Resumo do capítulo
Enquanto Troia geme, os aqueus chegam às naus junto ao Helesponto e se dispersam, cada um para a sua. Aquiles não deixa os mirmidões se dispersarem: manda que não desatrelem os cavalos e chorem Pátroclo de carro, ao redor do corpo, porque esse é o privilégio dos mortos, e que depois jantem. Três vezes os carros rodeiam o cadáver, e Tétis desperta neles o desejo de lamento. Aquiles, com as mãos assassinas sobre o peito do amigo, conduz o pranto e promete a Pátroclo o que lhe prometera: arrastar Heitor até ali e dá-lo cru aos cães, e degolar doze filhos nobres dos troianos diante da pira, irado pela morte dele. Estende Heitor de bruços junto ao leito de Pátroclo, no pó, e os outros tiram as armas e se sentam ao banquete fúnebre que Aquiles oferece, com bois, ovelhas, cabras e porcos.
Os reis dos aqueus levam Aquiles, ainda enfurecido pelo amigo, à tenda de Agamêmnon e mandam aquecer água para que ele lave o sangue. Ele recusa com um juramento por Zeus: não é lícito que a água toque a sua cabeça antes de pôr Pátroclo na pira, erguer o túmulo e cortar o cabelo, pois uma dor assim não lhe chegará mais ao coração enquanto estiver entre os vivos. Pede a Agamêmnon que ao amanhecer mande trazer lenha, para que o fogo leve o morto o mais depressa aos olhos de todos e o povo volte ao trabalho. Os chefes obedecem, jantam, e cada um vai dormir à sua tenda.
Aquiles se deita na praia, entre os mirmidões, gemendo, e o sono o toma, exausto de perseguir Heitor até Troia. Vem a alma de Pátroclo, igual a ele no tamanho, nos olhos, na voz e nas roupas, e se põe sobre a cabeça dele. Censura-o por dormir e por tê-lo esquecido, pois não lhe faltava cuidado enquanto vivo, mas só depois de morto, e pede que o enterre depressa, para passar as portas do Hades: as almas dos mortos o mantêm afastado e não o deixam atravessar o rio, e ele vagueia pela casa do Hades. Pede a mão, chorando, porque depois que o fogo o consumir não voltará do Hades; diz que a sorte de Aquiles é morrer junto ao muro dos troianos ricos; e pede que os ossos dos dois não fiquem separados, mas na mesma urna, a ânfora de ouro que a mãe de Aquiles lhe deu, pois cresceram juntos na casa de Peleu, para onde Menécio o levou menino, por ter matado sem querer o filho de Anfidamas num jogo de dados. Aquiles responde que cumprirá tudo e pede que se aproxime, para se abraçarem um instante e se saciarem do pranto. Estende as mãos e não segura nada: a alma desce à terra como fumaça, guinchando. Aquiles se levanta espantado, bate as mãos e conclui que há, também na casa de Hades, alma e imagem, mas sem mente alguma, porque a alma de Pátroclo passou a noite inteira diante dele, chorando e dando ordens, e era maravilhosamente parecida com ele. Todos choram até a aurora, junto ao corpo.
