Resumo do capítulo
No Olimpo, os deuses estão sentados junto a Zeus, sobre o piso de ouro, e Hebe lhes serve néctar enquanto olham para Troia. Zeus decide provocar Hera com palavras de zombaria: diz que Menelau tem duas deusas protetoras, Hera e Atena, mas elas só olham de longe e se divertem, enquanto Afrodite nunca larga Páris e acaba de salvá-lo quando ele parecia perdido. A vitória é de Menelau, diz, e propõe aos deuses decidir se levantam de novo a guerra funesta ou se põem amizade entre os dois lados: se isso agradar a todos, a cidade de Príamo continua habitada e Menelau leva de volta Helena. Atena e Hera murmuram, sentadas lado a lado, e pensam em males para os troianos. Atena fica calada, furiosa com o pai; Hera não contém a ira e reclama: o trabalho dela, o suor e os cavalos que cansou ao reunir o exército contra Príamo e os filhos dele não podem ficar em vão.
Zeus responde irritado. Pergunta que mal tão grande Príamo e os filhos lhe fizeram para que ela queira arrasar Ílion, e diz que só se ela comesse Príamo cru o rancor dela se curaria. Mesmo assim cede: que faça como quiser, desde que a briga não vire grande discórdia entre os dois; e que, quando ele quiser destruir uma cidade onde moram homens queridos dela, ela não o atrase. Admite que concede isso de ânimo contrariado, porque de todas as cidades sob o sol a que mais amava era a sagrada Ílion, onde nunca faltou ao seu altar a parte devida. Hera oferece em troca as três cidades que mais lhe são caras, Argos, Esparta e Micenas: Zeus pode destruí-las quando elas lhe forem odiosas, e ela não vai se opor, até porque ele é muito mais forte. Mas o trabalho dela não pode ficar inacabado: é deusa como ele, da mesma linhagem, a mais velha filha de Crono, e é chamada esposa de Zeus. Propõe que cedam um ao outro e que ele mande Atena à luta terrível, para que sejam os troianos a começar a ferir os aqueus orgulhosos, contra os juramentos. Zeus não recusa e manda Atena.
Atena desce do Olimpo como uma estrela que o filho de Crono lança como sinal para marinheiros ou para um exército, e cai no meio dos dois campos. Os que olham se espantam e perguntam se haverá guerra ou amizade, pois Zeus é quem distribui a guerra entre os homens. Atena toma a forma de Laódoco, filho de Antenor, e procura Pândaro, filho de Licáon, chefe dos troianos de Zeleia, que encontra cercado por escudeiros vindos do rio Esepo. Pergunta se ele teria coragem de lançar uma flecha contra Menelau: ganharia gratidão e glória de todos os troianos, sobretudo do príncipe Alexandre, que lhe daria belos presentes se visse Menelau subir à pira. Manda ainda que reze a Apolo e prometa uma hecatombe de cordeiros primogênitos ao voltar à sagrada Zeleia. O poeta diz que ela convenceu o espírito do insensato. Pândaro toma o arco feito dos chifres de uma cabra selvagem que ele mesmo abateu, os companheiros o cobrem com escudos para que os aqueus não se levantem antes de Menelau ser atingido, ele reza a Apolo e puxa a corda: a flecha salta.
Os deuses não esqueceram Menelau. Atena, a primeira, afasta a flecha como uma mãe afasta a mosca do filho adormecido, mas ela mesma a dirige ao ponto em que os fechos de ouro do cinturão se juntam à couraça dupla. A flecha atravessa o cinturão, a couraça e a mitra e só raspa a pele; o sangue negro escorre, comparado ao marfim que uma mulher da Meônia ou da Cária tinge de púrpura para enfeite de cavalo. Agamêmnon estremece ao ver o sangue, e Menelau também, até perceber que o nervo e as farpas estão do lado de fora, e então o ânimo lhe volta. Agamêmnon, gemendo, segura a mão do irmão e se acusa: selou os juramentos para a morte dele, ao pô-lo sozinho diante dos aqueus, e os troianos o feriram e pisaram a palavra firme. Diz que o juramento não é vão e que o Olímpio, se não cumpre logo, cumpre mais tarde: eles pagarão com a cabeça, as mulheres e os filhos, e ele sabe que virá o dia da queda de Ílion. Mas sofreria dor terrível se Menelau morresse: voltaria a Argos coberto de vergonha, os aqueus se lembrariam da pátria, Helena ficaria como troféu a Príamo e um troiano diria sobre o túmulo de Menelau que Agamêmnon nunca levou a ira a termo. Menelau o tranquiliza: a flecha não pegou lugar mortal. Agamêmnon manda o arauto Taltíbio chamar Macáon, filho de Asclépio, que tira a flecha, chupa o sangue e põe drogas suaves que Quíron deu ao pai dele.
Enquanto cuidam de Menelau, as fileiras troianas avançam e os aqueus voltam a se armar. Agamêmnon não cochila nem se esquiva: deixa os cavalos com Eurimedonte e percorre a pé as fileiras. Aos que se apressam, anima: Zeus não será auxílio de mentirosos, os que primeiro violaram os juramentos terão a pele tenra comida por abutres, e os aqueus levarão esposas e filhos nas naus quando tomarem a cidade. Aos que parecem hesitar, repreende com palavras duras, perguntando por que ficam parados como cervatos cansados. Elogia Idomeneu, que promete ser fiel companheiro e pede que ele incite os outros, porque os troianos romperam o juramento e terão morte e dor. Com os dois Ájax, que avançam com uma nuvem de infantaria, nada tem a pedir: só deseja que todos tivessem o ânimo deles. Nestor organiza a formação, cavaleiros na frente, infantaria atrás como baluarte e os fracos no meio, para que mesmo sem querer cada um lute por necessidade. Agamêmnon deseja que os joelhos do velho acompanhem o ânimo, e Nestor responde que os deuses não deram tudo de uma vez aos homens, mas que ainda estará entre os cavaleiros, com conselho e palavras.
