Resumo do capítulo
Ao amanhecer, Zeus manda a Discórdia às naus dos aqueus com o sinal da guerra nas mãos. Ela para sobre a nau de Odisseu, no meio do acampamento, de onde a voz alcança as tendas de Ájax e de Aquiles nas duas pontas, e grita; os aqueus passam a achar a guerra mais doce do que voltar para casa. Agamêmnon manda os argivos se armarem e veste uma armadura descrita em detalhe: a couraça que o rei Cíniras lhe deu de presente quando soube, no Chipre, que os aqueus partiriam para Troia, as serpentes azuis do pescoço, o escudo com a Górgona. Atena e Hera trovejam em honra do rei. Do outro lado, Heitor aparece ora na frente, ora na retaguarda, como um astro entre nuvens. Zeus faz cair gotas de sangue do céu, porque vai mandar muitas cabeças ao Hades. Os deuses ficam em casa, todos culpando Zeus por querer dar glória aos troianos; ele se senta longe, exultando, e olha a cidade e as naus.
Até o meio-dia as flechas voam dos dois lados e cai gente de ambos. Na hora em que o lenhador almoça, os dânaos rompem as falanges por sua própria virtude, e Agamêmnon é o primeiro a atacar, matando Biânor e seu companheiro. Mata também Iso e Antifo, filhos de Príamo que estavam no mesmo carro e que Aquiles já havia capturado e soltado por resgate; Agamêmnon os reconhece. Em seguida os dois filhos de Antímaco, o homem que, tendo recebido ouro de Páris, impedira que Helena fosse devolvida a Menelau, caem do carro com as rédeas soltas, abraçam os joelhos do rei e oferecem resgate com a lista de bens do pai. Agamêmnon lembra que Antímaco propusera na assembleia troiana matar Menelau, quando este veio como mensageiro, mata um com a lança e decepa o outro, e segue matando. Os troianos fogem para a cidade como bois que um leão persegue, e o rei os persegue até as Portas Ceias. Ali Zeus desce ao Ida e manda Íris dizer a Heitor que se afaste do combate enquanto Agamêmnon estiver na vanguarda, e que só quando o rei for ferido e saltar para o carro ele lhe dará força para matar até o pôr do sol.
Heitor obedece, desce do carro e reorganiza as linhas. Agamêmnon, de novo o primeiro a atacar, encontra Ifidamante, um jovem recém-casado que viera da Trácia por fama; a lança dele não fura o cinturão, que a prata dobra, e o rei o mata com a espada. Cóon, irmão mais velho de Ifidamante, tomado pelo luto, fere Agamêmnon no braço, de lado, sem ser visto. O rei mata Cóon, decepa-lhe a cabeça sobre o corpo do irmão e continua a lutar enquanto o sangue corre quente. Quando a ferida seca, as dores o dominam como as de um parto, e ele sobe ao carro, manda levá-lo às naus e grita aos chefes que as defendam, pois Zeus não o deixou combater os troianos o dia inteiro.
Heitor, vendo o rei partir, chama troianos e lícios ao ataque, dizendo que o melhor dos aqueus se foi e que Zeus lhe deu a glória, e mata uma série de chefes dânaos. A fuga para as naus só é contida quando Odisseu chama Diomedes a ficar ao seu lado, dizendo que será vergonha se Heitor tomar as naus. Diomedes concorda em resistir, embora diga que a alegria deles será curta, pois Zeus quer dar o poder aos troianos. Os dois matam e fazem os troianos recuarem até Heitor voltar a atacar. Diomedes lhe acerta o elmo, e Heitor, atordoado, cai de joelhos e escapa; Diomedes grita que Apolo o salvou mais uma vez, e segue matando outros. Enquanto Diomedes despoja um morto, Páris, escondido atrás da estela do túmulo de Ilo, atira e fere o pé dele, rindo; Diomedes diz que a flecha de um arqueiro de cabelo penteado não lhe importa mais que o golpe de uma mulher ou de uma criança, arranca a flecha e recua para as naus.
