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Ilíada · Canto IX

A embaixada a Aquiles

Resumo do capítulo

Enquanto os troianos vigiam suas fogueiras, o pânico toma os aqueus e a dor atinge os melhores. Agamêmnon manda os arautos chamarem em voz baixa cada chefe à assembleia e, chorando como uma fonte, diz que Zeus o prendeu num pesado desvario: prometeu-lhe a queda de Troia e agora o manda de volta a Argos sem glória, depois de perder tanta gente. Propõe fugir nas naus, porque Troia não cairá. Todos se calam por muito tempo. Diomedes rompe o silêncio e o enfrenta primeiro, com o direito de quem fala em assembleia: Agamêmnon o chamou de sem ânimo de combate, mas Zeus lhe deu o cetro e a honra, não a coragem. Se quiser ir, que vá; os outros ficam até Ílio cair, e Diomedes e Estenelo lutarão até o fim, porque vieram com um deus. Os aqueus o aclamam. Nestor o elogia, mas diz que ele não chegou ao fim do assunto. Manda pôr guardas ao longo do fosso e aconselha Agamêmnon a dar um banquete aos anciãos, onde se tomará o melhor conselho, porque os troianos queimam fogueiras junto às naus e a noite decidirá se o exército se perde ou se salva.

Sete chefes de guarda, com cem jovens cada um, tomam posição entre o fosso e o muro. No banquete, Nestor começa a falar: lembra que avisou Agamêmnon quando este tomou Briseida de Aquiles, mas o rei cedeu ao ânimo e desonrou um homem que os imortais honraram. Propõe apaziguá-lo com presentes e palavras brandas. Agamêmnon concorda, diz que errou e que um homem a quem Zeus ama vale por muitos povos, e lista o que dará: sete trípodes, dez talentos de ouro, vinte caldeirões, doze cavalos de prêmio, sete mulheres de Lesbos e Briseida de volta, com juramento de nunca a ter tocado; depois da queda de Troia, uma nau cheia de ouro e bronze e vinte troianas; em Argos, a mão de uma das três filhas sem preço de noiva, honra igual à de Orestes e sete cidades. Termina exigindo que Aquiles se submeta, porque Hades, que não cede, é o mais odiado dos deuses, e porque ele é mais rei e mais velho. Nestor aprova e designa a embaixada: Fênix à frente, depois Ájax e Odisseu, com os arautos Ódio e Euríbates. Fazem libação e partem, rezando ao longo da praia a Poseidon, para que o ânimo de Aquiles ceda com facilidade.

Aquiles os recebe tocando lira e cantando feitos de homens, com Pátroclo sentado em silêncio diante dele. Levanta-se de um salto, acolhe-os como os mais queridos dos aqueus, apesar da ira, e manda Pátroclo preparar vinho e carne; ele mesmo corta a carne. Depois da ceia, Ájax faz sinal a Fênix e Odisseu fala: brinda a Aquiles, diz que a mesa não é o que os preocupa, mas a ruína iminente, porque os troianos acamparam junto às naus e Heitor, confiado em Zeus, promete queimá-las ao amanhecer. Lembra o conselho de Peleu ao enviá-lo a Agamêmnon: conter o ânimo, pois a boa vontade vale mais. Repete a lista de presentes de Agamêmnon, sem o último pedido, e acrescenta: se o Atrida lhe é odioso, que tenha pena dos outros aqueus, que o honrarão como a um deus, e que mate Heitor, que está para se aproximar.

Aquiles responde a Odisseu que dirá claramente o que pensa, porque odeia quem esconde uma coisa e diz outra. Não crê que Agamêmnon nem os outros o convençam, porque não há gratidão em lutar sem descanso: a mesma sorte cabe a quem fica e a quem luta, e a mesma honra ao bom e ao mau. Conta que saqueou doze cidades por mar e onze por terra e entregou tudo a Agamêmnon, que ficava para trás e repartia pouco, e que o rei lhe tomou o prêmio só a ele, enquanto os outros guardam os seus. Pergunta por que se luta, se não é por Helena, e diz que amava Briseida como um homem bom ama a sua, embora fosse cativa. Agamêmnon o enganou e não o enganará de novo; os presentes lhe são odiosos, e nem dez ou vinte vezes mais o convenceriam antes que o rei pague a afronta inteira. Não casará com a filha dele: Peleu lhe procurará mulher. Para ele, a vida vale mais que toda a riqueza de Ílio ou do santuário de Apolo em Pito: bois e trípodes se obtêm, a vida não volta. Tétis, sua mãe, lhe disse que há dois fins possíveis: ficar e ter glória sem volta, ou voltar e ter vida longa sem glória. Ele aconselharia os outros a zarpar; ele mesmo zarpará de manhã, se quiserem ver, e em três dias estará na Ftia. Convida Fênix a ficar e decidir amanhã se vai com ele, sem constrangimento.

