Resumo do capítulo
Nestor, que bebe vinho na tenda com o ferido Macáon, ouve o clamor crescer junto às naus e decide ver o que se passa. Manda Macáon continuar a beber até Hecamede esquentar a água do banho, pega o escudo do filho Trasimedes e a lança e sai. Vê os aqueus em desordem, os troianos soberbos no encalço deles e o muro dos aqueus por terra. Hesita como o mar que escurece e não se move enquanto não desce o vento que Zeus manda: vai ao meio da tropa ou procura Agamêmnon? Julga mais proveitoso ir ao rei.
No caminho encontra o próprio Agamêmnon com Odisseu e Diomedes, os três feridos, que sobem das naus apoiados nas lanças. As naus estavam puxadas em várias fileiras ao longo da praia, porque a baía era estreita demais para todas, de modo que o muro fora erguido atrás das popas. A chegada de Nestor aumenta a angústia dos três. Agamêmnon pergunta por que ele deixou a guerra e confessa o seu temor: que Heitor cumpra a ameaça de só voltar a Ílion depois de queimar as naus e matar os gregos. Acrescenta que os outros aqueus parecem guardar contra ele a mesma cólera de Aquiles e não querem lutar junto às naus. Nestor responde que o pior já se consumou: o muro em que confiavam caiu, a luta se trava nas popas, e a confusão é tanta que não se vê para onde fogem os aqueus. Propõe deliberar, mas diz que não convém voltar à luta, porque os feridos não servem para combater.
Agamêmnon conclui que Zeus quer ver os aqueus perecerem longe de Argos, sem nome: o muro e o fosso de nada valeram, e o deus, que antes os ajudava, agora exalta os troianos como a imortais e prende a força dos gregos. Propõe lançar ao mar as naus mais próximas da água, fundeá-las ao largo e esperar a noite, para puxar todas as outras se os troianos pararem de lutar; fugir ao mal, diz, não é vergonha, nem de noite. Odisseu o encara de través e o repreende com dureza: devia comandar algum exército sem valor, e não homens a quem Zeus destinou guerras da juventude à velhice. Com a luta ainda indecisa, arrastar as naus ao mar daria aos troianos o que desejam e tiraria dos aqueus o ânimo de combater. Manda-o calar, para que nenhum outro aqueu ouça tal proposta. Agamêmnon cede: a repreensão lhe feriu o ânimo, ele não pretende obrigar ninguém a lançar as naus ao mar e aceitará melhor conselho, de jovem ou de velho.
Diomedes, o mais novo dos presentes, pede que o ouçam sem se irritarem com a sua idade e apoia a palavra na linhagem: é filho de Tideu, enterrado em Tebas, e neto de Eneu, de Cálidon; Tideu, errante por vontade de Zeus e dos outros deuses, instalou-se em Argos, casou com uma filha de Adrasto e ficou rico, excelente com a lança. Dito isso, propõe voltar ao combate, ainda que feridos, por necessidade, mas ficar fora do alcance dos dardos, para que ninguém some ferida a ferida, e incitar os que antes se afastaram e não lutam. Todos obedecem, e Agamêmnon os conduz.
Poseidon, o abalador da terra, não estava desatento: toma a forma de um velho, segura a mão de Agamêmnon e lhe diz que o coração de Aquiles deve se alegrar com a matança e a fuga dos aqueus, pois lhe falta juízo; deseja que Aquiles morra e garante ao rei que os deuses não estão de todo irados com ele, pois logo verá os chefes troianos fugirem para a cidade. Dá então um grito do tamanho do de dez mil homens e infunde força em cada aqueu.
Do alto do Olimpo, Hera vê Poseidon, seu irmão e cunhado, ajudando nas filas, e se alegra; vê Zeus sentado no cimo do Ida e o acha odioso. Decide enganá-lo: irá ao Ida, arrumada com cuidado, para ver se ele deseja deitar-se com ela, e então derramará sono sobre as pálpebras dele. Vai ao quarto que o filho Hefesto lhe construiu, de porta com fecho secreto que nenhum outro deus abre, banha-se em ambrosia, unge-se com óleo, penteia as tranças, veste o manto que Atena teceu, prende o cinto de cem franjas, põe brincos e véu e calça as sandálias. Chama Afrodite à parte e pede o amor e o desejo com que ela domina deuses e homens, dizendo que vai ao fim da terra visitar Oceano e Tétis (a antiga deusa do mar, que não é a mãe de Aquiles), que a criaram, para pôr fim à briga entre os dois, que há muito evitam o leito um do outro. Afrodite não vê como recusar a quem dorme nos braços de Zeus e tira do peito o cinto bordado, onde estão o amor, o desejo, a conversa íntima e a sedução que rouba o juízo até dos sensatos. Hera sorri e o guarda no seio.
Hera voa até Lemnos, encontra o Sono, irmão da Morte, e lhe pede que adormeça os olhos de Zeus assim que ela se deitar com ele, prometendo um trono de ouro, obra de Hefesto. O Sono recusa: adormeceria qualquer deus, até Oceano, mas só se aproxima de Zeus se este mandar. Lembra que da última vez, quando Hera lançou tempestades contra Héracles, que voltava de Troia, Zeus acordou furioso, o procurou entre os deuses e o teria atirado ao mar se a Noite não o tivesse protegido. Hera pergunta se ele acredita que Zeus ajudará os troianos como se irritou por Héracles e oferece uma das Graças mais novas como esposa. O Sono aceita, nomeia Pasitea, a que deseja há tempo, e exige o juramento pelas águas do Estige; Hera jura, invocando os deuses Titãs do Tártaro. Seguem os dois envoltos em névoa por Lemnos e Imbros até o Ida; ali o Sono sobe a um abeto altíssimo e fica oculto, disfarçado de pássaro.