Odisseu fica sozinho, porque todos os argivos fogem de medo. Pergunta a si mesmo o que fazer e decide resistir. Os troianos o cercam como cães e jovens cercam um javali, e ele fere vários. Soco, irmão de Cárope, promete matá-lo ou perder a vida, atravessa-lhe o escudo e a couraça e raspa-lhe o flanco, mas Atena não deixa a lança tocar as entranhas; Odisseu mata Soco pelas costas, quando este foge, e diz que as aves o devorarão enquanto a ele, se morrer, os aqueus darão sepultura. Ferido, chama os companheiros três vezes. Menelau ouve e chama Ájax, que chega com o escudo como uma torre e dispersa os troianos; Menelau tira Odisseu da multidão pela mão, e Ájax passa a destroçar os troianos como um rio em cheia.
Heitor, que luta no flanco esquerdo, junto ao Escamandro, onde mais homens caem ao redor de Nestor e Idomeneu, não sabe disso. Páris fere no ombro direito o médico Macáon, e os aqueus temem que os troianos o capturem; Idomeneu manda Nestor levá-lo às naus, porque um médico vale muitos outros. O auriga de Heitor, Cebríones, lhe aponta Ájax, e Heitor dirige o carro para lá, mas evita o combate com ele. Zeus põe medo em Ájax, que recua devagar e de má vontade, temendo pelas naus, como um leão expulso do curral e como um burro que as crianças não conseguem tirar do campo. Eurípilo mata Apisaão e é ferido por Páris na coxa; grita que se ponham ao redor de Ájax, e Ájax volta ao grupo.
Aquiles, de pé na popa da sua nau, olha o combate e vê Nestor levando Macáon ferido, mas não reconhece quem é. Manda Pátroclo perguntar a Nestor quem é o ferido e diz que espera ver os aqueus aos seus joelhos, suplicando. Pátroclo sai da tenda e, anota o narrador, esse foi o começo do mal dele. Na tenda de Nestor, a serva Hecamede prepara a bebida de vinho, queijo e farinha; Pátroclo recusa sentar-se, diz que Aquiles é terrível e pode culpar quem não tem culpa, e quer só a resposta. Nestor enumera os chefes feridos, Diomedes, Odisseu, Agamêmnon, Eurípilo, Macáon, e pergunta se Aquiles quer esperar até que as naus ardam. Narra uma guerra da juventude dele contra os epeios, na qual, pequeno entre os pílios e sem cavalos, matou Mulio e tomou cinquenta carros com a ajuda de Atena, e conclui que Aquiles gozará sozinho da sua excelência e chorará depois.
Nestor recorda a Pátroclo o que Menécio lhe disse quando o enviou de Ftia: que Aquiles é superior pela linhagem, mas Pátroclo é o mais velho e deve aconselhá-lo. Propõe que Pátroclo tente demovê-lo; se Aquiles evita alguma profecia que a mãe lhe disse de parte de Zeus, que ao menos mande Pátroclo à frente dos mirmidões, com as belas armas dele, para que os troianos o tomem por Aquiles e se afastem, dando um respiro aos aqueus. Pátroclo corre de volta e, junto às naus de Odisseu, encontra Eurípilo ferido e manco. Compadece-se, ouve que os melhores aqueus estão feridos e que os troianos ganham força, leva-o à tenda, corta a flecha da coxa, lava o sangue e põe sobre a ferida uma raiz amarga que estanca a dor.
Análise
Zeus anuncia a Íris o desenho do dia: Heitor recua enquanto Agamêmnon luta e avança quando ele for ferido, e o canto o executa à risca. Depois do rei caem Diomedes, Odisseu e Macáon, e Ájax recua por medo posto por Zeus. A razão que cada um dá para resistir ou recuar inclui o nome de Zeus: Agamêmnon diz que o deus não o deixou lutar o dia inteiro, Diomedes que ele quer dar o poder aos troianos, Odisseu que ele pôs os outros em fuga. O canto mostra assim um dia em que todos conhecem a vontade de Zeus e agem dentro dela.
O que sobra no fim do canto está longe da luta. Aquiles, à popa, quer saber quem foi ferido e fala em esperar que os aqueus venham suplicar, e Pátroclo, que ele mandou, é retido por Nestor com argumentos que apontam para as armas de Aquiles. O narrador diz já na saída da tenda que ali começa o mal de Pátroclo, e o canto fecha com ele parado diante de um ferido, por piedade. A mesma piedade que o retém é o traço que Nestor usa para persuadi-lo, e o canto deixa os dois movimentos abertos: a mensagem a Aquiles por entregar, a proposta das armas já plantada.
Assinatura
A análise completa de cada canto de Ilíada está na assinatura, com a explicação de cada citação, o quiz, o guia em PDF e o caderno de estudos.