Clavis Libri

Ilíada · Canto XXII

A morte de Heitor

Resumo do capítulo

Os troianos que fugiram para a cidade se refrescam do suor e da sede, recostados nas ameias como cervos, e os aqueus se aproximam do muro com os escudos inclinados sobre os ombros. Só Heitor fica do lado de fora, diante das Portas Ceias de Troia, preso ali pela moira funesta. Apolo, que acabara de afastar Aquiles da perseguição sob a figura do troiano Agenor, mostra-se agora como deus e pergunta por que um mortal persegue um imortal: Aquiles já não se importa com os troianos que fugiram, diz ele, e não poderá matá-lo, porque ele não está destinado à morte. Aquiles responde indignado que o deus o enganou, tirou-o do muro, roubou-lhe grande glória e salvou os troianos sem temer castigo, e que se vingaria se tivesse força para isso. Depois corre de volta para a cidade, e Príamo o vê primeiro, brilhando como o astro do outono que traz febre aos mortais.

Do alto da muralha, Príamo geme, bate na cabeça e suplica ao filho, de braços estendidos, que não espere sozinho esse homem muito mais forte, para não ser vencido cedo. Fala de dois filhos, Licáone e Polidoro, que não vê entre os que voltaram à cidade: se estiverem vivos, serão resgatados com bronze e ouro; se estiverem mortos, a dor será dele e da mãe, e será mais curta para o resto do povo, a menos que Heitor também morra. Pede que o filho entre, salve os troianos e as troianas e tenha piedade do velho que ainda pensa, a quem Zeus vai destruir no limiar da velhice, depois de ver os filhos mortos, as filhas arrastadas, os netos lançados ao chão e os cães que ele criou à mesa devorando-o à porta. Para um jovem morto em combate tudo é belo, diz ele, mas os cães desonrando a cabeça branca e a nudez de um velho morto são a coisa mais lastimável entre os mortais. Arranca os cabelos brancos e não convence Heitor. A mãe, Hécuba, chora do outro lado, abre o vestido e mostra o seio: pede ao filho que respeite o gesto, que se lembre do peito que lhe deu e que defenda a cidade de dentro do muro. Se Aquiles o matar, ela não poderá chorá-lo no leito, nem a esposa de ricos dotes, porque os cães velozes o comerão junto às naus dos argivos, longe dos dois. Pai e mãe não o persuadem, e Heitor continua à espera de Aquiles, como a serpente da montanha diante da toca, que comeu ervas más e está cheia de ódio.

Sozinho junto ao muro, Heitor discute consigo mesmo. Se entrar, Polidamante será o primeiro a censurá-lo: aconselhara-o a recuar para a cidade na noite em que Aquiles voltou a se levantar, e Heitor não obedeceu, e agora perdeu o exército por sua própria loucura. Tem vergonha dos troianos e das troianas, e prefere voltar tendo matado Aquiles ou morrer com fama diante da cidade. Imagina depor o escudo, o elmo e a lança e ir ao encontro de Aquiles prometendo Helena, os bens que Páris levou para Troia e metade do que a cidade guarda, e logo descarta a ideia: Aquiles não teria piedade, mataria um homem nu, como se mata uma mulher. Não há conversa possível, "do carvalho ou da rocha", como a de uma moça e um rapaz; é melhor lutar o mais depressa possível e ver a quem o Olímpio dá a glória.

Aquiles chega, semelhante a Eniálio, agitando a lança de freixo, o bronze brilhando como fogo ou como o sol nascente. Um tremor toma Heitor, que abandona as portas e foge, e Aquiles o persegue como o falcão persegue a pomba. Correm pela estrada de carros, passam pela atalaia, pela figueira batida de vento e pelas duas fontes do Escamandro, uma quente e outra fria, junto às quais as troianas lavavam roupa em tempo de paz. Não correm por um animal de sacrifício nem por um escudo de couro, mas pela vida de Heitor, e dão três voltas à cidade. Os deuses olham, e Zeus lamenta ver diante dos muros o homem que lhe queimara tantas coxas de boi no Ida e na acrópole; pergunta aos deuses se o salvam da morte ou o entregam logo a Aquiles. Atena objeta que ele quer livrar da morte um mortal destinado há muito pela moira, e que os outros deuses não o aprovam. Zeus diz que não fala com ânimo firme, quer ser brando com ela e manda que faça o que tem em mente, e Atena desce do Olimpo.

Aquiles não deixa Heitor sair de perto dele: toda vez que Heitor tenta alcançar as portas dardânias para que os arqueiros o ajudem do alto, Aquiles se adianta e o empurra de volta para a planície. Fazem o que se faz em sonho, quando um não pode fugir nem o outro alcançar. O narrador diz que Heitor não teria escapado às Queres se Apolo não lhe desse força nos joelhos pela última vez, e que Aquiles faz sinal com a cabeça aos seus para que ninguém lance flechas, a fim de que nenhum outro leve a glória e ele chegue em segundo. Na quarta volta, junto às fontes, Zeus estende a balança de ouro e põe nos pratos as duas Queres, a de Aquiles e a de Heitor. O dia de Heitor desce para o Hades, e Apolo o deixa. Atena chega a Aquiles e diz que agora os dois levarão grande glória às naus, que Heitor não escapará mais, mesmo que Apolo se esforce, e que ele descanse enquanto ela o persuade a lutar.