Todos se calam. Fênix, chorando, teme pelas naus e diz que não ficaria sem ele: Peleu o enviou para ensiná-lo a falar e a agir. Conta que fugiu da casa do pai, que o amaldiçoou por causa de uma concubina, e que Peleu o acolheu e o fez rei dos dólopes. Criou Aquiles como filho, e este, pequeno, molhava de vinho a túnica dele, porque os deuses não lhe deram filho. Pede que domine o ânimo: os próprios deuses se deixam dobrar por sacrifícios e preces, e as Súplicas, filhas de Zeus, vão atrás de Ate para curá-la; quem as recusa atrai Ate. Se Agamêmnon só prometesse e ameaçasse, ele não aconselharia deixar a ira; mas o rei dá presentes agora e envia os melhores homens. Conta de Meleagro, que, irado com a mãe, ficou em casa e deixou os etólios perderem para os curetes, apesar dos pedidos do pai, dos sacerdotes, dos irmãos e dos amigos, até que a esposa descreveu o que sofre uma cidade tomada e ele saiu, sem os presentes. Aconselha Aquiles a aceitá-los e a ser honrado como um deus; se entrar na guerra sem eles, não terá a mesma honra.

Aquiles diz a Fênix que não precisa dessa honra, porque se tem por honrado pela decisão de Zeus, que o manterá junto às naus enquanto tiver fôlego. Pede que não o perturbe chorando para agradar ao Atrida, oferece-lhe reinar com ele e ter metade da honra, manda que fique e durma e promete decidirem de manhã se partem ou ficam. Faz sinal a Pátroclo para preparar a cama de Fênix. Ájax diz a Odisseu que a missão não será cumprida por esse caminho e que devem levar a resposta. A Aquiles, lembra que os homens aceitam resgate pelo irmão ou pelo filho morto, e que os deuses lhe puseram um ânimo implacável por uma só moça, quando agora lhe oferecem sete; pede que respeite o teto sob o qual estão. Aquiles diz que tudo lhe parece falado segundo o seu ânimo, mas que o coração se incha de ira ao lembrar que Agamêmnon o tratou como a um migrante sem honra. Que levem a resposta: só pensará na guerra quando Heitor chegar às tendas e às naus dos mirmidões, matando argivos e queimando as naus; junto à sua tenda, acha que Heitor será detido.

Os três voltam com libação, Odisseu à frente. Pátroclo faz a cama de Fênix; Aquiles dorme no fundo da tenda com Diomede, filha de Fórbas, trazida de Lesbos, e Pátroclo, do outro lado, com Ifis, que Aquiles lhe deu ao tomar Esciro. Na tenda de Agamêmnon, os chefes recebem os embaixadores com taças de ouro, e o rei pergunta primeiro: Aquiles quer defender as naus ou recusou? Odisseu responde que ele não quer apagar a ira, recusa o rei e os presentes, manda que o próprio rei pense como salvar as naus e o exército, e ameaça lançar as naus ao mar ao amanhecer, dizendo que aconselharia os outros a voltar, porque Ílio não cairá. Fênix ficou para seguir para casa, se quiser, mas não à força. Ájax e os arautos podem confirmar. Todos se calam. Diomedes rompe o silêncio: o rei não devia ter suplicado ao filho de Peleu com tantos presentes, que ele já é orgulhoso e agora mais ainda. Que o deixem ir ou ficar, e ele lutará quando o ânimo e um deus o levarem. Que todos comam e durmam, e de manhã Agamêmnon ponha a tropa em ordem e lute entre os primeiros. Os reis aprovam, e cada um vai dormir.

Análise

A embaixada tenta quatro caminhos: a reparação em coisas (Agamêmnon, na voz de Odisseu), a glória e a compaixão (o apelo final de Odisseu), a relação e o exemplo (Fênix) e o costume e a hospitalidade (Ájax). Aquiles responde a cada um com algo diferente, e a recusa se desloca ao longo da noite: a Odisseu, "zarpo amanhã"; a Fênix, "decidiremos de manhã"; a Ájax, "só quando Heitor chegar às minhas naus". O canto não mostra Aquiles decidindo, mostra a recusa encolhendo.

O que Agamêmnon oferece é reparação em objetos, e o que Aquiles diz ter perdido é de outra ordem: o prêmio, a vida em risco sem retorno, o tratamento recebido. Daí o desencontro: cada oferta aumenta a lista e não toca na queixa. O canto também faz Agamêmnon dizer duas coisas sobre a origem da derrota, que Zeus o enganou e que ele desvariou, e a segunda só aparece quando Nestor o confronta com os fatos. Diomedes, que abre e fecha a noite, é quem diz que a coragem não vem do cetro nem dos presentes: vem do ânimo e de um deus (9.39, 9.697-703).

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