Agamêmnon manda mulas e homens buscar lenha, sob a direção de Meríones, e eles sobem às encostas do monte Ida, cortam carvalhos e os levam à praia, ao lugar que Aquiles marcou para um grande túmulo de Pátroclo e dele mesmo. Os mirmidões vestem as armas, sobem aos carros, e o cortejo avança com o corpo no meio, coberto pelos cabelos que os companheiros cortam e lançam sobre ele; Aquiles vem atrás, sustentando-lhe a cabeça. Depositam o corpo e empilham a lenha. Então Aquiles corta a cabeleira loura que deixava crescer para o rio Esperqueu e fala ao rio: Peleu prometera que, na volta do filho à pátria, lhe cortaria o cabelo e lhe ofereceria uma hecatombe e cinquenta carneiros junto às fontes, onde há bosque e altar, mas o rio não cumpriu o desígnio do velho. Já que ele mesmo não voltará, dá o cabelo a Pátroclo e o pousa na mão do morto. Todos choram até o pôr do sol, e Aquiles pede a Agamêmnon que mande o povo jantar e fique só com os mais ligados ao morto. Fazem uma pira de cem pés em cada lado, põem o corpo no alto e esfolam muitos carneiros e bois, e Aquiles cobre o cadáver, da cabeça aos pés, com a gordura dos animais. Encosta ao leito ânforas de mel e óleo e lança na pira quatro cavalos de pescoço alto, gemendo, e dois dos nove cães da mesa de Pátroclo, e depois doze filhos nobres dos troianos, que mata com o bronze, tramando atos maus; e lança o ímpeto do fogo, para que o devore. Diz de novo ao morto o que prometeu: doze nobres filhos dos troianos queimam com ele, mas Heitor ele não dará ao fogo, e sim aos cães. Os cães, porém, não rondam Heitor: Afrodite os afasta dia e noite e o unge com óleo de rosas, para que o arrastar não o esfole, e Apolo traz do céu uma nuvem escura que cobre o lugar onde o corpo jaz, para que o sol não resseque a pele e os membros.
A pira não pega, e Aquiles, afastado, reza aos ventos Bóreas e Zéfiro, prometendo belos sacrifícios e libando com uma taça de ouro, para que venham e a lenha queime depressa. Íris vai levar o pedido aos ventos, que banqueteiam juntos na casa de Zéfiro; recusa sentar-se, porque volta ao Oceano e à terra dos etíopes, onde os imortais recebem hecatombes e ela quer partilhar dos sacrifícios, e transmite o recado. Os ventos se erguem com grande rumor, empurrando as nuvens, chegam ao mar e a Troia, e caem sobre a pira, que ruge. Passam a noite soprando a chama, e Aquiles, tirando vinho de uma cratera de ouro com uma taça de duas copas, verte-o no chão, chamando a alma de Pátroclo, e se arrasta junto à pira, chorando como um pai que queima os ossos do filho recém-casado, que morreu e deixou os pais aflitos. Quando a estrela da manhã sobe e a aurora se espalha, a pira baixa, a chama cessa, e os ventos voltam para casa pelo mar da Trácia, que geme ao inchar. Aquiles, exausto, afasta-se e dorme, e acorda com o rumor dos chefes que se reúnem em torno de Agamêmnon. Pede que apaguem a pira com vinho brilhante, depois reúnam os ossos de Pátroclo, fáceis de reconhecer porque estavam no meio, enquanto cavalos e homens queimaram nas bordas, e os guardem numa taça de ouro com gordura dupla até ele mesmo se esconder no Hades. Pede um túmulo que não seja muito grande, apenas conveniente, e que os aqueus que sobreviverem a ele o façam depois largo e alto. Obedecem: apagam, recolhem os ossos, cobrem a urna com linho, traçam o túmulo, lançam os alicerces em volta da pira, amontoam terra e voltam. Aquiles retém o povo, faz sentar a grande assembleia e traz das naus os prêmios dos jogos: caldeirões, trípodes, cavalos, mulas, bois, mulheres de belo cinto e ferro cinzento.
