Resumo do capítulo
Os dois exércitos avançam em ordem: os troianos aos gritos, como grous que fogem do inverno, e os aqueus em silêncio, respirando furor, decididos a socorrer-se uns aos outros. À frente dos troianos vai Páris, com pele de leopardo, arco e espada nos ombros e duas lanças na mão, e desafia os melhores dos aqueus a lutarem com ele. Menelau o vê e se alegra como um leão que encontra uma presa, porque pensa em punir o culpado, e salta do carro em armas. Páris sente o coração abalar-se e recua para o meio dos companheiros, como quem vê uma serpente e foge pálido. Heitor, ao ver isso, o repreende: preferiria que ele nunca tivesse nascido, ou que tivesse morrido sem casar, a vê-lo servir de opróbrio e de riso aos outros. Os aqueus devem estar rindo, porque o tomavam por campeão pela beleza, mas ele não tem força nem coragem. Como ousou navegar, buscar companheiros e trazer uma mulher bela de terra distante, desgraça para o pai, para a cidade e para o povo, e agora não enfrenta o marido dela? A cítara, os cabelos e os dons de Afrodite de nada servirão quando ele cair no pó, e, se os troianos não fossem tão medrosos, ele já estaria vestido de pedras pelos males que causou.
Páris reconhece a justiça da censura, compara o coração de Heitor a um machado que penetra o tronco, pede que não lhe lance em rosto os dons de Afrodite, porque os dons dos deuses não se escolhem, e propõe o que Heitor queria: que os dois exércitos se sentem e que ele e Menelau lutem por Helena e por todos os bens; quem vencer leve bens e mulher, e os outros jurem amizade, ficando os troianos em Troia e voltando os aqueus a Argos. Heitor se alegra, segura a lança pelo meio para conter a linha troiana, e os aqueus o atacam com flechas e pedras até que Agamêmnon manda parar. Heitor expõe a proposta aos dois exércitos, que ficam calados. Menelau então fala: a dor é maior para ele, que sofreu a ofensa; aceita o fim da guerra, mas quer que morra um dos dois, aquele a quem couber o destino; pede dois cordeiros, um branco para o Sol e um preto para a Terra, e um terceiro para Zeus, e que o próprio Príamo venha jurar, porque os filhos dele são soberbos e pouco confiáveis, e a mente dos jovens é volúvel, enquanto o velho vê o antes e o depois. Aqueus e troianos se alegram, esperando o fim da guerra; apeiam, desarmam-se, deixam as armas no chão, umas junto das outras, e arautos partem para buscar os cordeiros e Príamo.
Íris, na figura de Laódice, cunhada de Helena, procura Helena, que tecia um manto de púrpura onde bordava os combates de troianos e aqueus por causa dela. Chama-a para ver o duelo, diz que quem vencer a chamará esposa e lhe infunde doce saudade do primeiro marido, da cidade e dos pais. Helena se cobre com um véu branco e vai, chorando, com duas servas, até as Portas Ceias, onde Príamo e os anciãos, já velhos demais para a guerra, mas bons oradores, a veem chegar. Dizem baixinho que não é de espantar que troianos e aqueus sofram tanto por mulher assim, que parece uma deusa, mas que ela volte nas naus e não fique como desgraça para eles e seus filhos. Príamo a chama para perto de si, diz que não é ela a culpada, e sim os deuses, que lhe lançaram esta guerra, e pede que nomeie os chefes aqueus. Helena responde que sente por ele respeito e temor e que preferia ter morrido a seguir o filho dele, deixando o tálamo, os parentes, a filha e as companheiras. Identifica então Agamêmnon, Odisseu (e Antenor lembra como o viu quando veio a Troia com Menelau, e como fala quando se levanta), Ájax e Idomeneu, e diz não ver seus irmãos Castor e Polideuces, que supõe terem ficado por vergonha dela; o narrador acrescenta que a terra já os cobria, na Lacedemônia.
Os arautos levam os cordeiros e o vinho, e Ideu chama Príamo, que estremece e sobe ao carro com Antenor. No espaço entre os exércitos, Agamêmnon corta pelos da cabeça dos cordeiros, que os arautos distribuem aos chefes, e invoca Zeus, o Sol, os rios, a terra e os deuses de baixo que punem os perjuros. Se Páris matar Menelau, que fique com Helena e os bens e os aqueus voltem nas naus; se Menelau matar Páris, que os troianos devolvam Helena e os bens e paguem aos argivos uma compensação que seja lembrada pelos homens futuros; e, se Príamo e os filhos se recusarem a pagá-la, ele seguirá lutando até o fim da guerra. Degola os cordeiros; os dois lados derramam vinho e rezam para que o cérebro de quem romper o juramento escorra no chão como aquele vinho, o dele e o dos filhos, e as esposas sejam de outros homens. Zeus não cumpre o pedido. Príamo diz que não suportará ver o filho lutar com Menelau, que só Zeus e os deuses sabem a qual dos dois a morte está destinada, e volta a Troia com os cordeiros. Heitor e Odisseu medem o terreno e agitam num elmo as sortes para ver quem lançará primeiro, enquanto os dois exércitos pedem a Zeus que o causador da guerra desça ao Hades e que os demais jurem amizade; a sorte de Páris salta.
