Resumo do capítulo
A batalha, deixada a si mesma, se espalha pela planície entre o Simoente e o Xanto. Ájax rompe primeiro a falange troiana e mata Acamante, o melhor dos trácios. Diomedes mata Axilo, um homem rico e hospitaleiro, e o criado que lhe guiava os cavalos, e outros guerreiros caem de ambos os lados. Menelau já tem vivo diante de si Adrasto, que rolou do carro quando os cavalos se enroscaram numa tamargueira, e que lhe abraça os joelhos e promete um resgate enorme em bronze, ouro e ferro, que o pai rico pagará. Menelau, convencido, ia mandá-lo às naus, quando Agamêmnon chega correndo e o repreende: o irmão tem tanta pena dos troianos? Ninguém deve escapar, nem a criança ainda no ventre da mãe, e todos devem desaparecer de Ílion sem sepultura e sem rastro. O conselho, que o narrador qualifica de justo, vira o ânimo de Menelau, que afasta Adrasto com a mão; Agamêmnon o fere no flanco, e Menelau pisa-lhe o peito para arrancar a lança. Nestor grita aos argivos que ninguém se atrase no despojo dos mortos: primeiro matar, depois, com calma, despir os cadáveres.
Os troianos já subiriam derrotados a Ílion, não fosse Heleno, filho de Príamo e o melhor dos adivinhos. Ele diz a Eneias e a Heitor que o peso da luta recai sobre eles, por serem os melhores no combate e na decisão, e manda que fiquem ali e detenham a tropa diante das portas, antes que os soldados caiam fugindo nos braços das mulheres. Depois de reanimar as fileiras, Heitor deve ir à cidade e dizer à mãe que reúna as anciãs, abra o templo de Atena na cidadela e ponha o manto mais belo sobre os joelhos da deusa, prometendo doze novilhas se ela tiver piedade da cidade, das esposas e dos filhos e afastar de Ílion o filho de Tideu, selvagem lanceiro, mestre do pânico, que Heleno tem por o mais forte dos aqueus: nem Aquiles foi tão temido, diz ele, porque este Diomedes enlouquece e ninguém lhe iguala o ímpeto. Heitor obedece ao irmão: salta do carro armado, percorre o exército sacudindo as lanças e reacende a luta. Os argivos recuam, achando que um imortal desceu do céu para ajudar os troianos. Heitor grita aos aliados que lembrem a força guerreira e anuncia que vai a Ílion pedir aos anciãos e às mulheres que rezem e prometam hecatombes.
Entre os dois exércitos, Glauco, filho de Hipóloco, e Diomedes avançam um contra o outro. Diomedes, que nunca viu o adversário em batalha e se admira de que ele tenha esperado a sua lança, pergunta quem é, porque não luta contra deuses: lembra Licurgo, que perseguiu as amas de Dioniso, foi cegado por Zeus e morreu cedo, odiado pelos imortais. Se for mortal, que se aproxime para chegar mais depressa ao fim. Glauco responde que a geração dos homens é como a das folhas e, já que Diomedes quer saber, conta a sua linhagem: Sísifo, o mais astuto dos homens, depois Glauco e Belerofonte, a quem os deuses deram beleza e coragem. O rei Preto, muito mais poderoso, o expulsou da terra, porque a rainha Anteia, que o desejava em segredo e foi recusada, mentiu ao marido e disse que Belerofonte quis forçá-la. O rei, furioso, mas escrupuloso no ânimo para matar um hóspede, mandou-o à Lícia com sinais mortais gravados numa tabuinha, para que o sogro o matasse. O rei da Lícia o hospedou nove dias, leu o recado no décimo e o mandou matar a Quimera; depois ele lutou com os sólimos e com as amazonas, e por fim venceu uma emboscada dos melhores lícios, que matou até o último. Ao reconhecer nele um filho de deus, o rei o reteve, deu-lhe a filha e metade da honra real. Desse casamento nasceram Isandro, Hipóloco e Laodamia, que gerou Sarpédon de Zeus. Odiado depois pelos deuses, Belerofonte vagou sozinho pela planície Aleia, devorando o próprio ânimo; Ares matou Isandro em combate, e Ártemis, irada, matou Laodamia. Hipóloco, pai de Glauco, o mandou a Troia com a ordem de ser sempre o melhor.
Diomedes se alegra com a resposta, finca a lança na terra e fala com palavras doces: são hóspedes por herança, porque Eneu hospedou Belerofonte durante vinte dias e os dois trocaram presentes, o cinto de púrpura de Eneu e a taça de ouro de Belerofonte, que Diomedes tem em casa. De Tideu ele não se lembra, porque o pai o deixou criança, quando o exército aqueu foi destruído em Tebas. Propõe que cada um evite a lança do outro na multidão, pois há troianos e aliados bastantes para ele matar e aqueus bastantes para Glauco, e que troquem as armas, para que todos saibam que se dizem hóspedes dos pais. Apertam as mãos e se dão a palavra, mas Zeus tira o juízo de Glauco, que troca armas de ouro, de cem bois, por armas de bronze, de nove.