Primeira prova, a corrida de carros, com cinco concorrentes: Eumelo, Diomedes com os cavalos troianos que tomou de Eneias, Menelau, Antíloco, filho de Nestor, e Meríones. Aquiles fica de fora, porque os cavalos dele, presentes de Poseidon a Peleu, são imortais e choram o cocheiro Pátroclo, de cabeça no chão. Nestor, vendo que os cavalos do filho são os mais lentos, ensina-lhe a astúcia: o lenhador e o piloto valem mais pelo jeito que pela força, e quem sabe lidar com cavalos piores vigia a meta e a rédea e não deixa que lhe tirem a vez na curva. Indica a meta, um tronco seco entre duas pedras brancas, e como encostar nela sem tocá-la. Eumelo toma a dianteira, com Diomedes no seu cangote; Apolo, irritado com Diomedes, lhe derruba o chicote, e Diomedes chora de raiva; Atena percebe o ardil, devolve-lhe o chicote, põe força nos cavalos e, enfurecida com Eumelo, quebra o jugo da parelha dele, e Eumelo cai do carro e se fere. Diomedes passa à frente. Antíloco incita os cavalos, avisando que o pai os mandará matar se perderem para a égua de Menelau, e se enfia por um desfiladeiro em que só passa um carro; Menelau o adverte do perigo, Antíloco acelera, como se não ouvisse, e Menelau, para evitar o choque, afrouxa e o insulta. Idomeneu e Ájax, filho de Oileu, brigam sobre quem vê os primeiros cavalos, e Aquiles os separa. Diomedes chega primeiro, e seu companheiro Estenelo leva o prêmio; Antíloco é segundo, Menelau terceiro, Meríones quarto, e Eumelo, que veio puxando o carro, o último.
Aquiles, com pena de Eumelo, propõe dar-lhe o segundo prêmio, e os aqueus aprovam. Antíloco protesta: seria tirar-lhe o que ganhou; que Aquiles dê a Eumelo do que tem na tenda. Aquiles sorri, contente com o amigo, e dá a Eumelo a couraça que tomou de Asteropeu. Menelau, ressentido, levanta-se e acusa Antíloco de lhe ter manchado a virtude e estragado os cavalos; pede aos chefes que julguem, para que ninguém diga que ele venceu por mentira, e exige que Antíloco jure por Poseidon que não o atrapalhou de propósito. Antíloco responde que é muito mais jovem, que a juventude é rápida de mente e frágil de juízo, e entrega a égua, oferecendo até mais, a fim de não perder a estima de Menelau nem ser culpado diante dos deuses. Menelau, aplacado, cede por sua vez a égua a Antíloco, para que se saiba que o seu coração nunca foi soberbo nem duro. Meríones leva os dois talentos de ouro, e a taça fica sem dono: Aquiles a dá a Nestor, em memória do túmulo de Pátroclo, porque o velho já não lutará no punho nem na luta, nem lançará dardo, nem correrá, e Nestor aceita contente, lembrando os dias em que venceu nos jogos de Amarinceu.
No pugilato, o prêmio é uma mula de seis anos, e uma taça para o vencido. Epeio se oferece, gaba-se de que ninguém o vencerá e de que quebrará os ossos de quem o enfrentar, e todos calam. Levanta-se Euríalo, a quem Diomedes ajuda com o cinto e as correias; trocam golpes, e Epeio o derruba com um soco no rosto, e os companheiros arrastam Euríalo, cuspindo sangue, para fora do campo. Na luta, o prêmio ao vencedor é um grande trípode e ao vencido uma mulher. Levantam-se Ájax Telamônio e Odisseu, agarram-se como duas vigas de telhado, as costas rangem sob as mãos, as marcas de sangue sobem nos flancos, e nenhum derruba o outro. Ájax diz a Odisseu que o levante ou será levantado, e o resto fica com Zeus; levanta-o, mas Odisseu lhe golpeia por trás o jarrete e o faz cair para trás, caindo-lhe sobre o peito. Odisseu tenta erguer Ájax, só o mexe um pouco do chão, dobra o joelho, e caem os dois lado a lado, sujos de poeira. Na terceira tentativa, Aquiles os interrompe e declara vitória dos dois, com prêmios iguais, para que outros aqueus compitam.