Hera chega ao Gárgaro, e Zeus, ao vê-la, sente o desejo cobrir-lhe o juízo, como na primeira vez em que se deitaram, escondidos dos pais. Pergunta aonde ela vai, sem carro nem cavalos; Hera repete a mentira (Oceano e Tétis, os cavalos esperando no sopé do Ida, e ela veio só avisá-lo para que ele não se zangue depois). Zeus a convida ao leito e jura que nenhuma deusa nem mulher o dominou assim, enumerando as que amou, entre elas a mulher de Ixíon, Dânae, a filha de Fênix, Sêmele, Alcmena, Deméter e Leto, para dizer que nenhuma o inflamou como ela. Hera objeta que o cume do Ida é visível, que um deus poderia vê-los e contar a todos, e propõe o quarto de Hefesto. Zeus a tranquiliza: cobrirá os dois com uma nuvem dourada que nem o Sol atravessa. Abraça a esposa; a terra faz brotar relva, lótus, açafrão e jacinto, e eles se deitam sob a nuvem, de onde caem gotas de orvalho. Zeus adormece, vencido pelo sono e pelo amor.
O Sono corre às naus e diz a Poseidon que ajude os dânaos e lhes dê glória, ainda que por pouco, enquanto Zeus dorme; Hera o enganou. Poseidon vai à frente e exorta os aqueus: vão ceder de novo a vitória a Heitor, que se gaba porque Aquiles fica nas naus, irado? Aquiles fará pouca falta se os outros se ajudarem. Manda trocar as armas: os melhores escudos e elmos para os melhores, e quem tem escudo pequeno o entrega ao mais fraco em troca de um maior. Os reis feridos, Diomedes, Odisseu e Agamêmnon, percorrem as filas cuidando da troca. Poseidon avança com uma espada longa e terrível, que não é permitido enfrentar no combate; Heitor ordena os troianos do outro lado. O mar sobe às tendas, e o grito dos dois exércitos supera o das ondas, o do fogo na floresta e o do vento nos carvalhos.
Heitor lança primeiro contra Ájax e acerta o ponto em que se cruzam os dois talabartes, o do escudo e o da espada, que defendem a pele de Ájax; irritado com o lance perdido, recua para o grupo. Ájax Telamônio pega uma das pedras que calçam as naus e o acerta no peito, acima da borda do escudo; Heitor gira como um pião e cai como um carvalho fulminado pelo raio de Zeus. Os aqueus correm para arrastá-lo, mas os melhores troianos, Polidamante, Eneias, Agenor, Sarpédon e Glauco, o cercam, e os companheiros o levam aos cavalos e à cidade. No vau do Xanto, jogam-lhe água; ele recobra o fôlego, ajoelha-se, vomita sangue escuro e cai de novo, com a noite sobre os olhos.
Ao ver Heitor fora do combate, os aqueus avançam com novo ardor. Ájax, filho de Oileu, ataca primeiro e fere Sátnio; Polidamante mata Protoenor e se vangloria de que a lança lhe servirá de cajado até o Hades. Ájax Telamônio, que viu Protoenor cair ao seu lado, arremessa a lança contra Polidamante; este se esquiva, e a lança mata Arquéloco, filho de Antenor, a quem os deuses destinavam a morte. Ájax lhe pergunta se esse morto não paga Protoenor. Acamante mata o beócio Prómaco, que arrastava um morto pelos pés, e proclama que a vingança do irmão não ficará sem pagamento: é bom que o homem deixe em casa um parente que o vingue. Peneleu, tomado de dor, mata Ilioneu, filho único de Forbante e favorito de Hermes, atravessando-lhe o olho com a lança; corta-lhe a cabeça e a ergue como uma papoula, mandando os troianos dizerem aos pais dele que o chorem, e que a mulher de Prómaco não se alegrará com o marido quando os aqueus partirem de Troia. O terror toma os troianos.
O poeta invoca as Musas para dizer quem foi o primeiro a tomar despojos depois que Poseidon virou a batalha. Ájax Telamônio mata Hírtio, chefe dos mísios; Antíloco mata Falces e Mérmero; Meríones, Móris e Hipotíon; Teucro, Protoon e Perifetes; um dos Atridas fere Hiperenor na ilharga, e a alma lhe foge pela ferida. Quem mata mais é Ájax, filho de Oileu, que nenhum homem iguala na perseguição aos que fogem quando Zeus lhes manda o pânico.
Análise
O canto monta uma inversão com poucas peças. Nos dois primeiros terços os aqueus perdem porque Zeus os abandonou, como diz Agamêmnon (14.69-73); depois que Zeus adormece, perdem os troianos, e Heitor cai por uma pedra. Quem vira a batalha não é nenhum homem: é uma mulher que mente e um deus que a ajuda. O que os homens fazem é permanecer de pé, e é isso que dá ao favor de Poseidon algo a que se agarrar: Odisseu e Diomedes impedem a fuga antes de qualquer ajuda divina. O Sono avisa que o favor é breve (14.357), e o prazo é conhecido por Hera, pelo Sono e por Poseidon, e por mais ninguém.
Os discursos do conselho mostram quatro modos de falar a um rei. Nestor aponta o fato (o muro caiu), Agamêmnon propõe o que o fato parece pedir, Odisseu responde pelo efeito sobre o ânimo do exército, e Diomedes, o mais novo, pede ouvidos pela linhagem e propõe um meio-termo viável. É o último que prevalece, e seu plano deixa os reis feridos fora do alcance dos dardos, de modo que a autoridade sobrevive sem custo de corpo. O que os conselheiros conseguem é manter o exército de pé; o que decide a batalha vem de fora do conselho, dos deuses.
Assinatura
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