Heitor chega às Portas Ceias e ao carvalho, e as esposas e filhas dos troianos correm a perguntar pelos filhos, irmãos, amigos e maridos; ele manda todas rezarem aos deuses, e a muitas o luto já tocava. Na bela casa de Príamo, de câmaras de pedra polida para cinquenta filhos e doze genros, vem-lhe ao encontro a mãe, Hécuba, com Laódice, a mais bela das filhas. Ela se espanta de que ele tenha deixado a luta, supõe que tenha vindo erguer as mãos a Zeus da cidadela e oferece vinho, para que ele libe a Zeus e depois reanime o cansado. Heitor recusa: o vinho lhe tiraria a força e o faria esquecer a bravura, e não é lícito libar a Zeus com as mãos sem lavar, manchado de sangue e poeira. Pede que ela vá ao templo de Atena com as anciãs e repete o recado de Heleno, e diz que irá chamar Páris, desejando que a terra o engula, porque Zeus o criou como desgraça para Troia, Príamo e os filhos; se o visse descer ao Hades, esqueceria a dor. Hécuba reúne as anciãs, escolhe do tesouro o manto mais belo e mais amplo, obra das sidônias que Páris trouxe na viagem em que levou Helena, e vai ao templo. Teano, esposa de Antenor e sacerdotisa de Atena, abre as portas; as mulheres erguem as mãos com gritos; Teano põe o manto nos joelhos da deusa e pede que ela quebre a lança de Diomedes e o faça cair de bruços diante das Portas Ceias, prometendo as doze novilhas. Atena nega com a cabeça.
Heitor segue para a casa de Páris, construída pelo próprio Páris com os melhores artífices de Troia, entra com a lança de onze côvados e encontra Páris no quarto, polindo as armas, escudo, couraça e arco recurvo, enquanto Helena, entre as servas, dirige os trabalhos. Heitor o repreende: não é bom guardar a ira no peito, os homens morrem em torno da cidade e da muralha por causa dele, e o próprio Páris reprovaria outro que visse recuar da guerra. Páris reconhece que a censura foi justa e explica que ficou no quarto não por ira contra os troianos, mas por tristeza; agora a mulher o animou com palavras brandas, e ele já vai: que Heitor espere enquanto ele se arma, ou vá, e ele o alcança. Heitor não responde. Helena fala com doçura: chama a si mesma de cadela, maquinadora de males, deseja ter sido levada por uma tempestade antes de tudo isto e, já que os deuses decidiram o mal, desejaria ao menos um marido que conhecesse a censura dos homens; o atual não tem juízo firme, nem terá, e há de pagar por isso. Convida Heitor a sentar-se, porque o trabalho pesa mais sobre ele, por causa dela e da loucura de Páris, a quem Zeus deu um mau destino, para que sejam tema de canto entre os homens futuros. Heitor recusa: o ânimo já o impele a socorrer os troianos, que sentem a falta dele; que ela apresse Páris para alcançá-lo ainda dentro da cidade. Vai ver a casa, a mulher e o filho pequeno, pois não sabe se voltará a vê-los ou se os deuses já o dominarão pelas mãos aqueias.
Em casa, Heitor não encontra Andrômaca. A despenseira diz que ela foi à grande torre de Ílion, porque soube que os troianos estavam em apuros e que a força dos aqueus era grande, e que correu para a muralha como enlouquecida, com a ama levando o menino. Heitor refaz o caminho pelas ruas e chega às Portas Ceias, por onde sairia à planície, e a mulher vem ao seu encontro correndo, filha de Eécião, que reinava em Tebe, aos pés do monte Placo. Com ela vem a ama, que traz ao colo o filho pequeno, belo como estrela, que Heitor chama Escamândrio e os outros chamam Astianacte, porque só Heitor defendia Ílion. Ele sorri em silêncio ao ver o menino. Andrômaca, chorando, lhe toma a mão e fala: o ímpeto dele o perderá, ele não tem piedade do filho nem dela, que logo será viúva, pois os aqueus o matarão atacando todos juntos; seria melhor para ela descer à terra, porque, perdendo-o, não haverá mais conforto, só dor. Não tem pai nem mãe. Aquiles matou o pai, Eécião, ao tomar Tebe, mas poupou-lhe o corpo e o queimou com as armas, e as ninfas das montanhas plantaram olmos em volta do túmulo; os sete irmãos desceram ao Hades num só dia, mortos por Aquiles junto aos rebanhos; a mãe foi trazida com os bens e solta por um resgate imenso, e morreu na casa do pai, atingida por Ártemis. Heitor é para ela pai, mãe, irmão e esposo: que ele se compadeça, fique na torre e não faça do filho um órfão e da mulher uma viúva. Aconselha-o a pôr o exército junto à figueira, onde a cidade é mais acessível e o muro mais baixo, e onde os melhores aqueus, os dois Ájax, Idomeneu, os Atridas e o filho de Tideu, tentaram três vezes, por saberem de um oráculo ou por impulso próprio.