Na corrida a pé, o prêmio é uma cratera de prata trabalhada em Sídon, a mais bela de toda a terra, ao segundo um boi gordo, e ao último meio talento de ouro. Largam Ájax, filho de Oileu, Odisseu e Antíloco, que vencia todos os jovens a pé. Ájax vai na frente, e Odisseu logo atrás, tão perto como o fuso do peito da tecelã, pisando-lhe as pegadas antes que a poeira as cubra e soprando-lhe na nuca. No último trecho, Odisseu reza em silêncio a Atena; ela lhe alivia os membros e, na hora de pegar o prêmio, faz Ájax escorregar no esterco dos bois que Aquiles abateu por Pátroclo, enchendo-lhe a boca e o nariz. Odisseu leva a cratera, Ájax o boi, e Ájax, cuspindo esterco, diz aos aqueus que a deusa lhe feriu os pés, ela que como uma mãe assiste Odisseu; todos riem dele. Antíloco, o último, leva sorrindo o prêmio e diz que os imortais honram os mais velhos: Ájax é só um pouco mais velho que ele, mas Odisseu é de geração anterior, dizem que é um velho vigoroso, e só Aquiles o vence a pé. Aquiles o louva e acrescenta meio talento de ouro.
No combate de armas, Aquiles põe as armas de Sarpédon, que Pátroclo tomou, e promete o sabre trácio de prata a quem primeiro ferir a carne do outro. Enfrentam-se Ájax Telamônio e Diomedes; depois de três investidas, Ájax fura o escudo sem alcançar a carne, e Diomedes mira por cima do escudo grande o pescoço de Ájax, e os aqueus, com medo por Ájax, mandam parar e dividir os prêmios; Aquiles dá a espada a Diomedes. Para o disco, põe a massa de ferro que Eécion arremessava, a quem ele matou: Polipetes a lança além de todos, tão longe como um boieiro atira o cajado, e a leva. No arco, amarra uma pomba ao mastro de um navio, com dez machados e dez meios-machados como prêmio; Teucro, o primeiro, corta o fio e erra a ave, porque não prometera hecatombe a Apolo, que lhe nega o acerto; Meríones lhe toma o arco, promete a hecatombe e atinge a pomba no alto, e leva os dez machados; Teucro, os meios. No dardo, levantam-se Agamêmnon e Meríones; Aquiles diz ao rei que todos sabem quanto ele excede os outros e o manda levar o caldeirão às naus, e pede que a lança seja dada a Meríones, se ele concordar. Agamêmnon aceita, entrega a lança de bronze a Meríones e o caldeirão ao arauto Taltíbio.
Análise
O canto faz do luto um trabalho de mãos, e cada gesto de Aquiles é cumprimento de um pedido do morto: a promessa de vingança, a vigília, a pira, o vinho, os ossos, a urna. O que o move é o pedido do espectro, que o acusa de tê-lo esquecido, e Aquiles responde dando tudo o que é seu, até o cabelo que o pai prometera a um rio. Com o cabelo, o poema deixa dito que Aquiles não volta. Ao lado, e ao mesmo tempo, o corpo de Heitor jaz de bruços e protegido pelos deuses: a ira ainda não acabou, e o canto não a perdoa nem a cala.
Os jogos mostram uma sociedade que, tirada a guerra, resolve disputas por regra, por juízo e por palavra. O Aquiles que no Canto 1 perdeu um prêmio para um rei é aqui o juiz que concede, corrige, interrompe e divide, e a mesma mão que arrastou Heitor reparte prêmios iguais a Ájax e Odisseu. O jeito, a astúcia, ganha a maior parte das provas, quase sempre com a ajuda de um deus, e cada briga ameaçada (Antíloco e Menelau, Idomeneu e Ájax, Eumelo e Aquiles) se desfaz por uma palavra dita no momento certo. É um canto de recomposição, não de esquecimento.
Assinatura
A análise completa de cada canto de Ilíada está na assinatura, com a explicação de cada citação, o quiz, o guia em PDF e o caderno de estudos.