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Ilíada · Canto II

O sonho e o catálogo das naus

Resumo do capítulo

À noite, quando os outros deuses e os homens dormem, Zeus fica acordado, revolvendo no ânimo como honrar Aquiles e fazer perecer muitos aqueus junto às naus. O melhor plano que lhe ocorre é mandar um Sonho funesto a Agamêmnon, com o recado de que mande armar todo o exército: agora ele poderia tomar a cidade de Troia, porque os deuses do Olimpo já não estão divididos, já que Hera os convenceu com súplicas, e sobre os troianos pesam desgraças vindas de Zeus. O Sonho toma a figura de Nestor, o ancião que Agamêmnon mais respeita, repete o recado palavra por palavra e se vai. O rei acorda convencido de que tomará a cidade naquele mesmo dia, sem saber o que Zeus de fato prepara: dores e gemidos para troianos e dânaos nos combates duros.

Ao amanhecer, Agamêmnon se veste, toma o cetro herdado do pai e manda os arautos convocar a assembleia. Antes, porém, reúne o conselho dos anciãos junto à nau de Nestor, conta o sonho e anuncia o plano: vai testar o exército propondo a fuga, e os chefes devem, cada um por seu lado, detê-la com palavras. Nestor apoia o rei com um argumento sobre quem viu: se outro qualquer aqueu tivesse contado o sonho, o tomariam por mentira, mas quem o relata é o que se declara o melhor deles. Quando o povo se reúne, em tumulto, Agamêmnon se levanta com o cetro, cuja história o poema conta de Hefesto a Zeus, a Hermes, a Pélope, a Atreu, a Tiestes e por fim a ele. Fala então como quem desistiu: Zeus, que lhe prometera voltar depois de destruir Ílio, agora o enganou e o manda regressar sem glória depois de perder tanta gente; seria vergonha, mesmo para os pósteros, uma guerra inútil contra inimigos tão menos numerosos; os aliados vindos de muitas cidades impedem a tomada; nove anos já passaram, as madeiras das naus apodrecem, mulheres e filhos esperam em casa. Propõe fugir, porque já não tomarão Troia.

A assembleia se agita como o mar sob o vento, e todos os que não ouviram o plano do conselho correm para as naves, desprendem os calços e gritam para pô-las ao mar. O poema diz que haveria um retorno além do destino se Hera não tivesse falado a Atena. Hera não aceita que os argivos fujam e deixem a Príamo e aos troianos a glória de Helena, por quem tantos aqueus morreram longe da pátria, e manda a filha de Zeus deter cada homem com palavras suaves. Atena desce e encontra Odisseu parado, sem tocar a nau, porque a aflição lhe tomou o coração; ele reconhece a voz da deusa, atira o manto ao arauto Euríbates, de Ítaca, vai ao encontro de Agamêmnon e toma-lhe o cetro paterno. Com ele percorre as naus: aos reis e aos homens de destaque contém com palavras brandas, dizendo que não se mostrem temerosos como gente baixa, porque ainda não conhecem a intenção do Atrida, que agora testa e logo castigará, e que a ira dos reis criados por Zeus é grande; ao homem do povo que encontra gritando bate com o cetro e manda calar, porque o mando de muitos não é bom, e um só deve ser rei, a quem Zeus deu cetro e normas.

A multidão volta a sentar-se, mas Tersites, o mais feio dos que vieram a Troia, continua a gritar. Odiado por Aquiles e por Odisseu, a quem costumava insultar, ele investe agora contra Agamêmnon: o que mais lhe falta, se as tendas já estão cheias de bronze e de mulheres escolhidas, que os aqueus lhe dão primeiro? Propõe voltar para casa e deixar o rei em Troia a digerir seus prêmios, para ver se os soldados lhe fazem falta, já que ele desonrou Aquiles, muito melhor que ele, tomando-lhe o prêmio, e Aquiles não tem cólera no peito, é remisso. Odisseu o enfrenta com olhar duro, manda-o calar, diz que ninguém sabe ainda como estas coisas terminarão e jura que, se o ouvir de novo, deixe de ter a cabeça sobre os ombros e de ser chamado pai de Telêmaco se não o despir e não o mandar chorando às naus a golpes; bate-lhe com o cetro nas costas e nos ombros e deixa-lhe um vergão sangrento. Tersites senta, assustado e chorando, e a tropa ri dele, embora aflita, e elogia Odisseu por ter contido o insolente.