Atena toma a figura de Deífobo, irmão de Heitor, com a voz dele, e propõe que os dois parem e se defendam juntos. Heitor responde que sempre foi o mais querido dos irmãos e agora o honra ainda mais, porque Deífobo teve a coragem de sair do muro por ele enquanto os outros ficaram dentro. A falsa Deífobo diz que o pai, a mãe e os companheiros imploraram que ele ficasse, tamanho o medo de todos, mas que o coração dele sofria de luto; que lutem agora sem poupar lanças, para ver se Aquiles os mata e leva os despojos às naus ou se é vencido pela lança de Heitor. Quando se aproximam, Heitor diz que não fugirá mais, como fez nas três voltas, e que o ânimo o mandou ficar diante de Aquiles: ou o mata, ou morre. Propõe que os deuses sejam testemunhas de um pacto: se Zeus lhe der a vitória, ele não maltratará o corpo, apenas lhe tirará as armas e o devolverá aos aqueus; que Aquiles faça o mesmo. Aquiles o fita com ódio e recusa qualquer pacto, comparando-o a leões e homens ou a lobos e cordeiros, que não podem entrar em acordo. Diz que Atena o dominará logo com a lança dele e que Heitor pagará de uma vez todas as dores dos companheiros que matou.

Aquiles arremessa a lança, e Heitor, vendo-a vir, abaixa-se e ela passa por cima e se crava no chão. Atena a arranca e a devolve a Aquiles, sem que Heitor perceba. Heitor diz que Aquiles errou, que não sabia do destino dele por Zeus, como dizia, e que aquilo era habilidade de língua e astúcia, para que Heitor esquecesse a coragem de medo. Não lhe enterrará a lança nas costas, mas no peito, se um deus lhe der isso, e a guerra ficará mais leve para os troianos quando Aquiles morrer, pois ele é o pior flagelo que têm. Heitor lança então a sua, acerta o centro do escudo de Aquiles, e a lança cai longe. Heitor fica abatido, sem outra lança, e chama alto Deífobo pedindo uma, e ninguém está perto. Entende então a verdade: os deuses o chamaram à morte, Deífobo está dentro do muro e Atena o enganou. A morte está agora perto, e Zeus e Apolo, que antes o protegiam, já não o fazem, e a moira o alcança. Mas não morrerá sem luta e sem glória, e fará algo grande que os vindouros possam saber. Saca a espada e se lança como a águia que mergulha das nuvens sobre o cordeiro ou a lebre.

Aquiles também avança, cobrindo o peito com o belo escudo e agitando o elmo de quatro cones com as crinas de ouro que Hefesto lhe pôs. Olha o corpo de Heitor para ver por onde a carne cede mais, e vê que as armas que ele veste, as que tirou de Pátroclo, o cobrem inteiro, exceto onde as clavículas separam o pescoço dos ombros, a garganta, por onde a vida se perde mais depressa. Ali enterra a lança, que atravessa o pescoço delicado, mas sem cortar a traqueia, para que Heitor ainda possa falar. Heitor cai no pó, e Aquiles se vangloria: Heitor julgou que Pátroclo estava a salvo e não o temeu quando ele estava longe, mas ele ficou nas naus, um auxiliar muito melhor, e soltou os joelhos de Heitor; os cães e as aves o despedaçarão, enquanto os aqueus enterrarão Pátroclo. Heitor suplica por sua vida, por seus joelhos e por seus pais que não o deixe aos cães junto às naus, e oferece o bronze e o ouro que seu pai e sua mãe darão, para que o corpo volte à casa e os troianos e as esposas dos troianos lhe deem o fogo. Aquiles o chama de cão e responde que não há quem afaste os cães da cabeça dele, ainda que dez ou vinte vezes o resgate fosse trazido, ainda que Príamo mandasse pesar o corpo em ouro, e que a mãe não o chorará no leito. Heitor, morrendo, responde que já esperava isso, pois Aquiles tem no peito um coração de ferro, e o avisa de que será para ele motivo de ira dos deuses no dia em que Páris e Apolo o destruírem às Portas Ceias. A morte o cobre, a alma voa para o Hades chorando seu destino, e Aquiles diz ao morto que aceitará a própria Quere quando Zeus e os outros deuses quiserem.