Ao encontrar Menesteu e Odisseu com os cefalênios parados, Agamêmnon os censura: por que ficam de fora esperando que outros comecem, eles que são os primeiros a ser convidados aos banquetes do rei? Agora veriam com prazer dez torres aqueias lutar na frente deles. Odisseu o encara de cenho fechado: que palavra escapou da cerca dos dentes? Se o rei quiser ver, verá o pai de Telêmaco misturado aos da frente. O poeta registrara que os cefalênios ainda não tinham ouvido o grito de guerra e esperavam que outra torre atacasse. Agamêmnon sorri, vendo que Odisseu se irritou, e retira a palavra: sabe que o coração dele pensa o que ele próprio pensa, e as ofensas se reparam depois. Encontra então Diomedes de pé junto ao carro, com Estenelo, e o censura por se encolher e vigiar as pontes da guerra: Tideu não era assim. Conta, por ouvir dizer, a missão de Tideu a Tebas: ele foi a Micenas como hóspede, com Polinices, pedir aliados, mas Zeus virou os presságios; no caminho os aqueus o mandaram como mensageiro a Tebas, onde, sozinho entre os cadmeus em banquete, desafiou para as provas e venceu todas com a ajuda de Atena; na volta caiu em emboscada de cinquenta jovens e matou todos, menos Méon, que poupou por obediência aos sinais dos deuses. Termina dizendo que Tideu gerou um filho pior na batalha, melhor na assembleia. Diomedes não responde, por respeito à reprimenda do rei. Estenelo responde por ele que os de agora se gabam de ser muito melhores que os pais: tomaram Tebas com menos gente e muralha mais forte, obedecendo aos sinais dos deuses e à ajuda de Zeus, enquanto os pais pereceram por seus próprios desatinos. Diomedes manda o amigo se calar: não se indigna com Agamêmnon, porque a glória dele vem se os aqueus vencerem e o luto se forem destruídos. Salta do carro, e o bronze ressoa terrivelmente no peito dele.
Os exércitos avançam. Os dânaos marcham em silêncio, temendo os chefes, cada um dando ordens aos seus; os troianos gritam como ovelhas num curral, com línguas misturadas, porque os aliados vêm de muitos lugares. Ares incita os troianos e Atena os aqueus, e com eles Terror, Pânico e Éris, irmã e companheira de Ares, que de pequena cresce até encostar a cabeça no céu e lança entre os exércitos a disputa igual para todos. Quando os campos se chocam, escudos batem em escudos, os gritos de lamento e de triunfo se misturam, e a terra corre sangue.
O primeiro a matar é Antíloco, filho de Nestor, que abate o troiano Equépolo. Elefenor, chefe dos abantes, tenta arrastar o corpo para despojá-lo e é atingido no flanco por Agenor, que o mata. Ájax Telamônio mata o jovem Simoísio, que a mãe teve à beira do rio Simoente e por isso tem esse nome; ele não pagou aos pais o preço da criação, e caiu como um choupo derrubado. Antifo, filho de Príamo, atira em Ájax, erra, e acerta Leuco, companheiro de Odisseu, que arrastava um corpo. Odisseu, irado pela morte do amigo, avança entre os da frente e mata Democoonte, filho bastardo de Príamo. Os troianos recuam, e Heitor também; os argivos gritam, puxam os mortos e avançam. Apolo, indignado, do alto de Pérgamo, grita aos troianos que resistam: a carne dos aqueus não é de pedra nem de ferro, e Aquiles não combate, rumina a cólera junto às naus. Atena incita os aqueus onde os vê hesitar. Diores, chefe dos epeus, cai atingido por uma pedra de Piroo, chefe dos trácios, que o mata; o etólio Toas mata Piroo, e os trácios cercam o corpo e o impedem de despojá-lo. Os dois chefes ficam estendidos na poeira, e muitos outros morrem em volta. O poeta fecha dizendo que ali ninguém censuraria a obra se, ainda ileso, fosse levado por Atena pela mão no meio da luta, pois muitos troianos e aqueus jaziam naquele dia de bruços na poeira, uns ao lado dos outros.
Análise
O canto mostra a guerra recomeçando por uma cadeia em que cada agente tem motivo próprio e ninguém controla o conjunto. Zeus quer provocar e depois evitar uma briga com a esposa; Hera quer a ruína de Troia e paga com Argos, Esparta e Micenas; Atena executa; Pândaro age por glória e presentes, sem saber quem lhe fala; Agamêmnon vê no ferimento a prova da perfídia troiana. Os dois fatos que o texto põe lado a lado, o juramento foi de fato quebrado por um troiano e foi uma deusa quem o levou a isso, não se anulam, e Agamêmnon só vê o primeiro.
A revista das tropas mostra o comando de Agamêmnon em ação: elogia quem se move, censura quem parece parado e usa a vergonha como instrumento. Nos dois casos em que se engana, os visados reagem de modos opostos: Odisseu responde e o rei retira a palavra; Diomedes cala por respeito, Estenelo responde por ele, e só depois Diomedes explica por que não se ofende. O canto termina com a batalha já começada e sem o herói que o primeiro verso do poema anunciou: Apolo lembra que Aquiles rumina a cólera junto às naus.
Assinatura
A análise completa de cada canto de Ilíada está na assinatura, com a explicação de cada citação, o quiz, o guia em PDF e o caderno de estudos.