Heitor responde que tudo isso também lhe pesa, mas tem vergonha dos troianos e das troianas de mantos arrastados, se fugisse da guerra como um covarde; seu ânimo não o manda, porque aprendeu a ser valente e a combater entre os primeiros, ganhando glória para o pai e para si. Sabe bem, no íntimo, que virá o dia em que Ílion, Príamo e o povo de Príamo serão destruídos, e o que mais lhe dói não é a dor futura dos troianos, de Hécuba, de Príamo ou dos irmãos, mas a dela, levada em lágrimas por algum aqueu, a tecer em Argos para outra mulher e a carregar água de fontes alheias sob dura necessidade, e alguém dirá, ao ver-lhe o pranto, que aquela é a mulher de Heitor, o primeiro dos troianos domadores de cavalos quando lutavam em torno de Ílion. Prefere que a terra amontoada o cubra morto antes de ouvir o grito dela e saber que a arrastam. Estende os braços ao filho, que recua gritando para o seio da ama, assustado com o bronze e com o penacho de crina; o pai e a mãe riem, e Heitor tira o elmo e o pousa no chão, beija o filho, balança-o nos braços e reza a Zeus e aos outros deuses que o menino seja, como ele, ilustre entre os troianos, forte e rei de Ílion, e que algum dia digam, vendo-o voltar da guerra, que é muito melhor que o pai, e que ele traga espólio sangrento e alegre a mãe. Entrega-o à mulher, que o recebe no seio perfumado, rindo entre lágrimas. Heitor, compadecido, acaricia-a com a mão e diz que não se aflija: nenhum homem o mandará ao Hades contra a sua hora, e ninguém, nem mau nem bom, escapou da moira depois de nascer. Que ela volte para casa, ao tear e à roca, e mande as servas trabalhar: a guerra será assunto dos homens, de todos, e sobretudo dele. Ele recoloca o elmo de crina; Andrômaca vai para casa, olhando para trás, a verter lágrimas, e ao chegar à casa de Heitor faz as servas chorar: lamentam Heitor ainda vivo, certas de que não voltará da guerra.
Páris não demora na casa alta: veste as armas brilhantes e corre pela cidade, confiante nos pés rápidos, como o cavalo de estábulo que rompe a corda e galopa pela planície rumo ao rio onde costuma banhar-se, de cabeça erguida e crinas ao vento. Alcança Heitor quando este acabava de se despedir da mulher e pergunta se o está demorando. Heitor responde que nenhum homem justo desprezaria o trabalho da batalha, porque Páris é valente, mas que ele cede de propósito e não quer, e o coração lhe dói ao ouvir a vergonha que os troianos lançam sobre ele, que suportam grande fadiga por sua causa. Que vão: o resto resolverão depois, se Zeus permitir algum dia pôr no salão uma cratera de liberdade aos deuses, depois de expulsar de Troia os aqueus.
Análise
Heitor sabe tudo o que Andrômaca teme: sabe que Troia cai (447-449), imagina Andrômaca levada e chorando em Argos, e volta ao combate porque aprendeu a ser valente e a lutar entre os primeiros. O canto não escolhe entre o dever e a família; mostra os dois inteiros, e incompatíveis. Dentro do mesmo canto há o contraponto: Glauco e Diomedes descobrem um laço de hospitalidade e podem parar o duelo e trocar de armas, enquanto Heitor, que tem a mulher e o filho diante de si, não pode parar. A diferença não está no afeto, está no que cada um defende.
Três mulheres tentam deter Heitor com um gesto doméstico: Hécuba lhe oferece vinho, Helena lhe oferece um assento, Andrômaca lhe oferece o argumento da perda inteira. Heitor recusa os três e dá a cada um uma razão distinta: as mãos sujas de sangue, que não deixam libar a Zeus; o ânimo que já o impele a socorrer os troianos que sentem a sua falta; a vergonha diante dos troianos e das troianas. As três recusas têm em comum o destino: Heitor atende a cada uma com uma palavra de cuidado e volta à guerra.
Assinatura
A análise completa de cada canto de Ilíada está na assinatura, com a explicação de cada citação, o quiz, o guia em PDF e o caderno de estudos.