Aquiles tira a lança do corpo e despoja as armas ensanguentadas, e os outros filhos dos aqueus correm a admirar a altura e a beleza de Heitor, e nenhum deixa de feri-lo, dizendo que ele está mais mole de tocar do que quando incendiou as naus. Aquiles propõe aos chefes que cerquem a cidade armados, para ver se os troianos abandonam a cidade agora que Heitor caiu ou se querem ficar, e se interrompe: o corpo insepulto de Pátroclo jaz junto às naus, e ele não o esquecerá enquanto viver nem no Hades. Manda que os aqueus voltem cantando o peã às naus, levando Heitor, pois ganharam grande glória. Fura os tendões dos dois pés do morto, passa-lhes correias de couro de boi, amarra-o ao carro com a cabeça arrastando, sobe, ergue as armas e chicoteia os cavalos, que voam de bom grado. Do corpo arrastado sobe a poeira, os cabelos escuros se espalham, e a cabeça antes bela fica toda no pó, pois Zeus a concede então aos inimigos para a desonra, na pátria do próprio Heitor.

A mãe de Heitor arranca os cabelos e atira longe o véu brilhante, e dá um grande grito ao ver o filho; o pai geme, e o povo é tomado pelo lamento, como se toda a Ílion elevada ardesse do alto. Os homens mal conseguem segurar Príamo, que quer sair pelas portas dardânias; o velho rola no esterco e chama cada homem pelo nome, pedindo que o deixem ir sozinho às naus suplicar a esse homem violento e insolente, para ver se respeita a idade e tem piedade da velhice, pois ele também tem um pai, Peleu. Dos muitos filhos que Aquiles lhe matou, chora mais por um, Heitor, e diz que ele devia ter morrido nos braços dos pais. O povo geme com ele, e Hécuba pergunta ao filho morto o que será dela agora, a ela que o tinha por glória e proveito na cidade e que o via honrado como um deus.

Andrômaca ainda não sabe: nenhum mensageiro lhe disse que o marido ficou do lado de fora das portas, e ela tece no fundo da casa um manto púrpura dobrado, bordando flores, e manda as servas pôr o grande tripé no fogo para que Heitor tenha água quente ao voltar do combate. Ouve gritos e lamentos da torre, estremece, a lançadeira cai-lhe da mão e ela chama duas servas para irem ver. Teme que Aquiles tenha cortado a Heitor o caminho da cidade e o persiga pela planície, e que lhe tenha tirado a ousadia que o fazia nunca esperar entre os homens, mas ir sempre à frente. Sai do palácio como louca, com o coração saltando, e, do muro, vê o marido sendo arrastado pelos cavalos diante da cidade. A noite cobre os olhos dela, e ela cai de costas, perdendo o fôlego, e arremessa longe a touca, o véu e a rede que Afrodite lhe dera no dia em que Heitor a levou da casa de Eécion com ricos presentes. As cunhadas e as noras a cercam e a amparam. Quando volta a si, lamenta entre as troianas: nasceram os dois sob a mesma sorte, ele em Troia, ela em Tebas, na casa de Eécion, que a criou; agora ele desce à casa de Hades e a deixa viúva, e o filho ainda é um menino pequeno. Heitor não será proveito para ele, nem ele para Heitor: mesmo que escape à guerra, outros lhe tirarão os campos, e o dia da orfandade deixa uma criança sem companhia. Ele vai, de cabeça baixa, de rosto molhado, puxar a capa de um e o manto de outro; um deles, por piedade, lhe estende a taça um instante, molha-lhe os lábios e não o palato, e um menino de pais vivos o expulsa da mesa com pancadas e insultos. Ela volta ao que resta: as roupas finas que as mulheres teceram jazem na casa, e ela as queimará todas, sem proveito para o morto, mas para que haja glória dele diante dos troianos e das troianas. As mulheres gemem com ela.

Análise

O canto mostra Heitor morrendo por duas razões que não se contradizem. A razão que o texto dá nas suas falas é a vergonha: ele não entra porque erguerá contra si Polidamante e os troianos, e é por isso que sai de trás do muro. A razão que o texto dá nas falas dos deuses é a moira, pesada na balança de Zeus. O poema não deixa uma apagar a outra: Heitor escolhe ficar, e a balança já tinha o resultado. Até o engano de Atena é lido de dois modos: ela o desvia da fuga, mas só porque ele, já sozinho, aceita crer que há alguém ao lado dele.

O canto tem três cenas de súplica seguidas, e as três dizem a mesma coisa de maneiras diferentes. Os pais suplicam a Heitor que entre; Heitor suplica a Aquiles que devolva o corpo; Príamo, ao fim, quer suplicar a Aquiles, e o povo o segura. Em todas, o que se pede é que o corpo de Heitor não vá aos cães. A recusa de Aquiles não é contra um pedido, é contra o rito: nega a Heitor o fogo e o pranto, os dois gestos que o poema usa para medir uma morte humana. O fecho de Andrômaca, que queima as roupas porque o corpo não vai vesti-las, devolve a Heitor o que Aquiles lhe nega, em pano e em fogo.

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