mãos e o arrasta, a muralha se despe e abre caminho para muitos. Ájax e Teucro o miram juntos: a flecha de Teucro acerta a correia luminosa do escudo, mas Zeus afasta as Queres do filho, para que ele não seja abatido junto às popas das naus; Ájax golpeia o escudo e o empurra. Sarpédon cede um pouco, mas não se afasta de vez, porque o ânimo espera ganhar glória. Volta-se e grita aos lícios: por que afrouxam o ardor? Mesmo forte, ele sozinho não consegue abrir caminho até as naus, e pede que o sigam, porque a obra de muitos é melhor. Temendo a ordem do rei, os lícios se apertam em volta dele. Do outro lado, os argivos reforçam as falanges dentro da muralha; a tarefa é pesada para ambos, porque os lícios não conseguem romper o muro e abrir passagem até as naus, nem os dânaos repelir os lícios depois que estes se aproximaram. Torres e parapeitos se encharcam de sangue dos dois lados, e ainda assim os troianos não conseguem pôr os aqueus em fuga: o combate fica igual como a balança de uma mulher honesta que trabalha a lã.
Então Zeus dá glória maior a Heitor, o primeiro a saltar para dentro da muralha dos aqueus. Heitor grita aos troianos que se levantem, domadores de cavalos, rompam o muro e lancem fogo às naus. Todos o ouvem e se atiram em massa contra a muralha, subindo com as lanças afiadas. Heitor pega uma pedra que está diante das portas, grossa na base e pontuda no alto, que dois homens dos melhores do povo não levantariam do chão para um carro, e a maneja sozinho com facilidade, porque o filho de Crono a torna leve. Como um pastor que carrega com uma só mão o velo de um carneiro, ele a leva até as portas altas, fechadas por duas trancas e uma chave, abre as pernas para firmar o arremesso e a atira no meio: rompe os dois gonzos, a pedra cai para dentro com o peso, as portas rugem, as trancas não resistem e os batentes se despedaçam. Heitor salta para dentro, semelhante à noite veloz, com o bronze terrível a brilhar, duas lanças na mão e os olhos em chamas, e ninguém, a não ser um deus, o deteria. Chama os troianos a escalar o muro; eles obedecem, uns sobem, outros entram pelas portas, e os dânaos fogem para as naus côncavas, num alarido sem fim.
Análise
O canto trata a muralha dos gregos como uma obra com prazo. O narrador diz de antemão que ela foi feita sem sacrifícios e contra a vontade dos deuses, e põe a ira de Aquiles entre as condições para que dure, ao lado da vida de Heitor e da cidade de Príamo. Quando Heitor arromba o portão, o que cede é uma proteção que os gregos construíram sem o aval dos deuses e que dependia, em parte, de um homem que ficou de fora da guerra. O canto também faz Heitor e Polidamante discordarem sobre o presságio, e os dois têm razão em planos diferentes: Polidamante lê o preço, os mortos que os troianos deixarão se forçarem o passo, e Heitor lê a promessa de Zeus, que o canto confirma ao lhe dar o vento, a pedra leve e o portão aberto. O poema não julga a decisão de Heitor: mostra que ela tem garantia divina e que o custo anunciado por Polidamante ainda não foi cobrado neste canto.
O código da honra aparece dito de duas maneiras que se completam. Sarpédon explica a Glauco que as honras recebidas na Lícia, o assento, a carne, a taça, a terra, são o pagamento adiantado de um dever: quem recebeu tem de estar na frente. E ele só vê o dever por causa da morte, porque, se fugir da guerra tornasse imortal, não lutaria. Heitor fala do mesmo dever de outro ponto: para ele defender a pátria dispensa os outros sinais. Em nenhum dos dois a honra é um enfeite, é a resposta a uma morte que não se evita. O canto lembra também a face escondida da honra: Glauco ferido salta da muralha às escondidas para que nenhum aqueu o veja e se vanglorie.
Assinatura
A análise completa de cada canto de Ilíada está na assinatura, com a explicação de cada citação, o quiz, o guia em PDF e o caderno de estudos.