Páris se arma, com a couraça do irmão Licáone, e Menelau se arma do mesmo modo. Os dois avançam, e o espanto toma quem os vê. Páris lança primeiro e a ponta se entorta no escudo de Menelau. Menelau reza a Zeus: que lhe dê punir Alexandre, que lhe fez o primeiro mal, para que os homens futuros temam fazer mal ao anfitrião que lhes oferece amizade. Sua lança atravessa o escudo e a couraça e rasga a túnica, mas Páris se inclina e evita a morte. Menelau golpeia a crista do elmo com a espada, que se estilhaça em pedaços e lhe escapa da mão; ele grita a Zeus que nenhum deus é mais ruinoso, pois esperava vingar-se e agora a espada se quebrou e a lança foi em vão. Agarra então Páris pelo elmo e o arrasta para os aqueus, enquanto a correia o sufoca sob o queixo; teria ganho glória imensa se Afrodite, filha de Zeus, não visse e rompesse a correia, de couro de boi, de modo que o elmo vem vazio na mão. Menelau o atira aos companheiros e volta a investir com a lança, mas Afrodite arranca Páris com facilidade, cobre-o de névoa e o deposita no tálamo perfumado.
Afrodite vai então chamar Helena, que estava na torre entre as troianas, na figura de uma velha que cardava lã para ela em Esparta e a quem ela queria bem, e diz que Páris a espera no quarto, belo e bem vestido, como quem sai da dança, não da luta. Helena reconhece a deusa pelo pescoço, pelo peito e pelos olhos e a repreende: quer levá-la mais longe, a outro homem, agora que Menelau venceu; que a deusa vá sentar-se ao lado de Páris e fique com ele até que a faça esposa ou escrava; ela não irá preparar o leito dele, porque as troianas a censurarão e já tem dores demais. Afrodite se irrita e ameaça odiá-la tanto quanto agora a ama e lançar o ódio de troianos e dânaos sobre ela; Helena teme e a segue em silêncio, sem que as troianas a vejam. No palácio, Afrodite lhe põe uma cadeira diante de Páris. Helena senta-se sem olhá-lo e o censura: voltou da guerra, e quem dera tivesse morrido nas mãos do homem forte que foi seu marido; ele se gabava de superar Menelau, que o desafie de novo, mas logo diz que não o faça, para não ser morto por ele. Páris responde que não a ferisse com insultos: Menelau venceu desta vez com a ajuda de Atena, na próxima será ele, pois há deuses também para eles; propõe que se deitem, porque nunca o desejo o cobriu assim, nem quando a raptou. Vão para o leito. Menelau, enquanto isso, percorre as fileiras como uma fera à procura de Páris, e nenhum troiano ou aliado o mostra, pois todos o odeiam como à morte negra. Agamêmnon declara então que a vitória é de Menelau e exige Helena, os bens e a compensação; os aqueus o aprovam.
Análise
O duelo é obra dos próprios homens: Heitor repreende, Páris propõe, Menelau exige os juramentos e Príamo é trazido para selá-los. O que o desfaz é a intervenção de uma deusa quando o resultado estava quase decidido, e o canto termina com uma vitória declarada (o texto diz que ela "aparece", 3.457) sobre um adversário vivo e deitado ao lado de Helena. O poema mostra a tentativa humana de encerrar a guerra por um acordo e a deixa sem efeito, sem dizer que ela fosse impossível, e registra que Zeus não cumpriu a prece de ambos os lados contra quem rompesse o pacto (3.302).
Helena é o centro do canto, e cada personagem a nomeia de um modo diferente: para Íris, ela é o prêmio do vencedor; para os anciãos, uma beleza que se deve devolver; para Príamo, inocente; para Agamêmnon, alguém a ser entregue com os bens e a multa; para Páris, desejo; para ela mesma, ora uma mulher que devia ter morrido (3.173), ora alguém que recusa a ordem da deusa e depois a cumpre (3.410-420). O texto não escolhe entre essas descrições e as deixa conviver.
Assinatura
A análise completa de cada canto de Ilíada está na assinatura, com a explicação de cada citação, o quiz, o guia em PDF e o caderno de estudos.