Com Atena disfarçada de arauto a impor silêncio, Odisseu fala então ao exército. Diz a Agamêmnon que os aqueus querem vê-lo coberto de vergonha, porque não cumprem a promessa de só voltar depois de destruir Ílio e choram o retorno como crianças e viúvas. Reconhece que a vontade de voltar é compreensível, pois já passaram nove anos, mas lembra que é vergonhoso ficar tanto tempo e voltar de mãos vazias, e pede que esperem até ver se o adivinho Calcas profetiza verdadeiro. Conta o que todos viram em Áulide, quando as naus se reuniam: uma serpente saída do altar devorou oito filhotes de pardal e a mãe, a nona, e Zeus a transformou em pedra; Calcas leu no sinal que combateriam tantos anos quanto as aves devoradas e, no décimo, tomariam a cidade. Os aqueus aprovam aos gritos. Nestor repreende: falam como crianças que não se importam com os trabalhos da guerra, e onde foram parar os juramentos? Ninguém deve voltar antes de deitar-se com uma mulher de Troia, vingando os esforços e os gemidos de Helena, e quem quiser fugir que toque a nau e seja o primeiro a encontrar a morte. Aconselha o rei a dividir os homens por tribos e clãs, para saber quem é mau chefe, quem é covarde e se a cidade resiste pela vontade dos deuses ou pela inépcia dos homens.

Agamêmnon responde que Nestor vence os aqueus na eloquência e que desejaria ter dez conselheiros assim. Atribui a Zeus os sofrimentos, que o lançam em disputas inúteis, e admite que ele e Aquiles brigaram por causa de uma moça e que a ira começou da parte dele; se um dia concordarem, Troia não demorará a cair. Manda o exército comer, afiar as lanças, alimentar os cavalos e examinar os carros, pois a batalha durará o dia inteiro até a noite, e ameaça de pasto aos cães e às aves quem for visto longe do combate, junto às naus. O exército grita, como a onda contra o rochedo, e cada um sacrifica ao deus que prefere, pedindo que o livrem da morte. Agamêmnon sacrifica um boi de cinco anos a Zeus e convoca os chefes mais nobres: Nestor, Idomeneu, os dois Ájax, o filho de Tideu, Diomedes, e Odisseu; Menelau vem sem ser convidado, porque sabe as preocupações do irmão. Na prece, o rei pede que o sol não se ponha antes que ele derrube o palácio de Príamo, queime-lhe as portas e rasgue com o bronze a túnica no peito de Heitor, com muitos companheiros caídos de bruços. Zeus aceita as oferendas, mas não lhe concede o pedido: faz crescer o sofrimento. Depois do banquete, Nestor propõe não perder mais tempo, os arautos reúnem o exército e os reis o ordenam, com Atena à frente com a égide, de cem franjas de ouro, pondo em cada coração a vontade de lutar sem descanso, de modo que a guerra se torna mais doce que voltar para casa.

O poeta invoca então as Musas, as únicas que estão presentes e sabem tudo, enquanto os homens só ouvem a fama, para que lhe digam quem eram os chefes e comandantes dos dânaos, pois nem com dez línguas e dez bocas nomearia a multidão. Começa assim o Catálogo das Naus, o inventário do exército grego, região por região e chefe por chefe, com o número de naus de cada contingente, de modo a mostrar a dimensão da expedição e de onde vem cada parte dela. Entre as entradas, o poema abre desvios: Protesilau, o primeiro a saltar na praia, está morto, e seu povo o chora sem ficar sem guia; Filoctetes jaz abandonado em Lemnos com a ferida da cobra; e Aquiles está parado junto ao mar, com os homens jogando disco e lança e os cavalos pastando, porque o chefe jaz irado com Agamêmnon. O catálogo passa então aos troianos: Íris, mensageira de Zeus, na figura de Polites, o vigia, fala à assembleia de Príamo, diz que nunca viu exército tão numeroso e aconselha Heitor a ordenar os aliados de muitas línguas, cada grupo sob seu chefe. Heitor reconhece o conselho divino, desfaz a assembleia, e os troianos saem em armas pelas portas, para junto da colina de Batieia, onde se põem em ordem. O canto termina com os dois exércitos prontos para a primeira batalha, mas ainda sem que se tenha dado um golpe.

Análise

O Sonho de Zeus não traz uma ordem nem uma promessa explícita de vitória: diz que o rei poderia tomar a cidade agora, e Agamêmnon transforma esse "poderia" em certeza, enquanto o narrador avisa que ele ignora o que Zeus prepara. O teste mostra que o rei não controla o exército que comanda: a proposta de fuga, feita para medir a vontade dos homens, é acolhida como verdade por quem não ouvira o conselho, e só a intervenção de Atena, por meio de Odisseu, evita o retorno que o poema chama de além do destino. O que mantém o exército de pé é uma mistura de vergonha, sinal e promessa que Odisseu e Nestor sabem manejar.

O canto tem dois andamentos. No primeiro, a autoridade de Agamêmnon é posta à prova e se sustenta com apoios de fora: o cetro do rei, que Odisseu toma para falar em nome dele, a fala de Nestor, o presságio de Áulide. No segundo, o Catálogo estende o poema para fora da cena e põe diante do leitor o tamanho do que está em jogo antes de qualquer golpe, e no meio dele está a ausência de Aquiles: o exército mais numeroso é medido por um homem que não luta. Aqui a ira do Canto I aparece como um vazio na fileira.

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